Longa do diretor Guillaume Nicloux revisita vida da atriz francesa, que sofreu grave acidente no Brasil 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sandrine Kiberlain como Sarah Bernhardt — Foto: Divulgação Primeira supercelebridade do mundo, primeira grande diva, artista que inspirou a expressão “monstro sagrado”, Sarah Bernhardt (1844-1923) merecia bem uma cinebiografia. E ela chegou, com um surpreendente atraso, dirão alguns. Em cartaz desde a última quinta-feira, “A divina Sarah Bernhardt”, de Guillaume Nicloux, reúne fragmentos da vida da atriz francesa, que dominou os palcos internacionais entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Muito antes da cultura de imagem hollywoodiana e da indústria das celebridades, a parisiense já estampava seu rosto em produtos (de biscoitos a papel higiênico), espalhava boatos de si mesma na imprensa e fazia turnês globais que deixariam Taylor Swift com inveja. No longa, ela ressurge pouco mais de cem anos após sua morte, encarnada pela atriz Sandrine Kiberlain. — Ela era a pessoa mais famosa do mundo em seu tempo porque fazia turnês de dois anos, apresentando-se até em circos — diz Nicloux, em entrevista por videoconferência. — É incrível pensar que, no início do século XX, alguém tenha inventado o star system e o hábito de dar autógrafos. Como o cinema ainda não dominava, o espetáculo era a presença real da pessoa. Quando ela transmitia essa carga poderosa, era uma fulguração: o público entrava em estados de verdadeira histeria. Sofrimento carioca As turnês de Sarah pelo Rio foram eventos culturais históricos para a cidade. A última delas, em 1905, mudou para sempre a vida da atriz. No final da apresentação da peça “La Tosca”, ela machucou gravemente o joelho saltando do muro em que a protagonista comete suicídio. Segundo o que dizem (mas não há confirmação), a produção teria esquecido de colocar os colchonetes de amortecimento no local da queda. A ferida nunca cicatrizou adequadamente, gerando dores crônicas que a acompanharam por uma década até culminar na amputação de sua perna, em 1916. É justamente nesse evento traumático que o filme começa. Sem obedecer a uma cronologia rígida, a narrativa vai e volta no tempo: passa pelo engajamento político no Caso Dreyfus, por sua busca irrestrita por liberdade e por seus romances com homens e mulheres. O principal eixo dramático do filme, contudo, é o turbulento romance de Sarah com o ator Lucien Guitry (Laurent Lafitte), um rabo de saia apelidado em seu tempo de “Divã, o terrível”, que abandonou a atriz por uma mulher mais nova. Cena de "A divina Sarah Bernhardt" — Foto: Divulgação O rompimento leva a uma aproximação de Sarah com o filho de Lucien, o lendário autor Sacha Guitry (Arthur Mazet), que viria a escrever a última peça encenada pela atriz, “Un sujet de roman” (1923). Outro personagem importante é a pintora Louise Abbéma (Amira Casar), retratista oficial de Sarah, com quem manteve desde 1875 uma relação ora fraterna ora amorosa. A narração impressionista e fragmentada, que mais parece uma colagem de momentos-chave, foge do retrato totalizante caro às cinebiografias. O diretor Guillaume Nicloux faz caber uma trajetória grandiloquente e efusiva em cenários recolhidos, como camas de hospitais, petit comité e ensaios teatrais. — Um retrato global sobre o que foi a vida de Sarah Bernhardt teria uma duração de quatro horas e um custo financeiro desproporcional — diz Nicloux. — A intenção foi criar uma verossimilhança ao redor dela para recriar o que, na época, pôde destacar uma pessoa tão atípica, tão singular e com toda a aura que ela transmitia. Sem imitações Há poucos registros filmados de Sarah jovem em cena (no auge da atriz, o cinema ainda engatinhava) e por isso é hoje impossível reproduzir com exatidão seu jogo de cena, que revolucionou o teatro ao abolir os espartilhos e atuar mais livremente. Sandrine Kiberlain não busca imitá-la, mas trazer sua própria imaginação e sensibilidade. — Sugeri à Sandrine que se deixasse levar por algo mais impalpável e instintivo — diz Nicloux. — Tínhamos toda a liberdade para reinventar algo que correspondesse à própria natureza de Sandrine e, ao mesmo tempo, lançasse uma ponte com esse fantasma que era a personagem. O longa já começa com uma licença poética: Sarah murmura suas falas na cena de morte da peça “A Dama das Camélias”, algo impossível no teatro. Ironicamente, a marca registrada a atriz era a intensidade única de suas cenas de agonia. — Morrer no teatro ou no cinema é uma forma de ressuscitar. Há algo de muito jubilatório e prazeroso nisso: pode-se morrer da pior maneira, com as dores mais intensas, e ainda assim ter a possibilidade de se levantar e viver de novo. Brinca-se com o sentimento de imortalidade. Sarah usou suas pequenas "mortes" para voltar ainda mais expressiva. Não interrompeu a turnê no Brasil mesmo após o acidente. Apesar amputação anos mais tarde, continuou ativa, animando as tropas francesas na Primeira Guerra. — Ela usava a dor, da mesma forma que Nicole Kidman opta hoje por sapatos menores para deixar seu desconforto visível em cena — diz Nicloux. — Sarah Bernhardt praticava o “Método Stanislavski” antes de ele existir, de forma intuitiva, indo até o limite do que sentia no palco. Ela frequentemente desmaiava em cena, e o público no teatro também. Era algo hipnótico e inovador compartilhar essa perda de consciência.
Inventora das celebridades, Sarah Bernhardt ganha cinebiografia: 'Foi a pessoa mais famosa do mundo'
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