Na China, o humilde ovo, há muito tempo coadjuvante em vários pratos, agora ocupa o centro das atenções. Em torno das mesas de jantar, famílias preocupadas com o orçamento reclamam da disparada repentina do preço. No campo, agricultores perplexos, que no ano passado se queixavam de um excesso de ovos jogando preços para baixo, agora temem a escassez. Nas barracas de comida, cozinheiros frustrados sofrem com o golpe duplo do encarecimento dos ovos e da alta dos custos de energia provocada pela guerra no Irã. Até a imprensa estatal passou a usar a expressão “ovos-foguete” para descrever a disparada dos preços. Os preços dos ovos subiram mais de 40% na China, em relação ao ano anterior, segundo um índice que acompanha as principais províncias produtoras. Recentemente, atingiram o maior nível em dez anos de acordo com outro indicador, que monitora os preços num mercado atacadista de Guantao, no norte do país, surpreendendo especialistas do setor. Numa nação superpopulosa que consome mais ovos por habitante do que quase qualquer outro no mundo, a alta dos preços é especialmente dolorosa. E tornou-se um paradoxo numa economia que ainda luta para se livrar de uma deflação generalizada, na qual o excesso de capacidade industrial e a relutância dos consumidores em gastar vêm provocando quedas de preços há vários anos. O preço da carne suína, por exemplo, atingiu recentemente o menor nível em 16 anos. Reflexos do Oriente Médio A guerra no Irã elevou os preços da energia e alimentou uma inflação ainda incipiente na China, mas isso veio acompanhado de uma desaceleração do crescimento econômico, uma combinação indesejada. Vendedora, à esquerda, entrega uma sacola de ovos a um cliente em um mercado de Xangai, na China — Foto: Qilai Shen/The New York Times O preço dos ovos é o tipo de questão capaz de atingir um ponto sensível, e não apenas na China. Os Estados Unidos enfrentaram sua própria crise dos ovos há pouco tempo, por causa de problemas nas cadeias de suprimentos e de um surto de gripe aviária. Os ovos tornaram-se tema da campanha presidencial de 2024, com Donald Trump usando a alta dos preços dos alimentos para atacar seus adversários. Da empolgação ao abate O problema chinês começou com avicultores excessivamente entusiasmados. Há dois anos, após várias temporadas de bons resultados, os produtores começaram a expandir seus negócios, acrescentando mais galinhas poedeiras entre 2024 e 2025 do que em qualquer outro período, segundo Aspen Li, analista que estuda o mercado de ovos. De repente, havia ovos demais, e os preços despencaram. Os produtores então ficaram sem dinheiro suficiente para alimentar todas as aves. Por isso, abateram as galinhas num ritmo considerado excessivo pelos especialistas. Com o tempo, deixou de haver poedeiras suficientes para atender à demanda, levando os preços a níveis que, segundo Li, ficaram “ainda mais altos do que eu esperava”. Demanda em alta e um culpado Ao mesmo tempo, a demanda tem sido particularmente forte, o que economistas atribuem a vários fatores, como adolescentes famintos que estudam para um concorrido exame nacional e a celebração de verão conhecida como Festival do Barco-Dragão. E alguns atribuem a alta dos custos a uma pessoa: Donald Trump. A guerra no Irã tornou o gás de cozinha mais caro. Os donos de um restaurante na cidade litorânea de Tianjin colocaram uma placa na vitrine para explicar que estavam aumentando em sete centavos de dólar o preço do jianbing, um crepe feito com ovos, verduras e biscoitos fritos, por causa de “Trump, que está elevando os preços”. Uma vendedora de uma barraca de comida em Xangai, na China, quebra um ovo enquanto prepara jianbing, uma popular panqueca salgada. Além dos ovos, o gás de cozinha também vem ficando mais caro — Foto: Qilai Shen/The New York Times Axuan Bu, de 25 anos, que administra duas barracas chamadas “Jianbing Man” na cidade de Jinhua, no leste do país, afirma que não consegue repassar aos clientes habituais o custo de seus crepes salgados de ovo. — Se você aumentar o preço, as pessoas simplesmente deixarão de comprar — disse. Bu utiliza 360 ovos a cada dois ou três dias e tem visto o preço subir alguns centavos toda vez que repõe o estoque. Uma caixa que antes custava US$ 25 agora sai por US$ 35. Para piorar, os botijões de gás usados para aquecer a chapa também aumentaram, de US$ 16 para US$ 22 cada, uma compra que ele precisa fazer a cada cinco dias. — Você corre de um lado para o outro mês após mês e, no fim, simplesmente não sobra nada — afirmou. Ao contrário da carne, os ovos não são facilmente substituídos, disse Hellen Zhang, da província oriental de Jiangsu, que, junto com o namorado, consome até sete ovos por dia — cozidos no café da manhã, mexidos com tomate no almoço e usados na massa de bolinhos de arroz. Os ovos representam um décimo do orçamento mensal do casal com alimentação, disse Zhang. — Mas, por mais caros que fiquem, você ainda precisa comer — afirmou. — Os preços sobem, mas você não pode abrir mão da proteína. Harriet Hua, da província de Guangdong, no sul, percebeu que o preço dos ovos começou a subir gradualmente em abril na plataforma de compras de supermercado que utiliza, chamada Pinduoduo. Desde então, a alta chegou a 20%. — Minha primeira reação foi: “Meu Deus, por que está tão caro?” Então parei de comprar, achando que esperaria o preço cair — disse Hua, que normalmente compra uma bandeja com 30 ovos por mês. Durante os seis meses em que ficou desempregada, até o menor aumento de preço era doloroso. — O preço nunca caiu — disse Hua, que conseguiu um novo emprego no mês passado. — No fim, simplesmente tive de comprá-los mesmo assim.
Equilíbrio delicado: China abate galinhas para conter excesso de ovos, provoca escassez e faz preço disparar
Num país superpopuloso que consome ovos acima da média mundial, aumento do custo de um item tão básico mexe com o cotidiano e reflete outros desequilíbrios da economia chinesa







