Presenciar uma festa no polêmico templo de Tóquio que honra criminosos de guerra é gatilho para refletir sobre como país lida com seus dilemas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Festival dos espíritos no templo Yasukuni, em Tóquio — Foto: Marcelo Ninio RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/07/2026 - 21:07 Festival Mitama Matsuri no Templo Yasukuni: Cultura e Controvérsia O templo Yasukuni, em Tóquio, é palco de um festival vibrante, o Mitama Matsuri, que atrai multidões com suas 30 mil lanternas e atmosfera festiva. No entanto, o local é controverso por honrar criminosos de guerra, provocando tensões com China e Coreia do Sul. A celebração levanta questões sobre o passado imperialista do Japão e seu futuro sob a liderança de Sanae Takaichi, que busca revisar a Constituição pacifista em meio a críticas e debates nacionais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Roda de dança, cantoria, barracas de petiscos e uma juventude em clima de balada na fila do chope. Para um brasileiro, lembra uma mistura de quermesse e bloco de carnaval, com o auxílio luxuoso de milhares de lanternas japonesas. Pode não parecer, mas celebração é pelos mortos em guerras. Não fica nisso. O cenário é um dos locais mais controvertidos da Ásia, o templo Yasukuni, em Tóquio. Durante quatro noites da semana passada, centenas de pessoas se aglomeraram por lá para participar do Mitama Matsuri, o festival dos espíritos. Não é difícil entender o apelo. Este é um dos eventos mais festivos e visualmente deslumbrantes do ano, com 30 mil lanternas enfileiradas no templo, que fica estrategicamente localizado no centro de Tóquio. Yasukuni presta honras aos 2,5 milhões de japoneses mortos em conflitos. O que pega é que, entre eles, estão 14 criminosos de guerra. Visitas de políticos são consideradas um insulto na China e na Coreia do Sul, vítimas de atrocidades cometidas pelo Japão na Segunda Guerra Mundial. Sanae Takaichi, a ultraconservadora primeira-ministra que assumiu o poder em outubro, dispensou a visita. Mas não escapou da fúria de Pequim e Seul, ao enviar uma oferenda ao templo. Festival dos espíritos no templo Yasukuni, em Tóquio — Foto: Marcelo Ninio A popularidade do Mitama Matsuri não indica necessariamente uma atração dos participantes ao militarismo do qual ele se tornou símbolo. “Para mim é só um costume, sem lado político. Mas claro, sei da controvérsia”, me diz um estudante de Ciência Política de 20 anos, cercado de colegas de universidade. Não deixa de ser um elo com as raízes do templo criado em 1869, em que os fundadores atraíam o público com entretenimento, de circo a corrida de cavalos, enquanto no fundo a intenção era alimentar o espírito nacionalista. Sob a luz amarelada das lanternas, Yasukuni serve como gatilho para refletir sobre a forma com que o Japão lida com seu legado imperialista, se define no presente e projeta seu futuro. Ainda mais num momento em que Takaichi se esforça para aprovar uma revisão da Constituição pacifista japonesa. É um tema que divide o país. Na véspera do Mitama Matsuri, um punhado de pacifistas se juntaram perto da estação de metrô de Shinjuku, uma das áreas mais movimentadas de Tóquio, para repudiar a campanha. Manifestações parecidas têm se repetido na capital e em outras cidades japonesas. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que é preciso fortalecer a capacidade de defesa do país. É um sentimento que tem ligação direta com dois países — o maior rival e o principal aliado. O primeiro, a China assusta com sua ascensão como potência econômica e militar. Já os Estados Unidos de Donald Trump preocupam pela quebra no compromisso histórico de defesa dos aliados, como já demonstrado com a Europa na guerra na Ucrânia. Festival dos espíritos no templo Yasukuni, em Tóquio — Foto: Marcelo Ninio Primeira mulher a liderar o Japão moderno, Takaichi começou com a popularidade alta, prometendo resgatar a economia e o orgulho nacional. Aproveitou a onda e conseguiu ampliar a bancada de seu partido à maioria de dois terços, inédita desde a Segunda Guerra. Mas começa a cair na real. Na semana passada, pela primeira vez sua taxa de aprovação ficou abaixo de 50%. Cultivar espíritos de variadas estirpes é esporte nacional, como se vê em Yasukuni e no fascínio por casas mal-assombradas. Para Takaichi, um dos desafios é resolver a parada com um antigo fantasma: garantir a defesa nacional sem cair no militarismo do passado.