Pesquisadores procuram alternativa farmacológica para impedir disseminação da doença 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Profissional de saúde coleta amostras de um paciente com doença pelo vírus Ebola no centro de tratamento do Centre Médical Évangélique (CME), em Bunia, Ituri, no leste da República Democrática do Congo — Foto: Benediction Murhabazi / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/07/2026 - 11:27 Desafio no Congo: Surto de Ebola avança com cepa Bundibugyo O surto de Ebola no Congo, causado pela cepa Bundibugyo, é um desafio devido à sua progressão lenta, permitindo que pacientes infectados se movimentem e transmitam o vírus. A virologista Corri Levine destaca que essa característica oferece uma janela maior para intervenção médica, aumentando a eficácia potencial de antivirais como o remdesivir. A OMS está testando novas terapias, enquanto o surto cresce, com 2.181 casos confirmados e 864 mortes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os sintomas da rara cepa Bundibugyo parecem piorar lentamente, deixando os pacientes doentes o suficiente para transmitir o vírus, mas não tão debilitados a ponto de impedi-los de circular em suas comunidades. Alguns médicos chamam isso de "Ebola ambulante". O padrão que emergiu na República Democrática do Congo chamou a atenção da virologista Corri Levine, que dedicou sua pesquisa de doutorado ao Bundibugyo anos antes de ele causar o surto de Ebola de crescimento mais rápido já registrado. Estudando o vírus em um laboratório de biocontenção na Universidade do Texas Medical Branch, Levine descobriu que ele se replicava mais lentamente do que a cepa Zaire, responsável por uma epidemia devastadora que assolou a África Ocidental uma década atrás. — A experiência com o Ebola ambulante foi um momento de revelação para mim. Se a doença se desenvolve mais lentamente na pessoa, ela pode começar a apresentar alguns sintomas, mas não o suficiente para se sentir tão mal a ponto de não conseguir se mover. Trata-se de um curso mais longo e prolongado da doença — afirma Levine. Essa progressão mais lenta acarreta outro risco. Pacientes com Ebola têm consistentemente apresentado as melhores chances de sobrevivência quando tratados precocemente, antes que o aumento dos níveis virais leve a doença ao choque séptico e à falência múltipla de órgãos. Se o Bundibugyo proporcionar aos médicos uma oportunidade maior de intervir antes que a doença chegue a esse ponto, os medicamentos antivirais poderão ter uma chance maior de alterar o curso da doença. Essa possibilidade renovou o interesse em medicamentos antivirais como o remdesivir, da Gilead Sciences Inc., que, segundo o laboratório de Levine, mostrou-se mais eficaz contra o Bundibugyo do que contra o Ebola Zaire em experimentos em placas de Petri. Neste mês, pesquisadores começaram a testar o remdesivir juntamente com a terapia de anticorpos MBP134 da Mapp Biopharmaceutical Inc. em um ensaio clínico patrocinado pela Organização Mundial da Saúde no Congo, enquanto um estudo separado está avaliando o antiviral oral experimental obeldesivir da Gilead em pessoas recentemente expostas ao vírus. A necessidade de novas ferramentas está se tornando cada vez mais urgente. As mortes quase dobraram neste mês, mais de 90% dos óbitos confirmados ocorrem antes que os pacientes cheguem aos centros de tratamento e quatro em cada cinco novas infecções surgem fora das cadeias de transmissão conhecidas, segundo a OMS. Unidades de tratamento de Ebola superlotadas e atrasos no diagnóstico permitem que pessoas infectadas permaneçam em suas comunidades por mais tempo, alimentando ainda mais a disseminação do vírus. O Congo registrou 2.181 casos confirmados e 864 mortes, elevando a taxa bruta de letalidade do surto para 40%, como informa o Instituto Nacional de Saúde Pública. Convencer as pessoas a procurarem atendimento médico sempre foi um dos maiores desafios nos surtos de Ebola. — Durante a epidemia na África Ocidental, muitas das mais de 28.000 pessoas infectadas viam os centros de tratamento como lugares para morrer, e não para se recuperar, porque não havia vacinas nem tratamentos comprovados disponíveis — relembra Joanne Liu, ex-presidente internacional da Médicos Sem Fronteiras, que ajudou a liderar a resposta à epidemia. O tratamento precoce pode fazer uma grande diferença. Pacientes que recebem atendimento médico têm de três a quatro vezes mais chances de sobrevivência do que aqueles que permanecem na comunidade, segundo Chikwe Ihekweazu, diretor executivo do programa de emergências de saúde da OMS. Melhor atendimento A epidemia na África Ocidental transformou os centros de tratamento do Ebola, que antes se concentravam principalmente no isolamento, em instalações que ofereciam cuidados intensivos de suporte juntamente com medicamentos experimentais, disse Daniel Chertow, médico de terapia intensiva dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, que ajudou a cuidar de pacientes com Ebola enquanto trabalhava com a MSF na Libéria. A lição da África Ocidental foi que tratar o Ebola significa mais do que combater o vírus em si. — É preciso dar suporte ao ser humano como um todo — aponta Chertow. Os pacientes precisam de fluidos abundantes, tratamento para choque, suporte respiratório e controle da falência de órgãos, além de medicamentos antivirais e anticorpos. O surto de Bundibugyo poderia, da mesma forma, melhorar a compreensão de quando os antivirais funcionam melhor, como adaptar o tratamento de suporte e se a desaceleração precoce do vírus altera o curso da doença. Se a hipótese de Levine se provar correta, a progressão mais lenta do vírus poderá dar aos médicos mais tempo para fornecer os cuidados intensivos de suporte e os medicamentos antivirais que ajudaram a reduzir a mortalidade por Ebola na última década. O surto atual já gerou mais de 10 vezes o número de casos confirmados em comparação com os dois surtos anteriores de Bundibugyo combinados, proporcionando aos cientistas uma oportunidade sem precedentes para estudar o vírus — e aumentando as chances de ele evoluir, como aconteceu com o vírus Zaire durante o surto na África Ocidental. — Quanto mais o vírus Bundibugyo circula, mais oportunidades ele tem de sofrer alterações genéticas que podem causar devastação incalculável. Qualquer mutação pode afetar a biologia — aponta Pardis Sabeti, geneticista do Broad Institute do MIT e Harvard, cujo programa Sentinel está apoiando o sequenciamento genômico no Congo. Quando Levine começou a estudar o Ebola Bundibugyo para seu doutorado, há quase uma década, a doença havia causado apenas dois surtos relativamente pequenos e atraído uma fração da atenção científica dedicada ao Ebola Zaire. — Todo mundo dizia: ‘Ah, é só aquela criancinha’ — ela lembra. Hoje, o vírus causou o terceiro maior surto de Ebola já registrado, transformando anos de trabalho laboratorial obscuro em uma das questões científicas mais urgentes na saúde global. — Tudo pode acontecer neste mundo — conclui.
'Ebola ambulante': por que o surto no Congo é tão difícil de conter
Pesquisadores procuram alternativa farmacológica para impedir disseminação da doença
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