'Novas formas de colonialismo fizeram romance soar muito atual', diz diretora da série, que estreia em agosto na Netflix 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cena da segunda temporada de 'Cem anos de solidão' — Foto: Divulgação Netflix RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Com estreia em 5 de agosto na Netflix, a última temporada aborda a chegada da ferrovia e da exploração estrangeira em Macondo, refletindo sobre a violência política na América Latina. Gravada em espanhol na Colômbia e com elenco totalmente latino-americano por exigência dos herdeiros do autor, a produção busca preservar a identidade cultural da obra original. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Depois de superar as desconfianças dos fãs do romance de Gabriel García Márquez na primeira temporada, “Cem anos de solidão” entra em uma nova fase. Com estreia marcada para 5 de agosto, a segunda (e última) temporada da série da Netflix já não precisa provar que era possível transportar para a tela um dos maiores clássicos da literatura do século XX. Livre dessa pressão inicial, a produção mergulha na metade mais sombria e política da saga da família Buendía, condenada a viver um século de solidão, violência e destinos trágicos. A nova leva de episódios acompanha as transformações da fictícia Macondo. Mesmo após a assinatura do armistício que põe fim à guerra do coronel Aureliano Buendía, a paz continua distante. A cidade abandona seu isolamento quase mítico e passa a integrar um mundo atravessado pela modernização, pela exploração econômica e pelas disputas políticas, preservando uma das dimensões mais contundentes do romance de García Márquez: sua leitura crítica da história da América Latina. — Ficamos muito gratos pelo que aconteceu com a primeira temporada, mas também fomos bastante reflexivos e humildes em relação ao que achávamos que havia funcionado muito bem e ao que poderíamos melhorar na segunda — diz Laura Mora, que divide a direção da temporada com Carlos Moreno. — A segunda metade do livro é profundamente política, poética e dolorosa. Queríamos que o espectador sentisse, ao final da série, algo semelhante ao que sente ao terminar o romance. Se a primeira temporada retratava a gênese de uma Macondo utópica, quase ingênua, isolada do restante do mundo, a continuação acompanha sua marcha rumo ao Apocalipse. A chegada da ferrovia, da companhia bananeira e do capital estrangeiro inaugura uma nova era para a comunidade fundada por José Arcadio Buendía (morto ao final da primeira temporada). O progresso prometido pelos trilhos logo revela seu lado mais sombrio, explicitando as críticas de García Márquez ao colonialismo econômico, à violência política e às sucessivas formas de exploração que marcaram a história latino-americana. Macondo sempre foi concebida pelo escritor colombiano como um espelho da América Latina, presa a ciclos de violência e exploração que se repetem. — O que estamos vivendo agora, com novas formas de colonialismo econômico e político, faz com que o romance soe muito atual — afirma Mora. — Muitas vezes reduzimos “Cem anos de solidão” ao realismo mágico, esquecendo sua dimensão política. Não tivemos medo de enfatizá-la. Se continuarmos desviando o olhar da nossa realidade, repetiremos a história indefinidamente, como os nomes se repetem na família Buendía. Os herdeiros de García Márquez exigiram que a adaptação preservasse a essência da obra e fosse filmada em espanhol, na Colômbia, com um elenco latino-americano. A decisão permitiu que milhões de espectadores conhecessem Macondo em sua língua, seus sotaques e seu contexto cultural originais. Para Mora, porém, nenhum país abraçou a série com tanto entusiasmo quanto o Brasil: — Estive em São Paulo há alguns meses e fiquei muito feliz ao perceber o quanto vocês amam o romance. Brasileiros e colombianos se entendem profundamente nesse aspecto. Existe um sincretismo e uma linguagem poética muito familiares às duas culturas. Tenho a impressão de que vocês compreendem García Márquez de uma maneira muito próxima da nossa. O alcance internacional da produção também permitiu à diretora observar como fãs de diferentes partes do mundo interpretam a obra de maneiras distintas. — Há acontecimentos na história que eles veem como genuinamente mágicos e extraordinários, e que para nós, latino-americanos, são apenas parte do cotidiano — diz a diretora. Se, nos anos 1960 e 1970, “Cem anos de solidão” ajudou a impulsionar o boom da literatura latino-americana, Mora espera que a adaptação desperte a curiosidade de uma nova geração de leitores, justamente em um momento em que autoras como Mariana Enríquez, Fernanda Melchor, María Fernanda Ampuero e Samanta Schweblin voltam a projetar a ficção do continente no cenário internacional. Por sinal, são nomes que também trabalham feridas latina-americanas com um olhar singular, não raro buscando aproximações com o fantástico. — Admiro profundamente autoras como Mariana Enríquez, mas acredito que essa nova geração tenha uma identidade muito própria — diz Mora. — Se a série servir como porta de entrada para García Márquez, e também para essas novas vozes latino-americanas, já teremos feito algo muito importante.