Em sua possível despedida das Copas, argentino viveu rara partida de jogador comum e mostrou que ser escolhido para uma história extraordinária nunca significou ter o controle sobre ela 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Messi observa festa da Espanha após Argentina perder final da Copa do Mundo — Foto: Lars Baron / Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/07/2026 - 23:40 "Messi Encerra Trajetória nas Copas: Derrota Realça Limites Humanos" No último capítulo de sua trajetória nas Copas, Lionel Messi vivenciou uma partida atípica, onde não conseguiu impor seu talento extraordinário contra a Espanha. Aos 39 anos, Messi experimentou a impotência comum de muitos jogadores, ressaltando que possuir um dom não significa ter controle sobre ele. Sua carreira, marcada por feitos incríveis e uma relação complexa com a Argentina, mostra que até os gênios enfrentam limites humanos. A derrota não diminui sua grandeza, mas adiciona um capítulo realista à sua história lendária, lembrando-nos que o futebol, como a vida, nem sempre oferece finais felizes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Durante muito tempo, e especialmente neste último mês, Lionel Messi pareceu capaz de convencer uma partida a mudar de ideia. O jogo apontava para um lado, ele tocava na bola e o sentido se alterava. Na final contra a Espanha, aconteceu algo raro: Messi viveu a experiência de um jogador comum. Procurou espaços que não apareceram, recebeu longe de onde poderia ferir, tentou participar e quase nada transformou. Aos 39 anos, no jogo que pode ter sido o último de suas seis Copas, o homem que tantas vezes interferiu no destino precisou vê-lo seguir sem sua autorização. A Espanha controlou a bola, o campo e o tempo. Impediu a Argentina de repetir o expediente que a carregou pelo mata-mata: sobreviver até reagir no fim. Messi não ofereceu uma saída. Foram 120 minutos de uma impotência estranha justamente por ser tão humana. O corpo ainda obedeceu, a cabeça procurou soluções, mas o jogo lhe recusou protagonismo. Há dias em que até um gênio fica preso dentro do que os outros permitem. Um dom à prova de derrotas Existe algo de inexplicável na quantidade de história que coube na vida de Messi até aqui. Não apenas no que fez, mas no que aconteceu com ele. Vir ao mundo com um dom absurdo para uma atividade que, por uma série de acasos, se transformou numa das coisas mais importantes do planeta. Nascer na Argentina, onde jogar futebol pode fazer de alguém herói, trauma e identidade nacional. Precisar deixar o país para proteger esse dom. Crescer longe, ser acusado de não amar o lugar de onde saiu, perder finais, desistir da seleção, voltar, ser enfim compreendido por ela, ser campeão do mundo e chegar aos 39 anos no jogo mais importante do planeta. O esforço explica uma parte. O talento explica outra. Ainda sobra uma quantidade enorme de vida sem explicação. Deus, destino, acaso, os signos, sorte ou o efeito acumulado de milhões de acontecimentos pequenos: alguma coisa deposita mais história sobre certas pessoas. Messi trabalhou para desenvolver o dom que recebeu, mas ninguém trabalha para nascer Messi. A curiosidade está na desproporção entre uma pessoa e tudo aquilo que o mundo resolveu fazer caber nela. Sua relação com a Argentina tornou o roteiro ainda mais improvável. Por anos, Messi foi o maior jogador argentino e, para muitos argentinos, não era argentino o bastante. Carregou a comparação com Maradona, as derrotas e o silêncio interpretado como indiferença. Depois vieram a Copa América, o Mundial de 2022 e uma reconciliação tão completa que o homem acusado de não representar o país passou a ser uma de suas representações mais puras. Aos 39, conduziu a seleção novamente à final. A história já lhe havia dado várias vidas dentro de uma só. A derrota acrescentou ao roteiro o capítulo que lhe faltava: aquele em que Messi não foi extraordinário. Não como castigo, acerto de contas ou recado do mundo. Os grandes jogadores não precisam receber lições de humildade para que os demais se sintam melhores. A final apenas expôs um limite. E os limites impressionam mais quando aparecem em alguém que passou tanto tempo parecendo não tê-los. Messi chora com a medalha de prata após a Argentina perder a final da Copa para a Espanha — Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP Messi recebeu um dom, não o controle sobre tudo que faria com ele. Fez escolhas, insistiu, suportou e voltou, mas também foi levado pelos acontecimentos. Na possível despedida das Copas, o jogador que durante duas décadas pareceu o próprio autor das partidas que disputava terminou submetido a uma história que já não conseguia reescrever. Imaginou-se por muito tempo que o futebol devia uma — ou quem sabe duas — Copas a Messi. O título de 2022 produziu a sensação de dívida paga, como se o esporte obedecesse a um sistema de recompensas. A bola não distribui justiça, finais felizes nem homenagens por serviços prestados. Tudo o que Messi fizera entre os três gols contra a Argélia e as duas assistências diante da Inglaterra não lhe dava o direito de vencer a Espanha, assim como a derrota não retirava nada do que já havia feito. Uma carreira daquela dimensão não ficaria à espera de gran finale no último jogo. Ao fim do jogo de ontem, ele permaneceu estarrecido, quase sem reação. Chorou mais tarde, ao subir no palco destinado também aos derrotados. Não há como saber se as lágrimas eram apenas pela taça perdida ou se continham a suspeita de que não haverá outra. Messi nunca confirmou que esta seria sua última Copa. Chegará a 2030 com 43 anos, uma idade avançada demais até para ele. Sua vida, porém, recomenda prudência a quem pretende decretar o fim antes que ele o faça. Se foi uma despedida, aconteceu sem anúncio, volta solitária, discurso ou cerimônia para produzir comoção. Pode ter acabado sem que ninguém, nem o próprio Messi, tivesse certeza de que estava acabando. Isso combina com a maneira como administrou os instantes em que o futebol o colocava sozinho no centro de tudo. A comemoração dos seus gols, por exemplo. A celebração dos gols de muitos outros craques — e de alguns bagres — tornou-se há algum tempo o momento mais individual de um esporte coletivo. É quando o jogador se separa dos demais, procura a câmera e oferece uma assinatura. Coreografias viram marcas, produtos, mensagens e gestos repetidos por crianças. Messi e Cubarsí na final da Copa do Mundo de 2026 — Foto: Carl Recine/Getty Images/AFP Mitologia em tempo real Messi, o indivíduo mais extraordinário de seu tempo, nunca construiu uma celebração que dispensasse os outros. Aponta para cima, abre os braços, procura os companheiros e logo desaparece num amontoado de jogadores. Mesmo quando o jogo o isolava para consagrá-lo, ele parecia procurar um caminho de volta ao grupo. É como se o mundo fizesse dele uma entidade; e Messi passasse boa parte da vida tentando continuar um homem. Seria ingênuo confundir essa discrição com ausência de vaidade. Ainda assim, alguns gestos sugerem que Messi entendeu haver em sua história algo maior do que mérito. Aponta para o céu, procura a família, divide os gols com os companheiros e se entrega à seleção que demorou a amá-lo sem condições. Quem recebe tanto encontra maneiras de agradecer. Os argentinos agradecem a Messi. Quem viveu este tempo também pode agradecer. Para alguém que escreve sobre futebol, há o privilégio de acompanhar uma história dessas com a obrigação de olhar para ela e contá-la. Estar perto não reduz o espanto. Às vezes, aumenta. Uma geração recebeu Pelé pelas imagens e pelos relatos. A nossa viu Messi construir sua mitologia em tempo real, inclusive quando a mitologia deu lugar a um homem chorando por uma final em que quase nada conseguiu fazer. Se este foi o fim, não teve a perfeição que a ficção reservaria a Messi. Teve a imperfeição que nem as vidas mais extraordinárias conseguem evitar. Se ainda houver outra Copa, acompanharemos mais uma improbabilidade. O mistério permanece. Não sabemos por que tanta história escolheu uma pessoa, nem por que uma pessoa nasce capaz de despertar gratidão em tantas outras. Sabemos que, por muito tempo, Messi fez o extraordinário parecer uma possibilidade humana. No fim, ou apenas neste fim, sua humanidade lembrou quanto havia de extraordinário em tudo o que vimos.
O último capítulo que Messi não pôde escolher
Em sua possível despedida das Copas, argentino viveu rara partida de jogador comum e mostrou que ser escolhido para uma história extraordinária nunca significou ter o controle sobre ela











