Num mundo digital, é duro ser aposentado e precisar ir ao banco dar prova de vida 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Prova de vida — Foto: Ilustração Gemini Fiquei espantado. O INSS me convocou para comparecer ao banco e, com o palminho de rosto que vai ao alto desta página mais a assinatura de próprio punho, dar prova presencial de vida. Como diria o Ancelmo Gois, há controvérsias. O pulso ainda pulsa e o colesterol, filtrado pela atorvastatina cálcica receitada pelo meu Doctor Robert, tem se mantido abaixo dos 190. Uma fascite plantar mostra-se preguiçosa em ir embora, mas graças a uma palmilha em 3D sigo em frente nesta vida já tão comprida e tão mal cumprida. Um dos prazeres da sobrevivência é ter ouvido dia desses o veredito cirúrgico de meu neto, Eduardo, 14 anos: “Relaxa, vovô. Só dói o que tá vivo”. O “espanto” a que me refiro acima vem de ter sido amplamente divulgado não ser mais necessária a ida ao banco. A inteligência digital do INSS cruzaria as redes sociais, checaria as movimentações de PIX e, caso localizasse as pegadas digitais, o cidadão beneficiário do pagamento estaria liberado do sacrifício presencial. Infelizmente, não tive a sorte. Se não existir no digital, você está morto. Os computadores do INSS não me encontraram em lugar nenhum da internet e – “pegamos mais um fantasma!”, devem ter gritado na repartição – me convocaram ao suplício desnecessário da agência bancária. Soube pelos jornais que foram quatro milhões de beneficiários investigados. Todos suspeitos de não mais existirem, de já estarem em outro plano de aposentadoria, a celestial, enquanto suas contas permaneciam vivinhas da silva, administradas por espertalhões. Eu seria um deles. Pensei, a princípio, que a convocação por SMS fosse uma tentativa de golpe, dessas que a toda hora se aproveitam da ingenuidade digital do idoso para lhe roubar senhas e saquear as contas. Esperto como me é de costume, malandro agulha, cria do Bicão, não cliquei, não pisquei, não respondi. Era estranho, porém, eu ter ficado invisível para a investigação cibernética mesmo estando toda semana na mídia digital, escrevendo esta crônica – e aí foi a vez de Eduardo se manifestar sagaz e dar razão ao INSS. Com a onda da IA cada vez mais presente, com colunistas tendo declarado que, sim, delegaram a ela a escrita de seus textos, era possível suspeitar que já não fosse eu o autor dessas maltraçadas – elas seriam resultado de um prompt caprichado fornecido por um dos tais espertalhões. Estive por mais de uma hora na agência. Deixei o celular, as chaves e o cinto na portinhola protegida por dois seguranças, depois passei na roleta que deu uma travada e, por fim, apanhei tudo de volta do outro lado. Quando bem mais tarde fui atendido pela gerente, uma senhora muito educada, fiquei preocupado com a possibilidade de me mandar escrever ali, na frente dela, uma crônica como prova de vida. Ela, ufa!, me pediu apenas a carteira de identidade – e aí surgiu nova dúvida sobre a minha já tão controversa existência: eu só tinha uma fotocópia. Para os bancos, pessoas realmente vivas precisam atestar isso através do documento em sua forma original. E agora? – Eu vou te dar uma moral – disse a funcionária depois de refletir um pouco sobre a burocracia da coisa, comparar a foto da carteira com o rosto deste cidadão que ela via do outro lado da mesa. – Da próxima vez, o senhor venha documentado de verdade. Sim, estou vivo, mas por uma liberalidade bancária.