Estacionar no estádio para assistir a um jogo de Copa do Mundo, ser recepcionado, ter acesso a bebidas e comidas num espaço com DJ, cruzar com celebridades, assistir ao jogo quase dentro do campo e, por fim, receber um presente. Uma experiência exclusiva, mas que nunca foi de tantos. No Mundial dos recordes - de participantes, gols e torcedores - a Fifa também comemora as marcas atingidas com as vendas de hospitalidade. Foram 588 mil pacotes vendidos. É mais que o dobro (225%) do registrado em 2022 e um recorde na história da competição. Um desempenho que leva a entidade a superar a estimativa de 3 bilhões de dólares (R$ 15,3 bilhões) em arrecadação com hospitalidade e ingressos. - Foi o sucesso que a gente queria. Tínhamos algumas metas e batemos - comemora a brasileira Paula D'Arienzo, head de hospitalidade da Fifa. Na entidade há 15 anos, ela é a cabeça de um trabalho que envolveu 28 mil pessoas nos Estados Unidos, no Canadá e no México. E que não começou agora. Mas, sim, em 2016, dois anos antes da escolha da candidatura tripla. - Logo depois de voltar da licença-maternidade participei da elaboração dos requisitos da candidatura da Copa. Escrevemos o livro de exigências que os candidatos precisavam responder. Então, desde aquela época, já sabíamos que havia uma oportunidade enorme - diz a executiva, que falou ao GLOBO em chamada de vídeo num dos camarotes do MetLife Stadium, em Nova Jersey, na véspera da final. Ela estava lá para acompanhar os aprontos finais para a recepção dos cerca de 22 mil esperados para usufruir do serviço de hospitalidade na final. Embora a edição deste ano tenha batido o recorde do total de pacotes vendidos, a decisão do título não superou o recorde de 24 mil de Argentina x Alemanha no Maracanã, em 2014. Nesta época, Paula já atuava na hospitalidade. Mas assumiu a chefia em 2020, em plena pandemia. A Copa na América do Norte representou seu primeiro ciclo completo na gestão da área. A expectativa era alta. - Os Estados Unidos são um mercado extremamente maduro em hospitalidade. As pessoas já conhecem esse tipo de produto, não precisamos explicar. Na África do Sul, no Brasil, na Rússia e no Catar tivemos que construir esse mercado praticamente do zero. Agora, entramos num que já existia - explica. - Além disso, os estádios americanos são enormes. Alguns têm mais de 80 mil lugares e uma quantidade gigantesca de camarotes e lounges. Para além do mercado já estabelecido, houve a criação de produtos variados para ofertar diferentes experiências. Entre os pacotes oferecidos nesta Copa, havia aqueles em que o público tinha direito a um lugar na arquibancada e acesso a uma tenda externa com DJ, bebida e comida. Ou ainda lounges dentro do estádio, mais próximos do assento. E camarotes para os que quisessem passar o dia entre si. A cereja do bolo, contudo, foram as poltronas na altura do gramado, atrás da placa de publicidade, com garçons à disposição. No MetLife, palco da final, há 12 delas. Em Atlanta e em Dallas, a proximidade foi ainda maior: a entrada dos atletas em campo ocorreu bem no meio de uma destas áreas de hospitalidade. Por isso, um único pacote chegou a quase 60 mil dólares (R$ 307 mil). É muito provável que, ao longo desta experiência, o torcedor tenha tido a oportunidade de pegar um autógrafo e tirar foto com algum ex-jogador do time de lendas da Fifa. Algum deles, com conexão com uma das seleções envolvidas, sempre aparecia como presença VIP. O ex-zagueiro britânico John Terry, por exemplo, compareceu na semifinal entre Argentina e Inglaterra. - Também aparecem muitas celebridades. Mas essas normalmente vêm convidadas por patrocinadores e parceiros comerciais e acabam circulando pelos espaços de hospitalidade naturalmente - conta Paula. Não eram só as fotos e vídeos que garantiam as lembranças do dia. Os torcedores ainda recebiam um presente, que variava de jogo a jogo. Já teve ingresso comemorativo, coleção de pins das sedes e pôsteres emoldurados em acrílico. Para a final, a organização separou uma cópia em tamanho reduzido da taça da Copa do Mundo. O desempenho da hospitalidade não foi considerado um sucesso apenas nos EUA. Embora numa proporção menor, a procura foi ascendente no Canadá. Já os mexicanos são historicamente os principais consumidores deste serviço em Copas depois dos torcedores do país sede. - Nos Estados Unidos existe um perfil mais corporativo. No México, predomina muito mais o cliente pessoa física. E isso acompanha uma tendência mundial. Estamos vendo um crescimento muito grande de pessoas físicas comprando hospitalidade. Isso acontece em praticamente todas as categorias de produtos. Nem sempre elas procuram luxo. Às vezes, apenas comodidade, uma experiência mais confortável. Muita gente compra porque quer levar a família - afirma a brasileira. Entre as seleções, Brasil, Argentina, Inglaterra e França estão entre as que mais venderam hospitalidade nesta Copa, além de México e Estados Unidos. As de maior camisa atraem também os estrangeiros. A dupla sul-americana, por exemplo, costuma ser a queridinha de torcedores de Bangladesh e da Índia. Um milionário indiano, inclusive, já se tornou conhecido por ser o que mais reserva uma das suítes mais caras do MetLife. Esta mesma Copa que bateu recordes com hospitalidade também foi a mais criticada pelo valor dos ingressos tradicionais. A Fifa adotou dinâmica semelhante a de companhias aéreas, em que os preços flutuam, e autorizou a revenda oficial. Enquanto aumenta sua arrecadação, parte do público reclama de um processo de elitização da arquibancada. - Existe uma demanda de patrocinadores e de clientes que desejam uma experiência diferenciada. Essa demanda é real. Ao mesmo tempo, essa receita tem um destino muito claro. Financia praticamente todo o ciclo de quatro anos entre uma Copa e outra. É ela que permite realizar os Mundiais sub-17, sub-20, tanto masculinos quanto femininos, além do futebol de praia, do futsal e de diversos programas de desenvolvimento do futebol ao redor do mundo. Como responsável pela área que gera parte dessa receita, sinto muito orgulho - defende a brasileira. Apesar do sucesso comercial, o desempenho da hospitalidade este ano não deve balizar as metas a partir de agora. Como cada mercado tem suas características e seus próprios tamanhos de estádios, não é possível simplesmente replicar as projeções traçadas para os EUA. Contudo, é fato que a Copa de 2026 aponta para um crescimento. - Estamos vendo isso claramente nesta Copa. Muitas famílias querem uma experiência mais tranquila, um espaço climatizado, chegar cedo, permanecer em um ambiente confortável e aproveitar sem preocupações. Há pessoas que ainda têm receio de frequentar estádios, e a hospitalidade ajuda a trazer esse público. Talvez, depois dessa primeira experiência, passem a frequentar também os setores tradicionais. Por isso, hoje a hospitalidade faz parte, sim, dos requisitos importantes para se sediar uma Copa. Após as férias, Paula também inicia seu próximo ciclo. Irá visitar as sedes da próxima Copa, que será realizada na Espanha, em Portugal e no Marrocos. Nos estádios que ainda não estão prontos, a avaliação é feita sobre a planta. Tudo é escrutinado: camarotes, lounges (e o caminho deles até a arquibancada), docas, assentos e, a partir de agora, se é possível colocar alguns no próprio gramado. Depois disso, acompanha o trabalho de adaptação feito nas arenas e começa a alinhar os produtos com o parceiro comercial responsável pela comercialização. Isso tudo de forma paralela à Copa feminina, que ocorre no ano que vem, no Brasil. A venda dos pacotes de hospitalidade deve começar ainda este ano. - Os números só cresceram da edição da França, em 2019, para a da Austrália e Nova Zelândia, em 2023. De vendas de hospitalidade e de ingressos, de público nos estádios... Tenho muita confiança de que o brasileiro vai abraçar a Copa feminina. Voltar a atuar no Brasil é uma volta ao começo da história de Paula na Fifa e no mercado esportivo. Até 2011, ela atuava como produtora executiva de shows e no atendimento aos artistas. Sua carreira deu uma guinada quando, em 2011, viu um anúncio de emprego nas paginas do GLOBO para trabalhar com a Fifa no Mundial de 2014. - O Brasil desenvolveu um pool enorme de talentos especializados em grandes eventos. Da equipe que trabalhou na Copa de 2014, ainda há muitos ocupando cargos importantes da Fifa. Nós somos uma força muito grande aqui dentro e somos reconhecidos por isso.
A brasileira por trás da área da Fifa que cresceu 225% em vendas e bateu recorde de faturamento nesta Copa
Na entidade desde 2011, Paula D'Arienzo lidera o setor de hospitalidade, que levou luxo e experiências dferenciadas aos estádios do torneio e atraiu celebridades









