Governo argentino deu asilo a dez mil espanhóis após ascensão de general Franco; Décadas depois, entre 350 mil e 500 mil argentinos deixaram o país durante a ditadura militar e Espanha foi um dos principais destinos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lionel Messi comemora segundo gol da Argentina sobre a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo — Foto: Shaun Botterill / Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 18/07/2026 - 20:52 Espanha e Argentina: Histórias de Refúgio e Conexão Cultural Espanha e Argentina compartilharam mais do que Lionel Messi; acolheram exilados em períodos de ditadura. Após a Guerra Civil Espanhola, a Argentina abrigou milhares de espanhóis. Décadas depois, com a ditadura militar argentina, muitos buscaram refúgio na Espanha, enriquecendo sua cultura. Messi, símbolo dessa conexão, quase jogou pela Espanha, mas escolheu a Albiceleste, fortalecendo seu legado no futebol. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Uma final de Copa do Mundo entre Espanha e Argentina impõe falar da trajetória de Lionel Messi. O craque que mudou os rumos do Barcelona e do futebol argentino esteve muito perto de vestir a camisa da seleção espanhola, já que passou boa parte da juventude no país europeu. Messi foi levado ao Barcelona aos 13 anos e continuou seu desenvolvimento por lá. Por anos, representantes da federação espanhola tentaram convencê-lo a vestir a camisa da Fúria, sem sucesso: o jovem craque insistiu em seguir seu sonho de jogar pela Argentina. Deu certo, e hoje ele pode levantar mais uma taça pela Albiceleste. A aventura basca Entre tantos argentinos que construíram uma vida na Espanha e espanhóis que construíram uma vida na Argentina, Messi é o mais famoso. Dois grandes eventos políticos do século XX foram responsáveis por uma troca de diásporas entre essas nações. Entre 1936 e 1939, a Espanha viveu uma violenta guerra civil entre os republicanos, leais ao governo legítimo da Frente Popular, uma união de esquerda, e os nacionalistas, apoiados por Alemanha e Itália, após um golpe militar que fracassou parcialmente. O conflito foi excruciante e terminou com a ascensão da ditadura do general Francisco Franco. General Francisco Franco. A ditadura franquista na Espanha durou 36 anos — Foto: Arquivo O GLOBO Muitos deixaram a Espanha, e um dos principais destinos foi a Argentina, que mesmo com um governo então conservador, recebeu e deu asilo a estimados dez mil espanhóis. Um caso curioso desse período que envolve o futebol é o da seleção do País Basco, um dos centros de resistência republicana. Quando Bilbao caiu, a seleção basca passou a viajar o mundo para jogar partidas de exibição, levantando fundos para os republicanos. Essa equipe chegou às Américas e sonhava encarar times como Boca Juniors e River Plate. Quando desembarcou na Argentina, porém, o governo local já tinha reconhecido Franco. A Fifa, por sua vez, desencorajava partidas contra a equipe basca, buscando reduzir a influência política no esporte. Assim, os bascos foram embora sem conseguir entrar em campo. O destino seguinte foi o México, onde chegaram a disputar a liga nacional, sob o nome de Deportivo Euzkadi. O caminho contrário Franco morreu em 1975, e a Espanha iniciou um processo de redemocratização. Na América Latina, a história era diferente. Em meio às tensões da Guerra Fria, em 1976, uma junta militar derrubou o governo argentino e instalou um regime de exceção, com sequestros, tortura e execuções. Estima-se que algo entre 350 mil e 500 mil argentinos deixaram o país até 1983, quando a ditadura se encerrou. Jorge Rafael Videla. O general foi ditador da Argentina entre 1976 e 1981 — Foto: Arquivo O GLOBO Foi, então, o momento de retornar o favor. Um dos principais destinos dos refugiados foi a Espanha, até pela proximidade cultural e linguística. Artistas, jornalistas e intelectuais argentinos ajudaram a renovar a cultura de um país que estava se abrindo depois de décadas. Madri vivia a Movida, movimento contracultural que explorava essa abertura e teve contribuição direta dos argentinos. Tradutores e autores sul-americanos foram publicados por editoras fundadas ao fim do franquismo, mal acostumadas à censura e que necessitavam de mão de obra. No jornalismo, os argentinos fundaram na Espanha associações destinadas a denunciar a perseguição que se desdobrava em sua terra natal, fortalecendo naquela democracia renascida uma imprensa comprometida com os direitos humanos. Maradona em Barcelona Neste ano, em que se completa o 50º aniversário do golpe militar, o governo espanhol publicou o nome de 307 de seus cidadãos que foram vítimas da ditadura argentina. Há um eco cruel: alguns deles haviam deixado a Espanha por causa de Franco e encontraram na Argentina, anos depois, uma situação análoga àquela do passado na Europa. Curiosamente, outro argentino deixou o país rumo à Espanha na época: Diego Maradona, comprado pelo Barcelona junto ao Boca Juniors em 1982. Era uma revelação, que já fazia chover na Argentina, e foi para a Europa num momento em que o mercado do futebol começava lentamente a se deslocar da América para a Europa. Nem Maradona nem a Espanha tinham se dado bem na Copa daquele ano: ele expulso contra o Brasil numa derrota, ela tendo fracassado na chance de ser campeã em casa. A transferência era uma chance de recomeço. Mas, diferentemente de Messi, Maradona não se deu bem em Barcelona. Seguidas lesões e uma pancadaria em campo contra o Athletic Bilbao em 1984 selaram o destino do craque, que à época especulava-se que ficaria só na promessa. Quem se deu bem foi o italiano Napoli, que o levou e alcançou glórias inéditas — e a Argentina, que seria campeã mundial com Maradona em estado de graça dois anos depois. Até conquistar a Copa em 2022, Messi viveu sob o peso da comparação com ele. Agora, tem a chance de superar seu legado, mas precisará vencer a seleção do país onde viveu a maior parte de sua vida. O projeto Copa Além da Copa traz ao GLOBO textos que relacionam política, cultura, história, arte e sociedade com o futebol
Copa Além da Copa: Espanha e Argentina acolheram exilados de ditaduras em seus país e ‘compartilharam’ talento de Messi
Governo argentino deu asilo a dez mil espanhóis após ascensão de general Franco; Décadas depois, entre 350 mil e 500 mil argentinos deixaram o país durante a ditadura militar e Espanha foi um dos principais destinos















