Herança do colonizador, espanhol falado na Argentina tem influência italiana e passou por muitas mudanças no século XIX que o diferenciaram do europeu 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Todo mundo se entende: apesar das particularidades, o idioma é comum à Espanha de Simón e à Argentina de Martínez — Foto: Florencia Tan Jun e Elsa/Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 17/07/2026 - 20:09 Diferenças entre Espanhol Europeu e Argentino: Identidade e História A língua espanhola, compartilhada por Espanha e Argentina, revela diferenças notáveis entre o espanhol europeu e o argentino. Após a independência, a Argentina desenvolveu um dialeto próprio, influenciado pela imigração italiana e políticas sociais. Fenômenos linguísticos como o lunfardo e o cocoliche emergiram, alterando a prosódia e o léxico. Essas variações refletem a identidade nacional argentina no contexto histórico e cultural. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Espanha e Argentina compartilham a mesma língua, um passado de colônia e colonizador e, neste domingo, também compartilham um espaço no campo da final da Copa do Mundo. Os dois países falam espanhol, obviamente, e a influência da colonização não poderia ser mais clara. Apesar disso, a identidade nacional sempre dá um jeito de aparecer. — Como os argentinos são bem orgulhosos em tudo o que eles fazem, eles acabaram criando o próprio vocabulário, o próprio dialeto e expressões — apontou, brincando, o professor de espanhol Gabriel Bernardo Saraiva. A brincadeira, no entanto, tem um fundo de verdade. O processo de diferenciação do espanhol falado na Argentina começa ainda no século XIX. Como lembra a professora titular de literatura hispano-americana da UFF Lívia Reis, esse processo não foi nada bonito. Durante o desenvolvimento da Argentina enquanto país, separado da Coroa Espanhola, o Estado incentivou a vinda de europeus — principalmente italianos — favorecendo o "embranquecimento" da população. Ao mesmo tempo, a partir da abolição da escravidão, negros e nativos foram vítimas de políticas segregacionistas, suscetíveis a pandemias e à fome e, posteriormente, à morte. A mudança latente no perfil populacional alterou marcas linguísticas, que passaram a diferenciar o espanhol argentino da língua introduzida pelos colonizadores. — Estruturalmente, é a mesma língua. Tem diferença no uso de pronome, mas eles falam espanhol com muito acento. A prosódia, como dizem os linguistas, que se refere à musicalidade, aí sim, essa é muito italiana — afirma a professora Lívia Reis. Lunfardo e influência italiana Segundo um artigo publicado pela USP, cerca de 45% do total dos estrangeiros que chegaram à Argentina entre 1857 e 1940 eram italianos. — Quando os estrangeiros encontraram um mundo que não conheciam, eles tinham que dar nome às coisas. É aí que surgem essas mudanças — comenta Lívia. Esse fenômeno, potencializado pela baixa instrução de muitos italianos, deu origem a fenômenos linguísticos como o cocoliche e o lunfardo. O primeiro é marcado pela entoação italiana e pela mutação do fonema [g] em [k], como em amigo/amico. Na pronúncia da letra "c" antes de vogal também há particularidades que diferenciam esse espanhol latino-americano do insular: a letra "c" adquire o som "ch", como em dice/diche. O lunfardo, outra variação do espanhol falado na Argentina — principalmente em Buenos Aires — com influência italiana, que possui aproximadamente 6 mil palavras em seu léxico e foi popularizado pelas letras de tango de Carlos Gardel, é caracterizado por jogos de palavras em espanhol, nos quais a última sílaba de uma palavra é movida para o início. Vesre, por exemplo, deriva da palavra revés. Amigo vira gomia. Café, feca. E leche (leite) é chele. A língua do campo A final da Copa do Mundo acontece em Nova Jersey, nos Estados Unidos, e fora do perímetro comum, a língua do campo encontrará diferenças dependendo da posição do telão ou da fan-fest. Em Madrid, amanhã, “aficionados” espanhóis vão depositar todas as esperanças na campanha quase perfeita do “portero” Unai Simón, que levou apenas um gol durante o Mundial. Em Buenos Aires, “El arquero” Dibú Martínez também é esperança para as “hinchadas” argentinas. Ele repetirá o milagre de 2022? A única certeza absoluta é sempre ele: Messi. Certeza de “gambetas en la cancha” e, quem sabe, mais “golazos” que ampliem os números da sua artilharia em Copas. Caberá a “La Roja” mostrar “intesidad” e “carácter” para superar a Argentina, que já demonstrou querer “gritar campeón una vez más”.