Quase sempre chegamos ao fundo devido a uma sucessão de decisões mais ou menos sensatas. Casamentos, em geral, e democracias acabam assim 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Eva Baltazar, escritora que participará da Flip — Foto: David Ruano/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A autora catalã Eva Baltazar, que aborda a inevitabilidade da queda humana em seu romance 'Mamute', participará da 24ª edição da Flip no dia 26, em debate com a escritora Suzi Freitas. O romance, que integra a trilogia 'Três corpos selvagens' lançada no Brasil pela Editora Dublinense, reflete sobre como a ruína humana e social ocorre de forma gradual, por meio de pequenas concessões diárias. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Li esta semana “Mamute”, de Eva Baltazar. É um romance brevíssimo, o terceiro volume do tríptico “Três corpos selvagens” — todos publicados no Brasil pela Editora Dublinense. Foi uma bela surpresa. Num estilo muito próprio, que alia exuberância e concisão, a narradora nos arrasta para o seu caos íntimo, de tropeço em tropeço, até a queda final. A protagonista não escolhe cair. Vai caindo. Cada decisão parece racional no momento em que é tomada. O desastre não resulta de um único erro. Acontece como consequência de uma sucessão de pequenos deslizamentos. O romance angustia porque nos coloca dentro de uma queda que parece inevitável. A protagonista resiste pouco — não por covardia nem por indiferença, mas porque cada nova concessão nasce naturalmente da anterior. Embora gostemos de acreditar no livre-arbítrio, muitas das nossas escolhas são condicionadas por circunstâncias que escapam ao nosso controle. Como se a queda fosse uma condenação. No melhor dos casos, conseguimos apenas administrar a velocidade com que despencamos. Dizemos “cair em desgraça”, “cair em tentação”, “cair na pobreza”, “cair doente”. Quase tudo o que nos acontece de ruim, ao menos na nossa língua, acontece por queda. É como se reconhecêssemos a existência de uma espécie de força gravitacional que nos atrai para a infelicidade. Em contrapartida, raramente ascendemos. Não se diz: “Fulano ascendeu à graça”; ou “Beltrano subiu no amor”. A gravidade trabalha sozinha. Só conseguimos manter-nos de pé — já nem falo em levitar — graças a um esforço contínuo da vontade e da razão. Quase ninguém arruína a própria vida num único e tremendo gesto. Inventamos esse instante porque precisamos dele. Ele nos dá a ilusão de que o desastre pode ser evitado. “Se eu nunca fizer aquilo...”, pensamos. Como se existisse uma fronteira nítida entre a salvação e o abismo. Na realidade, quase sempre chegamos ao fundo por meio de uma sucessão de decisões mais ou menos sensatas. É justamente isso que torna a queda tão difícil de reconhecer enquanto acontece. Os casamentos, em geral, acabam assim. As democracias também se desfazem dessa maneira. Até as guerras começam com pequenos tropeços. Não existem linhas vermelhas traçadas no chão do tempo, precedidas por um amável aviso: “Cuidado. Daqui em diante é o desastre.” O que existem são pequenas concessões, minúsculas desistências, ínfimas humilhações que vamos aceitando como um preço razoável. Quando finalmente percebemos aonde chegamos, já ninguém consegue apontar o momento exato em que a queda começou. A vida é um desastre em câmera lenta. Terminei “Mamute” com uma estranha sensação de vertigem. Não porque tivesse acompanhado uma mulher em queda, mas porque, durante algumas horas, tive a impressão de que a gravidade também aumentara à minha volta. Os bons romances conseguem alterar, por instantes, a física do mundo. Eva Baltazar é uma das convidadas da 24ª edição da Flip. No próximo dia 26, conversará com a escritora amazonense Suzi Freitas. O tema da mesa? “O que faço desfaço, o que amo, desamo.”
O mecanismo da queda
Quase sempre chegamos ao fundo devido a uma sucessão de decisões mais ou menos sensatas. Casamentos, em geral, e democracias acabam assim






