Investigação da CVM resultou na abertura de um inquérito policial, que ainda apura o caso Fachada da sede do Banco Master, em São Paulo — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg A Bra Equity, empresa ligada a um dos alvos da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), que investiga supostas fraudes financeiras envolvendo o Banco Master, tomou um empréstimo de R$ 22,8 milhões da instituição de Daniel Vorcaro em 2020. Naquele mesmo ano, a empresa passou a ser investigada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre suspeitas de irregularidades em fundos de investimento destinados a regimes próprios de previdência social (RPPS). A informação sobre o empréstimo consta de uma relação encaminhada à Justiça pelo liquidante do Master, com 112 operações de crédito cedidas a terceiros. Os R$ 22,8 milhões - tomados no dia 17 de dezembro de 2020 - tinham vencimento em 17 de dezembro de 2024. O crédito foi cedido no dia 29 de dezembro de 2021 à Urbaniza Empreendimentos e Participações por R$ 25,7 milhões, saldo à época, mesma empresa que comprou o crédito do presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney. A CVM instaurou um processo administrativo sancionador contra a Bra Equity, que também tem como acusado Tiago Oliva Schietti, que foi alvo de busca e apreensão da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em janeiro. A Compliance Zero apura supostas fraudes financeiras do Banco Master. Nesta segunda etapa, a PF mirou a prática de crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. A investigação da CVM resultou na abertura de um inquérito policial, que ainda apura o caso. Segundo relatório da área técnica da autarquia obtido pelo Valor, a apuração teve origem em uma denúncia que alegava que o Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia (FIP) Brasil Mix havia investido em duas empresas, Congem Investimentos e Butiá Holding de Investimentos e Participações, que teriam como sócio Tiago Oliva Schietti. Acontece que ele também é sócio da Horus Investimentos, hoje Compostela Capital, gestora do fundo. Formalmente, Schietti não é sócio das empresas, mas a análise técnica da CVM concluiu haver uma associação para desviar recursos. A Butiá Holding foi estruturada a partir de uma parceria entre o fundo e a Bra Equity. Com base em uma ata, a CVM mostra que o acordo previa que a Bra Equity seria responsável pela originação e pelo desenvolvimento dos projetos, enquanto o fundo atuaria como agente financeiro para prover o funding necessário para os empreendimentos aprovados. O plano previa investimento na Butiá de até R$ 20 milhões. Ao analisar o acordo, os técnicos da CVM concluíram que a estrutura favorecia a Bra Equity. Conforme o relatório, “o acordo de cotistas privilegiava de forma desproporcional a Bra Empreendimentos e empresas de seu grupo”, ao prever, entre outros pontos, a “distribuição de dividendos da Butiá de forma desproporcional entre os cotistas”. O relatório também aponta uma série de indícios de irregularidades envolvendo o FIP Brasil Mix e suas empresas investidas, incluindo uma “operação fraudulenta no mercado de valores mobiliários por meio de desvio de recursos da investida Butiá”. O esquema teria desviado recursos originados do AlegretePrev, RPPS de Alegrete, município do interior do Rio Grande do Sul, que era cotista do Horus Vetor, fundo que investia no FIP Brasil Mix. Segundo o relatório, uma suposta compra de apartamentos pela Butiá “foi um artifício utilizado para simular um investimento com o objetivo de conceder vantagem patrimonial às pessoas que arquitetaram e participaram do plano de desviar os recursos oriundos do RPPS de Alegrete”. O texto diz que a Butiá transferiu recursos à empresa Brasc Construções e Incorporações pela aquisição dos imóveis e que, “nas mesmas datas em que recebeu os pagamentos ou nos dias imediatamente subsequentes, a Brasc efetuou transferências de parte dos recursos recebidos à Bra Equity”. Outro trecho do relatório afirma que o comitê de investimentos do fundo, do qual Schietti fazia parte, aprovou um investimento da Butiá no empreendimento Parque Residencial Sol & Mar por meio de uma Sociedade em Conta de Participação (SCP), cuja proposta havia sido apresentada pela Bra Equity. Após receber os recursos, o empreendimento “deixou de destinar grande parte dos recursos recebidos da Butiá para o desenvolvimento do empreendimento imobiliário, vindo a repassá-los à Bra Equity”. Os valores das operações foram suprimidos no relatório da área técnica da CVM. Procuradas pelo Valor, a Bra Equity e a Compostela Capital, da qual Schietti ainda é sócio, segundo dados da Receita Federal, não responderam até a publicação desta reportagem.