Há anos, Trump lança dúvidas sobre os resultados eleitorais Duas das três principais redes de televisão dos Estados Unidos, a ABC e a NBC, além da CNN, emissora da TV a cabo, não transmitiram, em seus principais canais, o discurso em horário nobre do presidente Donald Trump na noite de quinta-feira, provocando uma reação da Casa Branca, que vem exercendo uma pressão sem precedentes sobre a imprensa americana. O pronunciamento teve como tema central a segurança eleitoral, quatro meses antes das decisivas eleições legislativas de meio de mandato, em novembro. No discurso, Trump repetiu alegações falsas sobre a vulnerabilidade do sistema americano e acusou a China de interferir no pleito de 2020, vencido por Joe Biden. Trump também disse que as emissoras que optaram por não transmitir o discurso participavam de uma "conspiração" e deveriam perder as licenças de operação. "Em uma atitude rara, a NBC e a ABC, veículos de fake news, disseram que não cobririam este discurso", afirmou. "Uma fraude como essa deveria resultar na revogação de suas licenças." Especialistas afirmam que as emissoras têm ampla proteção garantida pela Primeira Emenda da Constituição para decidir o que desejam transmitir. Historicamente, porém, elas costumam exibir esse tipo de pronunciamento por considerá-lo de interesse público. No fim da tarde de quinta-feira, uma porta-voz da ABC News informou que a emissora transmitiria o discurso na plataforma de streaming ABC News Live e na ABC News Radio, mas não em seu canal de televisão aberta. A NBC News exibiu a fala do presidente em seu serviço gratuito de streaming, NBC News NOW, mas não em seu principal canal de televisão. A empresa recusou-se a comentar. Em comunicado, a CNN informou que acompanharia o discurso em busca de notícias, disponibilizando uma transmissão ao vivo em seu site e no CNN All Access, seu serviço de streaming por assinatura. Os canais de streaming da ABC e da NBC normalmente alcançam apenas uma fração da audiência obtida por seus sinais tradicionais de televisão aberta. A plataforma digital da CNN também é um serviço pago, com público menor que o de seu canal de TV por assinatura. No discurso, Trump retirou o sigilo de documentos de inteligência que, segundo ele, demonstram interferência chinesa nas eleições americanas, retomando seus ataques de longa data à segurança do sistema eleitoral, apesar de uma avaliação da comunidade de inteligência dos EUA concluir que não há evidências de que Pequim tenha alterado o resultado da eleição de 2020, vencida por Joe Biden. Antes do pronunciamento, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que era "muito possível" que Trump também abordasse a situação no Irã e a economia na abertura do discurso, além de outros temas. Segundo ela, isso era "mais um motivo" para que as emissoras transmitissem a fala ao vivo e para que os americanos acompanhassem o pronunciamento. Trump fez apenas uma breve referência à guerra entre EUA e Israel contra o Irã, afirmando que Washington está vencendo o conflito, e disse que a economia americana vive seu melhor momento de todos os tempos, mas concentrou o discurso em suas alegações sobre segurança eleitoral. Pressão sobre as emissoras Há anos, Trump lança dúvidas sobre os resultados eleitorais, alegando falsamente que a derrota para o democrata Joe Biden em 2020 foi fraudada. Também afirma, sem apresentar provas, que o voto pelo correio é amplamente fraudulento, que as máquinas de votação são vulneráveis à manipulação e que o voto de não cidadãos é disseminado. Alguns democratas, entre eles a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, defenderam que as emissoras não transmitissem o discurso, argumentando que Trump provavelmente repetiria alegações já desmentidas. A CBS interrompeu sua programação para exibir o pronunciamento, mas, antes da transmissão, o apresentador Tony Dokoupil fez um contraponto antecipado ao conteúdo esperado. "Francamente, muito do que o presidente disse sobre esse tema é falso", afirmou. Em seguida, acrescentou que a emissora transmitiria o discurso ao vivo porque "isso será notícia, e é nosso trabalho cobrir as notícias". Após cerca de 15 minutos, a CBS interrompeu a transmissão para contestar as alegações de fraude eleitoral feitas por Trump. A Fox News transmitiu o discurso ao vivo, e algumas afiliadas locais da rede, inclusive em Nova York, reproduziram sua programação. Na CBS, a aquisição da Paramount por David Ellison, cujo pai, o bilionário Larry Ellison, é aliado de Trump, abalou a redação e provocou a saída de executivos seniores da revista jornalística "60 Minutes". Alguns funcionários alegam interferência política nas decisões editoriais, acusação negada pela emissora. — Foto: Saul Loeb/Pool via REUTERS