Janja da Silva não sabe o que é misoginia. Essa me parece a constatação mais óbvia e mais incômoda depois da sua entrevista ao UOL/Folha. No momento em que o país debate a criação de uma lei e que exige precisão cirúrgica sobre o que constitui o ódio patológico contra as mulheres, a primeira-dama presta um desserviço à causa. Ao classificar as cobranças públicas sobre seus atos e seus gastos de viagem como "misoginia pura", ela fornece a munição perfeita para os detratores do projeto de lei. Se nem a principal vitrine feminina do governo consegue distinguir escrutínio público de opressão de gênero, a própria tipificação do crime corre o risco de cair no vazio da subjetividade.
Cobrar transparência de uma figura pública não é machismo, é democracia. O erro de Janja é confundir a fiscalização de seu papel com um ataque à sua biologia. Ao se blindar sob o manto da misoginia para evitar responder pelo uso do dinheiro público, a primeira-dama enfraquece a luta real de milhares de mulheres que sofrem a violência de gênero concreta no cotidiano. Isso não quer dizer que ela não possa reclamar da hostilidade e da perseguição alimentadas pelo ódio ideológico —mas isso não está reservado só a elas.











