Companhias buscam especialistas para pensar alternativas e minimizar impacto financeiro. Alternativas vão desde transferência da produção para outros países à definição da melhor janela para enviar produtos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Área de movimentação de contêineres no terminal do Porto de Santos — Foto: Jonne Roriz/Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/07/2026 - 20:10 Empresas do Brasil enfrentam desafios com tarifas de 25% dos EUA Empresas brasileiras enfrentam desafios com a tarifa de 25% dos EUA sobre produtos do Brasil, vigente a partir de 22 de julho. Setores como têxteis e calçados buscam minimizar impactos financeiros, considerando transferir produção para outros países. A instabilidade tarifária de julho exige precisão na exportação, com a alíquota variando de 11,7% a 18,2%. Consultorias ajudam a definir estratégias para mitigar custos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Com a tarifa de 25% sobre produtos importados por americanos do Brasil prestes a entrar em vigor nos Estados Unidos, no dia 22 de julho, empresas que ficaram fora da lista de exceções já buscam orientação de consultorias para tentar reduzir o impacto financeiro da medida. A tarefa é ainda mais urgente porque o calendário de tarifas vai oscilar em julho, numa "montanha-russa" que também obriga companhias a decidir com precisão o melhor momento para embarcar mercadorias aos EUA, sob risco de pagar uma taxa média mais elevada. Fernanda Salzedas, sócia de comércio global da EY, diz que setores como máquinas e equipamentos, têxteis, vestuário e calçados estão entre os mais afetados e já buscam formas de minimizar o custo da tarifação. Uma das saídas é reduzir a base de cálculo sobre a qual o imposto incide, usando métodos como o "first sale for export" (primeira venda para exportação), já que a alíquota de 25% em si não pode ser evitada. — É muito fácil eles (os americanos) renegociarem os fornecedores em vez de arcar com esse custo. Então, a preocupação aqui é como administrar e minimizar esse impacto — explica Fernanda. — A estratégia vai depender do tipo de operação que a empresa tem. Pode ser que, em vez de fornecer o produto a partir da planta no Brasil, ela passe a fornecer por meio de uma planta em outro país. Trump e Lula em encontro no ano passado: química e negociação não foram suficientes para o governo brasileiro — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP A discussão passa também por como a empresa vai lidar com a pressão comercial dos clientes americanos. Isso exige análise do quanto de desconto pode ser concedido, de preço de transferência e de lucratividade. Redirecionar as vendas para outros mercados, que seria uma alternativa, pode não ser tão simples. Depende do tipo de empresa, do porte e do quanto sua produção é voltada para os EUA hoje. Calendário instável Empresas brasileiras e multinacionais americanas estão passando por uma verdadeira montanha-russa de tarifas em território americano no mês de julho, o que dificulta o planejamento das companhias. Até o dia 21 de julho, antes da entrada em vigor da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros nos EUA, os exportadores vão conviver com uma tarifa média efetiva de 11,7%, segundo cálculos do Global Trade Alert (GTA), iniciativa independente sediada na Suíça que monitora políticas de comércio exterior em mais de 60 mercados. Com os 25% valendo a partir do dia 22, essa média sobe para 18,2%. Mas cai para 14,4% já a partir de 26 de julho, quando expira a sobretaxa global de 10% (depois elevada a 15%) que Trump havia imposto em fevereiro com base na Seção 122. O mecanismo foi usado para o presidente americano lidar com déficits no balanço de pagamentos, sem precisar de aprovação do Congresso, mas expira após exatos 150 dias. Para Ana Caetano, sócia e coordenadora de comércio exterior do Veirano Advogados, esse vaivém preocupa especialmente os setores que seguem taxados e não entraram na lista de isenções — casos de papel e celulose e de resina. Para Ana Caetano, sócia e coordenadora de comércio exterior do Veirano Advogados, todo esse vaivém têm preocupado os setores que não foram incluídos na lista de isenções da taxa de 25% após as negociações. É o caso do setor de papel e celulose, assim como o de resina. — Está todo mundo querendo entender o que pode ser feito. Tem gente que tem embarques (para os EUA) dentro desse período. Eles vão ter que segurar para não embarcar ou, então, não fazer o desembaraço nos EUA durante esse período, Senão, vai pegar a taxa “cheia”. Mas tem o custo de armazenar no porto. Normalidade, só sem Trump O diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e embaixador do país em Genebra, Washington e Roma, diz que, analisando de forma realista, resta ao Brasil esperar a saída de Trump do governo: — Quanto ao mercado dos EUA, penso realisticamente que será preciso esperar a era pós-Trump, não muito distante, para ter alguma esperança de um mínimo de normalização e de volta a relações comerciais mais estáveis. O embaixador Rubens Ricupero — Foto: Ana Paula Paiva/Valor Para ele, a vantagem do Brasil é ter diversificado os parceiros comerciais, o que diminuiu a dependência do mercado americano: — Nossos principais mercados estão na Ásia (cerca de 50%), incluindo China, mas também Japão, Coreia do Sul, Malásia, Indonésia, Índia, que constituem a região mais dinâmica em crescimento econômico e demográfico. Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e consultor da BMJ, acredita que qualquer negociação só deve avançar no ano que vem. Na sua visão, o governo brasileiro deve seguir com foco nas eleições, enquanto os EUA tendem a dar preferência a discussões com outros países. Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e consultor da BMJ — Foto: Reprodução/BMJ — As negociações vão continuar, mas vão ser longas. Não vai ser nada, talvez, para este ano. O Brasil vai ameaçar, os EUA vão ameaçar. Isso faz parte da própria negociação. E vão continuar durante algum tempo. Pode ter um aumento na lista de exceções, uma redução da tarifa. Lembrando que o Brasil não é prioridade para os EUA. Eles estão com várias negociações pendentes com a Europa, com a China, sem falar dos problemas geopolíticos — diz Barral. China pode ser uma saída? A China ajudou a sustentar o crescimento das exportações brasileiras no primeiro semestre, mas não substitui completamente os Estados Unidos. Especialistas lembram que a pauta de produtos comprados do Brasil é diversa entre os dois países: commodities para os asiáticos e bens industriais para os americanos. Com a nova tarifa de 25% confirmada, os setores agora tentam traçar estratégias para reduzir os prejuízos. — A China absorve commodities, mas não compra o manufaturado que os EUA taxaram. Repor manufaturados no mercado internacional é bem mais complexo do que repor commodities — afirma Humberto Aillon, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi). Ele avalia que, com o tarifaço, haverá maior pressão sobre produtos industriais brasileiros, e os setores mais afetados são madeira, ferro-gusa, etanol, açúcar bruto, máquinas, calçados e têxteis. Contêineres de carga no Porto de Águas Profundas de Yangshan, em Xangai — Foto: Qilai Shen/Bloomberg No primeiro semestre, as exportações para o mercado americano encolheram 13% frente ao mesmo período de 2025, totalizando US$ 17,4 bilhões. Com isso, a participação dos EUA nas vendas externas brasileiras recuou a 9,4%, a menor para o período desde 1997. Para o especialista em comércio exterior Jackson Campos, a nova tarifa de 25% tende a reduzir mais as exportações brasileiras para os EUA, principalmente em produtos industriais e de maior valor agregado, como máquinas, madeira, transformadores, aço, etanol e parte da indústria de transformação: — O impacto dependerá da capacidade das empresas de absorver custos ou encontrar novos mercados. ‘Estratégia permanente’ Allan Gallo, professor de Economia e Direito Internacional da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a China, argumenta que, fora o país asiático, a União Europeia (UE) é a principal alternativa para o Brasil. Ele vê espaço para ampliar vendas de café, carne, celulose e outros produtos do agro à UE. Oriente Médio, Índia e Sudeste Asiático também ajudam, mas principalmente nas commodities, observa. Campos também avalia que o Brasil pode ampliar suas vendas para esses mercados, além do Norte da África, inclusive de alguns produtos industriais. Ele ressalta que, mesmo sem o tarifaço, diversificar mercados é uma estratégia importante. — A diversificação não deve ser um plano B, mas estratégia permanente. Mesmo perdendo 13% nos EUA, as exportações totais do país cresceram 11,5% no primeiro semestre, para o recorde de US$ 184,8 bilhões. O cuidado é que o Brasil não pode trocar uma dependência por outra, pois a China também usa instrumentos comerciais quando lhe convém — diz Aillon. Essa estratégia, porém, leva tempo para apresentar efeitos, ressalta Sergio Goldbaum, professor da Escola de Políticas Públicas, Governo e Empresas da FGV Brasília, pois demanda negociações prévias, contratos de transporte e seguro, entre outros.
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