A confirmação da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos provocou um novo embate na quinta-feira entre os principais nomes da corrida presidencial. Horas após o anúncio da medida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) responsabilizou integrantes da família Bolsonaro pelo desfecho das negociações, chamando-os de “falsos patriotas”, enquanto o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) replicou uma publicação do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e atribuiu a culpa ao governo federal e ao petista — segundo ele, Lula não tem “condições” de presidir o país. O enfrentamento, para ambas as campanhas, é uma prévia do debate sobre o tema que será travado até outubro. Por enquanto, Flávio está em desvantagem ao abordar o conflito bilateral, segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada também na quinta-feira. O levantamento mostra que 51% dos eleitores concordam com afirmação que tem sido feita por Lula de que Flávio Bolsonaro pediu o tarifaço a Donald Trump, enquanto apenas 30% acreditam na alegação de Flávio de que teria pedido ao presidente dos EUA, em visita recente, para não sancionar produtos brasileiros. Os entrevistadores também questionaram o eleitorado se o tarifaço aumentava a vontade de votar em Lula, Flávio ou em outro pré-candidato. A fatia que citou o aumento da vontade de apoiar o petista somou 42%, o que representa um aumento de três pontos percentuais desde junho (39%). Variação semelhante se deu no caso do senador, mas para baixo: se eram 30% no mês passado, desta vez, os que dizem que o tarifaço aumentou a vontade de votar no bolsonarista agora são 27%. A opção “outro candidato” segue em 23%, e 8% não souberam ou não responderam. Pré-candidatos reagem O levantamento foi realizado entre os dias 10 e 13 de julho, antes de Washington bater o martelo sobre a imposição das tarifas. A margem de erro para a amostra geral é de dois pontos percentuais, mas ela varia conforme a segmentação do público para recortes, por exemplo, por posicionamento político. A pesquisa mostra que o aumento da vontade de votar em Lula superou a margem de erro, de quatro pontos, entre os independentes: eram 26% há um mês e agora são 33%. O assunto também mobilizou na quinta-feira outros pré-candidatos. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (União), por exemplo, buscou se colocar como alternativa e afirmou que a polarização tem custado caro ao país, enquanto o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) criticou a condução do governo petista nas negociações (leia mais na página 6). A decisão dos EUA prevê uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 22 de julho, mas manteve uma ampla lista de exceções, que inclui itens relevantes da pauta de exportações do país, como carne, café, suco de laranja, petróleo, gás e componentes para aeronaves (leia na página 13). O governo americano afirmou que continua negociando com o Brasil e advertiu que poderá adotar novas medidas caso haja retaliação brasileira. Em nota divulgada na madrugada de quinta-feira, o Palácio do Planalto repudiou a decisão do governo americano, informou que acionará os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade e afirmou que a investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos não tem legitimidade. “É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 (da Lei de Comércio dos EUA) faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros”, afirmou o governo. A manifestação ocorreu após Flávio ter participado neste mês de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pela investigação que embasou a adoção das tarifas. Em documento encaminhado ao órgão, o senador argumentou que a sobretaxa beneficiaria politicamente Lula e sugeriu que uma negociação fosse retomada após as eleições brasileiras. Na manhã de quinta-feira, Flávio reagiu ao anúncio compartilhando publicação do secretário de Estado americano, Marco Rubio, que responsabilizou Lula pelo fracasso das negociações. Segundo Rubio, o petista e seu governo não negociaram “de boa-fé” e colocaram “o próprio ego” acima de um acordo considerado benéfico aos brasileiros. Na sequência, o senador reproduziu a mesma linha de argumentação nas redes sociais. Flávio afirmou que Lula “não tem mais condições de ser o presidente do Brasil”, chamou o petista de “Biden brasileiro” — em referência ao antecessor de Donald Trump, que foi substituído durante a campanha de reeleição por apresentar problemas cognitivos. Zema afirmou que o governo brasileiro errou nas negociações ao criar “atritos desnecessários” e adotar um “discurso eleitoreiro”, sustentando que uma condução “técnica e responsável” poderia ter evitado a retaliação. Caiado procurou se dissociar dos dois lados. “Lula não tem capacidade para dialogar e o outro candidato está preocupado com a eleição, não com o Brasil. A polarização está saindo muito cara para as famílias e para o país”, escreveu. Renan Santos (Missão) também criticou os dois lados, dizendo que Lula “não sentou na mesa para negociar” e que Flávio e a família Bolsonaro “são uns puxa-sacos de Trump” Defeso eleitoral Lideranças do agronegócio têm feito críticas reservadas à estratégia adotada por Flávio e avaliam que o senador vem perdendo espaço junto a um dos setores mais alinhados ao bolsonarismo ao priorizar embates ideológicos em detrimento de pautas consideradas prioritárias para o campo. A partir de agora, a campanha de Lula pretende intensificar os ataques. A ideia é martelar que o principal adversário adotou um discurso de “submissão”. Apesar da mobilização, o governo tem calibrado eventuais manifestações públicas de Lula devido à preocupação com período de defeso eleitoral, que limita manifestações e publicidades. Já a campanha de Flávio tenta conter o dano político ao repassar o desgaste à negociação frustrada do governo. Para isso, buscará se fiar nas próprias palavras de Rubio, um dos mais importantes auxiliares de Trump.