Uma mulher escravizada, esperta e sensual, conquista um rico representante da corte portuguesa, exige dele a sua alforria e se torna a "rainha do diamante" em Arraial do Tijuco, atual Diamantina, por onde desfila de vestido bufante, joias e pomposa peruca loira, rodeada de criadas.

É um escândalo e tanto para uma sociedade como aquela do Brasil Colônia, em pleno século 18. Não à toa, apesar da história verídica, Xica da Silva só se fixou na memória nacional quase 200 anos após a morte da personagem histórica, encarnada pela atriz Zezé Motta, em um dos maiores sucessos do cinema nacional.Dirigido por Cacá Diegues, nome central do cinema novo, o longa de 1976 ousou dar destaque a uma protagonista negra em tempos de repressão, com indiretas à ditadura militar, doses de irreverência e erotismo —além de uma música-tema chiclete, de Jorge Ben Jor e Roberto Menescal, cantada até hoje.

Levou mais de 3 milhões de espectadores aos cinemas, foi premiado no Festival de Brasília, sagrou-se como um marco da pauta racial no país e, agora, 50 anos depois, o filme volta às salas, nesta quinta (16), em cópia restaurada, pela Sessão Vitrine Petrobras.

O trabalho foi um retorno de Diegues, morto no ano passado, à temática da escravidão, 13 anos após "Ganga Zumba", sobre a história do Quilombo dos Palmares. Era uma tentativa de, ao mesmo tempo, fazer um espetáculo popular, colorido e carnavalesco, e refletir sobre a história do Brasil.