Não se sabe ainda se a eventual tarifa será cumulativa à taxa de 25% O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, afirmou que a investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 sobre trabalho forçado será concluída na próxima semana. Segundo ele, somente após essa definição será possível saber se a eventual tarifa decorrente desse processo, de 12,5%, será cumulativa à taxa de 25% anunciada ontem pelos Estados Unidos, o que elevaria a alíquota total para 37,5%. Na decisão de ontem, por exemplo, os EUA excluíram da tarifa adicional de 25% os produtos já sujeitos às medidas da Seção 232. A alíquota adicional de 12,5% seria aplicada ao Brasil e outros 59 países por falhas no combate à entrada de bens produzidos com trabalho forçado. “É muito provável que todo mundo fique com o que foi recomendado”, disse Elias Rosa. A tarifa de 12,5% substituiria a alíquota geral de 10%, cuja validade foi derrubada pela Justiça americana. Elias Rosa disse que o governo brasileiro vai retomar daqui alguns dias a discussão e diálogo em apoio aos setores atingidos. Segundo ele, a reunião encerrada na terça-feira com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, terminou com o compromisso de manter o diálogo e as negociações em defesa desses segmentos. “Seria grande desrespeito com setores atingidos se não voltássemos à mesa de negociação. É evidente que vamos continuar defendendo a não aplicação da tarifa, ninguém aqui vai abandonar quem foi atingido por tarifaço apenas por não concordar com tarifaço”, reforçou. O ministro afirmou ainda que o governo não se deixará intimidar pela medida anunciada pelos Estados Unidos. Segundo ele, o país dispõe dos instrumentos necessários para enfrentar a situação. "Nada nos acovarda. Temos instrumentos e meios para superar qualquer desafio dessa natureza", afirmou. O governo americano publicou na noite desta quarta-feira (15) a resolução que estabelece tarifa de 25% sobre produtos exportados pelo Brasil. A tarifa, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, entrará em vigor na próxima quarta-feira (22). A Seção 301 é um instrumento previsto na Lei de Comércio dos Estados Unidos de 1974, que autoriza o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) a apurar práticas que supostamente prejudicam o comércio internacional americano. A investigação contra o Brasil, feita nos termos da Seção 301, abrange um conjunto amplo de temas. Entre os pontos citados estão, por exemplo, o Pix, a comercialização de produtos falsificados em centros populares como a Rua 25 de Março e alegações de restrições a redes sociais americanas. Influência da família Bolsonaro pelo tarifaço Ao ser questionado sobre a atuação da família Bolsonaro nos Estados Unidos, o ministro afirmou que não se faz defesa do Brasil conspirando contra os interesses dos brasileiros e do setor produtivo do país. Elias Rosa criticou a presença do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), onde o parlamentar discursou, junto com representantes de empresários brasileiros e americanos. Depois, Flávio pediu aos EUA o adiamento da aplicação das tarifas para depois das eleições de 2026. Para o ministro, a participação do senador na audiência atendeu exclusivamente aos interesses “pessoal, egoístico, político e eleitoral” do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. “No momento da negociação, ocupar audiência pública em Washington, um espaço de defesa do empresariado, para fazer disso um palanque político conspira contra os interesses do Brasil”, afirmou. Segundo o ministro, a interferência de Flávio “prejudica” e “não consolida a defesa do Brasil”. “Nada que tenha acontecido entre [os presidentes] Lula e Trump, na relação entre Brasil e Estados Unidos, poderia levar a esse resultado, mas a atuação desleal de alguns poucos, isso sem dúvida [levou ao tarifaço]”, acrescentou. Márcio Elias Rosa — Foto: Wenderson Araujo/Valor