David Solomon, vestindo a beca acadêmica completa, balançava a cabeça alegremente e movia o dedo indicador no ritmo de sua própria música gerada por IA. O chefe do Goldman Sachs — que em maio tocou a linha de baixo pulsante de um hino motivacional para formandos de MBA — pode não ser o único executivo de Wall Street a dançar. Com um início de 2026 que quebrou todos os recordes, os maiores bancos dos EUA estão redescobrindo sua autoconfiança e prestígio. As ações do Goldman dispararam para o nível mais alto depois que o banco superou seu próprio recorde de receita com negociação de ações em mais de US$ 2 bilhões. J.P. Morgan Chase & Co., Morgan Stanley e Wells Fargo & Co. registraram, cada um, lucros trimestrais sem precedentes. O Bank of America Corp., por sua vez, teve o melhor desempenho semestral de início de ano de sua história. A primeira administração Trump proporcionou aos seis maiores bancos dos EUA seu primeiro ano com lucro de US$ 100 bilhões. Agora, seu retorno à presidência lhes garantiu o primeiro semestre com esse mesmo patamar de lucro. O que torna esse momento de euforia especialmente gratificante para os banqueiros é que eles estão prosperando enquanto outros setores das finanças — especificamente as empresas de private equity, que haviam atraído seus talentos e invadido seu território — enfrentam suas próprias dificuldades. Os banqueiros não se sentem mais deixados de lado. "Por um tempo, ser banqueiro era motivo de piada", disse Euan Rellie, cofundador da empresa de consultoria BDA Partners. "De alguma forma, mais uma vez, é socialmente aceitável. É algo 'legal' de se fazer." Durante anos após a crise financeira de 2008, mercados mornos e regulamentações rigorosas transformaram os banqueiros em figuras sem brilho no mundo das altas finanças. A glória e o dinheiro migraram rapidamente para os mercados privados. O mesmo aconteceu com muitos profissionais de negociação ("dealmakers") em busca de bônus maiores. No entanto, a alta das taxas de juros em 2022 tornou mais difícil para as empresas de aquisição entrar e sair de negócios. Ao longo do último ano, as diversas medidas inflacionárias de Trump — incluindo anúncios inesperados de tarifas e o bombardeio do Irã — adiaram cortes nas taxas de juros, ao mesmo tempo em que geraram mais atividade para os operadores do mercado. O resultado é que as ações dos seis maiores bancos do país — J.P. Morgan, BofA, Citigroup Inc., Wells Fargo, Goldman Sachs Group Inc. e Morgan Stanley — registraram uma alta média de quase 80% desde a eleição presidencial de 2024. Blackstone Inc., KKR & Co., Apollo Global Management Inc. e Carlyle Group Inc., por outro lado, apresentam queda. ‘Recuperando o fôlego’ O boom da inteligência artificial, que ameaça muitos trabalhadores de escritório, a persistência da inflação e a guerra no Oriente Médio estão provocando forte volatilidade nos mercados e remodelando a economia. Ao mesmo tempo, esses fatores têm se mostrado altamente lucrativos para os bancos. O impulso gerado pela IA "significará que mais empresas recorrerão tanto aos mercados de ações quanto aos de dívida", afirmou Mahesh Saireddy, sócio do Goldman, à Bloomberg TV. Sachin Khajuria, ex-sócio da Apollo que iniciou sua carreira no setor no Morgan Stanley, comparou a situação atual com a de alguns anos atrás, quando o CEO do J.P. Morgan, Jamie Dimon, declarou que seus rivais não bancários estavam "dançando nas ruas" devido à onda de regulamentações bancárias. Essas regras haviam facilitado a tarefa de empresas de private equity, fundos de hedge e outros investidores de atrair talentos e captar recursos. "Os bancos de Wall Street recuperaram sua força", disse Khajuria. "Eles estão encontrando oportunidades em meio a uma policrise que vai da geopolítica ao impacto da IA." Agora, há uma demanda insaciável pelos serviços bancários, e seus executivos é que podem dançar, disse Khajuria. Nada ilustra melhor a euforia de Wall Street do que a onda de grandes ofertas de ações ocorrida no verão. A recente estreia da SpaceX, com uma captação recorde de US$ 86 bilhões, desencadeou esse frenesi; investidores ignoraram os prejuízos da empresa e abraçaram as ambições grandiosas de Elon Musk de criar um conglomerado que une IA, foguetes e redes sociais. Ted Pick, CEO do Morgan Stanley, estava no pregão da empresa dirigindo-se a Musk com visível admiração durante uma videochamada, depois que o banco arrecadou cerca de US$ 100 milhões ao liderar a oferta. Dias depois, a sede do J.P. Morgan em Midtown brilhava com uma enorme bandeira da Coreia do Sul, enquanto banqueiros celebravam mais uma listagem de grande destaque: a da fabricante de chips SK Hynix. Ainda assim, a festa pode sofrer uma pausa. Notícias do mês passado indicando que a OpenAI poderia adiar sua gigantesca oferta pública inicial fizeram as ações de vários bancos caírem. "Não sei se há motivo para vanglória", disse Dinakar Singh, ex-sócio do Goldman e fundador e gestor da empresa de investimentos Axon Capital, enquanto os bancos divulgavam seus resultados. "Os bancos focados em mercados de capitais transformaram-se em apostas no setor de IA." Entretanto, os bancos também estão encontrando lucros e alívio em outras frentes. No J.P. Morgan — que acaba de superar seu próprio recorde de maior lucro trimestral na história do setor bancário americano —, os ganhos expressivos vieram de diversas fontes. Sua divisão de banco comercial e de investimento, sua ampla área de varejo e sua unidade de gestão de ativos e patrimônio registraram resultados positivos. No J.P. Morgan, que acaba de superar seu próprio recorde de maior lucro trimestral na história do setor bancário americano, os ganhos excepcionais vieram de várias frentes. Suas divisões de banco comercial e de investimento, sua ampla área de varejo e sua unidade de gestão de ativos e patrimônio registraram, todas, receitas recordes. Dimon completou 20 anos no comando da empresa e planeja permanecer no cargo por mais algum tempo, aproveitando sua posição de destaque para abordar questões de grande envergadura, como a segurança nacional e o sonho americano. Processos de recuperação também estão ganhando força no Wells Fargo e no Citigroup. O Wells Fargo, livre de uma restrição de crescimento imposta pelo Federal Reserve que durou anos, expandiu seu balanço patrimonial em 15% no último ano. No Citigroup, quatro das cinco principais divisões superaram as expectativas no segundo trimestre. Enquanto isso, autoridades nomeadas por Trump estão flexibilizando regulamentações. Embora o presidente não tenha deixado de criticar os banqueiros, as propostas que ele colocou em andamento são amplamente vistas como favoráveis. Dimon elogiou o novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, e a vice-presidente de supervisão, Michelle Bowman, durante a teleconferência de resultados de sua empresa. A dupla "está dando um passo atrás e analisando o amplo espectro de mudanças — que têm sido extensas ao longo de 20 anos, incessantes e, muitas vezes, sem um objetivo final ou consequência pretendida", disse o CEO. "Acredito, de fato, que isso pode tornar o sistema muito mais seguro — muito mais seguro mesmo —, e esse deveria ser o verdadeiro objetivo, em vez de apenas adicionar camada sobre camada de exigências burocráticas de relatórios." As mudanças podem ter um impacto direto no lucro. O Morgan Stanley utilizou o capital adicional liberado após reguladores dos EUA flexibilizarem uma regra importante no ano passado e o reinvestiu em suas operações de negociação de ativos ("trading"). Isso ajudou o banco a acumular mais de US$ 11 bilhões em receita com negociação de ações nos primeiros seis meses de 2026 — um valor superior ao que havia obtido em qualquer ano completo antes de 2024. Um ex-integrante do comitê executivo do Goldman, que deixou a empresa anos atrás para assumir uma posição de destaque no setor de mercados privados, foi questionado nesta terça-feira (14) se lamentava sua saída. Em resposta, ele exibiu o gráfico das ações da empresa e acompanhou a trajetória do preço, que dobrou e depois triplicou nos últimos anos. Ele suspirou. Disse que certamente gostaria de ainda possuir sua antiga participação acionária. "A dinâmica relativa mudou", disse Rellie. Você está ganhando dinheiro mais do que suficiente no setor bancário, e o private equity está mais difícil do que nunca. David Solomon, CEO do banco americano Goldman Sachs — Foto: Hollie Adams/Bloomberg