Numa entrevista à imprensa nesta semana, a primeira-dama Janja afirmou que o Brasil "nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse" efetivamente. A frase, dita para justificar sua rotina de viagens e agendas institucionais, provocou reação imediata: a Fundação FHC lembrou que Ruth Cardoso presidiu o Comunidade Solidária, programa pioneiro de combate à pobreza, e representou o Brasil em organismos como a a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Vale fazer as contas. O Brasil tem 26 estados mais o Distrito Federal, 27 unidades, e 5.569 municípios. Historicamente, cada um deles sustenta a figura de uma primeira-dama, estadual ou municipal, quase sempre institucionalizada através dos Fundos Sociais de Solidariedade, estruturas criadas há décadas justamente para organizar trabalho social. Só São Paulo tem 645 municípios, boa parte ligada a uma rede de fundos coordenada a partir do Palácio dos Bandeirantes e cada um comandado por uma primeira-dama.
Ou seja, neste exato momento, milhares de mulheres ocupam esse papel país afora e o trabalho existe, documentado. Lu Alckmin, primeira-dama de São Paulo por 14 anos, criou a Padaria Artesanal, projeto que profissionalizou cerca de 20 mil pessoas e chegou a mais de 9.000 unidades. Hoje, à frente do Fundo Social, mantém escolas de moda, beleza e construção civil em quase todo o estado, e Ruth Cardoso, que dispensa apresentações, deixou legado reconhecido internacionalmente.









