Em 1964, um ano depois do lançamento do álbum de estreia dos Beatles, a banda formada por quatro jovens de Liverpool já era um sucesso global. Na Argentina, por exemplo, as únicas faixas que figuraram na primeira posição e não eram cantadas em espanhol eram deles. Twist and Shout, faixa final de Please Please Me, foi a primeira música da banda inglesa a explodir definitivamente na Argentina. Segundo a revista Bilboard, John, Paul, George e Ringo fizeram parte da trilha sonora do mês de agosto no país. No fim de dezembro, lá estavam eles de novo. A Hard Day's night, faixa que abria o terceiro LP da banda, fechou aquele ano como a música mais escutada na Argentina, estabelecendo de vez a presença e influência da banda inglesa a mais de 11 mil quilômetros de distância de casa. Três anos depois, em 1967, os Beatles lançavam um dos seus álbuns mais conceituados: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O disco, psicodélico, colorido e atemporal parece sintetizar as influências que deram vida à banda que deu início ao movimento do rock argentino: Los Gatos. No clipe da música La Balsa, por exemplo, o grupo deixa as inspirações bem claras: as roupas são muito similares às utilizadas pelos ingleses e a melodia quase mimetiza o estilo dos meninos de Liverpool. A união de todas essas influências com letras em espanhol, que a população entendia, se identificava e se relacionava, popularizam o gênero musical que ainda veria o surgimento das bandas Manal, Almendra e Arco Iris entre as décadas de 60 e 70, caminhando para a consolidação do rock nacional. Beatles na Argentina? A "beatlemania" presente no consumo dos discos e na formação do rock nacional argentino; cheio de músicos cabeludos, vestidos com estampas coloridas e sempre acompanhados da guitarra elétrica, também causou uma confusão, no mínimo, divertida. No mesmo ano em que o grupo de Liverpool emplacou dois hits no topo das paradas do país, mesmo com tão pouco tempo de existência, um burburinho sobre a presença deles na América do Sul para shows especiais começou a surgir na imprensa latina. O jornal La Crónica, do Peru, noticiou em 1964: “Vienen Los Beatles”, fazendo referência a um possível show em Lima. Jornal "La Crónica", do Peru, noticiou a suposta vinda dos Beatles à América do Sul — Foto: Reprodução/La Crónica A chegada no Peru estava prevista para maio, mas a visita só aconteceu na Argentina, em julho, no dia 8, especificamente. Naquela quarta-feira, os “Beatles” se apresentariam no canal 9, da TV argentina, diante do público presente no estúdio de Buenos Aires e, também, de todo o país. Acontece que a banda era falsa. Falsa, na verdade, não é a palavra. Eles eram um grupo musical, mas não eram os Beatles. Formado por jovens da Flórida (EUA), o quarteto era chamado de The Ardells. Um empresário argentino viu o grupo em uma apresentação em Miami, os achou parecidos com o grupo de Liverpool e decidiu vender as apresentações para a América do Sul como se fossem os Beatles verdadeiros — sob a grafia de “The Beetles” ainda por cima. Por um breve momento, a farsa passou despercebida, mas após a apresentação, obviamente todos perceberam que não se tratava do grupo original e a magia acabou. Os Beatles — os originais — nunca pisaram de fato na América do Sul, mas a banda "cover" ainda chegou a fazer quatro shows aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, em 1964. Grupo dos Estados Unidos, que depois ficou conhecido como "Beetles americanos" ainda se apresentou na Esapanha, como noticiado pela revista espanhola Dígame — Foto: Reprodução/La Crónica O britânico Joseph Taysom, jornalista e editor da Far Out Magazine, do Reino Unido, já escreveu sobre a história e, durante a pesquisa, se deu conta que muitos ainda pareciam curtir o momento apesar da farsa. — Algumas pessoas se divertiam, mas outras estava só esperando os originais e se sentiram enganadas — escreveu. Em entrevista ao GLOBO, Taysom disse que ainda se impressiona com a gravação do programa, que deu origem a um documentário da BBC. — Eu estava assistindo novamente às imagens deles naquele programa de TV, e os fãs simplesmente enlouquecem. Eles os tratam como se fossem os Beatles, mesmo o cantor tendo um sotaque americano e, na verdade, eles nem soam como os Beatles, mas a reação do público continua sendo a mesma. É como se bastasse vê-los. Acho isso uma loucura e ainda não acredito que isso tenha acontecido. É algo único daquela época onde as pessoas ainda conheciam pouco a banda e a troca de informações era menor — comentou o jornalista. A Guerra das Malvinas Junto dos Beatles, o rock argentino também sofreu influência de outro fenômeno, desta vez político. Em 1982, a Argentina vivia o seu segundo período ditatorial e, sob o regime de Jorge Videla, entrou no conflito que ainda vive na memória da população mais de 40 anos depois. — Se não tivesse a Guerra das Malvinas, provavelmente a ditadura teria acabado em 82. Essa foi a questão da guerra: a ditadura militar argentina ganhou alguns meses; uma sobrevida — afirmou o professor Tanguy Baghdadi, mestre em Relações Internacionais e professor de política internacional, em entrevista ao GLOBO. A guerra, como disse Baghdadi, usada como muleta para a continuidade do regime, teve consequências políticas, humanas e… culturais. — No mesmo dia que o regime militar anunciou para os argentinos que tinham desembarcado durante a noite e a madrugada nas Malvinas, proibiram música britânica nas rádios e nas TVs do país, inclusive filmes britânicos foram proibidos — relembra Ariel Palacios, jornalista e correspondente da Globo News em Buenos Aires para assuntos da América Latina. Em entrevista ao GLOBO, Ariel pontua uma característica única do país: apesar do surgimento dos grupos de rock com letras em espanhol nas décadas de 60 e 70, o gênero só alcançou a consolidação real após o conflito contra a Inglaterra. Trailer nos arredores do estádio de Kansas City, antes da partida entre Argentina e Suíça, faz referência à Guerra das Malvinas — Foto: Carl Recine/Getty Images via AFP — No caso da Argentina foi necessária uma guerra para que houvesse espaço para o rock nacional, enquanto que, no Brasil, o rock nacional conquista esse espaço sozinho — disse o jornalista. Com bom humor, Palacios também comentou a respeito da hipocrisia da época, que impulsionou as músicas em espanhol nas rádios e mudou nomes de ruas em inglês, mas não afetou, por exemplo, os nomes de clubes de futebol. — Mudaram o nome de ruas, apedrejaram as escolas em inglês, mas os nomes dos clubes de futebol em inglês na Argentina — que são muitos — não mudaram. River Plate continuou sendo River Plate, ninguém falou nada. Ninguém falou: “ei, vamos mudar para clube Rio de La Plata. Ninguém falou nada. Era muita hipocrisia — ironizou o jornalista. Enfim, Copa do Mundo Nesta quarta-feira, atravessadas por uma guerra e muita influência musical, Argentina e Inglaterra voltam a disputar uma partida de Copa do Mundo em busca de uma vaga na grande final da competição. Agora, cabe apenas aos jogadores a definição da trilha sonora da vitória: “Hey Jude”, mantendo a pegada da “beatlemania” e em homenagem a Jude Bellingham, candidato a personagem da partida, ou, quem sabe, “La Cuarta”, tema entoado pelos argentinos em alusão a uma possível quarta conquista de Mundial.
Beatles e o rock argentino: uma relação que ultrapassa barreiras geográficas e chega à Copa do Mundo
Quarteto de Liverpool fez parte das influências que potencializaram o surgimento e consolidação do Rock Argentino e 'protagonizaram' um dos acontecimentos mais curiosos do país















