Semifinal da Copa reacende disputa histórica e feridas da guerra de 1982 entre argentinos e britânicos Nesta foto de arquivo de 22 de junho de 1986, o argentino Diego Maradona, à esquerda, derrotou o goleiro inglês Peter Shilton e marcou seu primeiro de dois gols na partida de futebol das quartas de final da Copa do Mundo na Cidade do México. Este foi o dia da 'Mão de Deus', quando Maradona usou seu punho esquerdo para desviar uma bola de Shilton da Inglaterra — Foto: El Grafico via AP Argentina e Inglaterra entram em campo nesta quarta-feira (15) para disputar a última vaga na final da Copa do Mundo de 2026. No seu jogo de classificação, os argentinos se adiantaram em provocar os ingleses. “Quem não pula é inglês”, cantaram nas arquibancadas de Kansas City, comemorando a classificação para as semifinais do torneio após vencer a Suíça por 3 a 1. Em outras ocasiões, os torcedores argentinos entoam "La Cuarta Estrella", cântico repetido durante a campanha no mundial que reúne três símbolos nacionais: “por Malvinas, por El Diego, por la última de Leo”. Os gritos ajudam a dimensionar o peso histórico que cerca a rivalidade dos hermanos com os ingleses desde 1986, quando as seleções se enfrentaram pela primeira vez em campo após a chamada Guerra das Malvinas. Desde então, as provocações e referências aos britânicos se tornaram um clássico das arquibancadas albicelestes e são entoadas independentemente de quem for o adversário na partida. Para José Alves, professor titular de História da América pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), os argentinos transformaram a primeira partida após a guerra em uma “revanche moral”. “O futebol funciona muitas vezes como uma alegoria daquilo que está em disputa fora do campo. É muito natural as pessoas fazerem paralelos a respeito das situações políticas e econômicas de um país no contexto de enfrentamento com o outro. Neste caso, a partida da copa de 1986 foi vista como uma espécie de revanche moral”, afirma. O jogo em questão foi válido pelas quartas de finais da Copa do Mundo sediada no México, em 1986. Liderados por Diego Maradona, os argentinos venceram os ingleses por 2 a 1, com dois gols famosos de Diego: um que é considerado um dos mais bonitos da história das copas, e o outro marcado com a mão, cunhado como o gol de “La mano de Dios”. “Os argentinos têm uma maneira de narrar os fatos onde eles são os ‘sagazes’, algo muito próximo daquilo que é o nosso ‘jeitinho’. Então, ter vencido no futebol, e ainda nas condições adversas que foram, dá um sabor. Afinal de contas, houve essa humilhação de uma guerra perdida” explica o especialista. Até hoje, em todas as vezes que se enfrentaram, ingleses e argentinos protagonizaram jogos tensos. “É sempre uma rememoração, as pessoas lembram desse embate, lembram dessa disputa e, consequentemente, do contexto político que teve nessa partida”, conta o professor. Uma guerra para a Argentina, um "capricho" para os ingleses A rivalidade entre argentinos e ingleses não começou em campo, mas sim em um arquipélago. As Ilhas Malvinas estão a 550 quilômetros do litoral argentino. A distância da Grã-Bretanha para as Malvinas é de 12,8 mil quilômetros. O arquipélago foi palco de uma guerra entre argentinos e ingleses pelo domínio de seu território. Aproveitando um clima interno tenso no século XIX, quando o império espanhol perdia suas forças na América do Sul e a Argentina lutava pela sua independência, os ingleses invadiram as Ilhas Malvinas em 1833. "Se aproveitaram dessa situação de instabilidade", explica Alves. A partir de então, a Argentina sempre buscou, diplomaticamente, persuadir a Inglaterra a aceitar a desocupação do território, alegando um contexto de descolonização e libertação nacional. A situação ainda não foi resolvida. Em 1965, a ONU passou a reconhecer que há uma disputa por território entre a Argentina e a Inglaterra em torno do arquipélago, classificando o caso como uma situação colonial e pedindo que ambos os países negociem uma solução pacífica. Em 1982, os argentinos tentaram outra abordagem, desta vez militar. O conflito começou em março de 1982, quando os militares argentinos desembarcaram na ilha. A partir daí, eles seguiram por mais de 70 dias em combate com as forças inglesas. O saldo final foi a manutenção do arquipélago pelo Reino Unido e a morte de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e três civis. Especialistas ouvidos pelo Valor apontam que a guerra foi uma estratégia do regime ditatorial argentino da época para criar um sentimento nacionalista na população e aliviar a tensão interna sobre o governo nacional, que já vinha sofrendo com uma crise econômica grave. "[A guerra] dá aos argentinos um brio nacionalista e empresta um pouco de popularidade para a ditadura militar. Mas naquele momento, não havia razão alguma para se entrar em um conflito como aquele", diz Alves. Atualmente, as ilhas, chamadas de Falkland Islands pelos britânicos, são administradas pelo Reino Unido. Para Alves, o assunto segue sendo muito sensível para a sociedade argentina e é um tema central na política nacional. Contudo, no outro lado do Atlântico, o peso da questão é bem menor. “Para Inglaterra isso é praticamente indiferente. É uma questão que ela mantém quase como um capricho e, obviamente, porque explora recursos naturais, no local. Mas não é algo que mobilize a sociedade”, alega José Alves. “Os britânicos consideram que eles descobriram as ilhas”, afirma Roberto Goulart Menezes, professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB. Com o passar dos anos, a Inglaterra investiu na ilha e estudos geológicos descobriram uma reserva de petróleo atrativa na região. Isso reforça o interesse em manter o controle das ilhas e não ceder para a Argentina. *Estagiário sob supervisão de Diogo Max
"Quem não pula é inglês": a história por trás do canto argentino que evoca rivalidade contra a Inglaterra
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