"Arranca pela direita o gênio do futebol mundial". Assim Victor Hugo Morales, histórico narrador uruguaio, começa a relatar a "corrida memorável" e a "jogada de todos os tempos" de Diego Armando Maradona na partida da Argentina contra a Inglaterra, no Estádio Azteca, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986. Foram 42 metros percorridos em 10 segundos, com doze toques na bola e cinco ingleses deixados pelo caminho até o camisa 10 argentino marcar um dos gols mais bonitos, mais importantes e mais recordados de todos os tempos. Ali, num 22 de junho como hoje, aos 10 minutos do segundo tempo, Maradona cravou o seu nome na história do futebol. Mas, três minutos antes, o homem já havia virado Deus. O golaço que entrou para a história e é sempre lembrado quando algum outro jogador marca passando por vários adversários saindo do meio de campo, algo cada vez mais raro, foi só o segundo capítulo daquele dia. Se em um dos gols Maradona chamou a atenção pela genialidade técnica, no outro foi pela "picardia", como gostam de chamar os argentinos. A famosa malandragem. Algo que seria abominado — e anulado — em tempos de futebol tecnológico. Apesar da genialidade da jogada do "barrilete cósmico", outro trecho da narração de Morales, foi este gol - o de mão -, que ajudou a criar o mito atrás do homem, transformado em Deus e vingador de uma nação, que viu na vitória conduzida por Maradona uma vingança pela Guerra das Malvinas, que, quatro anos antes, deixou 649 soldados argentinos mortos no conflito com tropas britânicas. E esta causo, sobre "la mano de Dios", talvez seja o melhor exemplo de como, 40 anos depois, tudo o que envolve a vitória da Argentina sobre a Inglaterra ainda é cercado de mitos e verdades. Até hoje não há certeza sobre a autoria da frase "la mano de Dios". No dia seguinde a partida, dentre tantos veículos da imprensa argentina que acompanhavam aquele Mundial, inclusive com repórteres com acesso ao vestiário, apenas o jornal Crónica publicou a expressão creditada a Maradona, assim como alguns poucos veículos mexicanos. "Fiz com a cabeça de Maradona, mas com a mão de Deus", teria dito o camisa 10, que negou ser o autor da frase logo no dia seguinte -- durante um período, mesmo com as imagens, ele negou que havia feito o gol de mão. Sustentava que havia sido de cabeça ou contra o goleiro inglês Shilton. No livro "O Jogo", publicado em 2016, quando o duelo completou 30 anos, e agora transformado em documentário com o mesmo nome ("El Partido", em espanhol) - lançado em maio no Festival de Cannes e recentemente na Argentina, o jornalista argentino Andrés Burgo reconstrói a história da partida entre Argentina e Inglaterra. Em uma pesquisa de cerca de três anos, Burgo conseguiu chegar no que poderia ser a verdadeira origem da "mão de Deus". De acordo com o livro, depois de Maradona ter negado por diversas vezes que havia tocado na bola com a mão, Néstor Ferrero, editor argentino da agência de notícias italiana ANSA, falou para o jogador: "Então, terá sido a mão de Deus". Maradona, resignado, respondeu: "Terá sido". Como era difícil "manchetar" a frase "terá sido", alguns jornalistas presentes aproveitaram a "confirmação" de Maradona e "transformaram" em uma afirmação: "Foi com a mão de Deus". E assim ficou. — O que me dei conta é que não ficava claro se as pessoas falavam de recordações, do que lembravam, ou do que realmente aconteceu. Havia diferentes versões para um mesmo fato. O próprio Maradona, quando termina o jogo, disse que pensou no irmão no segundo gol. Tinha feito uma jogada muito parecida contra a Inglaterra em 1980 (em Wembley, mas não driblou o goleiro e finalizou para fora. O irmão teria falado que ele deveria driblar o goleiro adversário). No ano seguinte ele fala "como iria lembrar do meu irmão? Quem disse isso é um mentiroso". Não é que o Maradona estivesse mentindo. São as recordações, as memórias. Tem muito mitos. E o mito tem que ser bem vindo, faz parte da lenda — disse Andrés Burgo. Maradona passa pela marcação de dois jogadores da Inglaterra em jogo na Copa de 1986 — Foto: AFP A vingança de uma guerra O contexto histórico da partida, é claro, ajudou a transformar a figura de Maradona. A memória das Malvinas ainda era uma ferida aberta na Argentina. A rivalidade que já existia no futebol com os ingleses desde a Copa de 1966, quando a Inglaterra eliminou os argentinos na quartas de final em jogo que ficou marcado pela polêmica expulsão do capitão Antonio Rattín ainda no primeiro tempo do jogo, em um tempo em que não havia cartão vermelho, ficou ainda mais exacerbada pelo conflito entre os países em 1982. Por mais que, publicamente, os jogadores argentinos e, principalmente, o técnico Carlos Bilardo ressaltassem para que separassem o futebol deste contexto, era claro o clima de revanche por parte do povo argentino. Durante o Mundial, faixas como dizeres sobre as Malvinas foram estendidas em estádios no México. E antes, durante e depois do jogo daquele 22 de junho ocorreram brigas entre barras argentinos e hooligans ingleses. — Todos nós declaramos, antes da partida, que o futebol não tinha nada a ver com a Guerra das Malvinas... Papo furado. Mas optamos por nos manter distantes, serenos — disse Maradona em uma entrevista reproduzida na biografia "Maradona - De Diego a D10s", de Guillem Balague. — Era um jogo gigantesco, quartas de final de Copa do Mundo. Mas, sim, parecia estar em outro nível. Eu me lembro de que as perguntas nas coletivas eram mais incisivas do que o normal — disse o atacante inglês Gary Lineker, autor do gol da Inglaterra na partida, em entrevista reproduzida no mesmo livro. A vitória, com requintes de crueldade pelo gol de mão, além de transformar Maradona em um Deus, também fez do camisa 10 um herói vingador da nação que estava com o orgulho ferido há quatro anos. — Esta partida deu tudo a Maradona. A maior picardia, o melhor gol. E contra o rival perfeito. Se fosse contra o Brasil, seria diferente, teria menos impacto. Contra a Inglaterra tinha uma questão muito além da esportiva. Tem a questão que transforma o Maradona num vingador da Guerra, numa espécie de militar de short — disse Andrés Burgo. Apenas três minutos separaram os dois gols de Maradona naquele dia, com o segundo marcado aos 10 da etapa final. Muita água rolou até o fim do jogo e os ingleses, inclusive, tiveram a bola para levar o a partida à prorrogação, mas Olarticoechea, zagueiro coadjuvante daquela seleção, se antecipou a Liniker e desviou a bola para fora com "a nuca de Deus", como passou a brincar após o surgimento da "mão de Deus". Aquela Argentina passou pela Bélgica na semifinal, com outros dois gols de Maradona, e bateu a Alemanha na final, em jogos que viram nota de rodapé quando se fala do título argentino de 1986 e da carreira de Maradona. Também pudera. A lenda já estava criada e a história já estava escrita.
Há 40 anos, Maradona virou lenda e vingou uma guerra com a 'mão de Deus' e o gol do século
Entre mitos e verdades, a história da partida entre Argentina e Inglaterra pela Copa de 1986 se mistura com a de Maradona, protagonista de um dos maiores jogos de todos os tempos











