“Pelas Malvinas, por Diego e pela última de Leo”. Este é o trecho daquela que é hoje a principal canção de torcedores da Argentina nos estádios norte-americanos, e que com certeza fará parte do sons ecoados nas arquibancadas das semifinais da Copa do Mundo de 2026. Nesta quarta, argentinos e ingleses se encontram em uma partida de mundial 42 anos após as “Guerras das Malvinas”, confronto bélico entre as nações que ultrapassou as barreiras geopolíticas e tomou conta dos gramados do maior torneio de futebol do planeta. Na década de 80, quatro anos depois de sair derrotada de uma das guerras de maior significado em sua história, com a perda de um território a pouco mais de 14 mil quilômetros de distância do país, os hermanos jogaram a partida de suas vidas na segunda Copa disputada no México, em 1986. Com duelo épico marcado pela “Mano de Dios” e o “Gol do Século", os argentinos fizeram as pazes consigo mesmos e, em certo ponto, com o ressentimento recente: a "vingaça" contra os ingleses veio. Quase meio século depois, o sentimento de rivalidade segue vivo no imaginário dos torcedores da seleção sul-americana. Contexto histórico Antes mesmo do futebol existir, o território foi descoberto. Nem por argentinos nem britânicos, mas sim pelo navegante italiano Américo Vespúcio. A serviço da Coroa espanhola, o desbravador chegou às ilhas no século XVI, abrindo caminho para um grande troca-troca no poder do pedregulho gelado, que hoje abriga mais pinguis do que seres humanos — são aproximadamente um milhão de aves e pouco mais de 3 mil Homo Sapiens no local. Pinguins Gentoo das Ilhas Malvinas (Falkland para os ingleses) — Foto: Wikimedia Commons Dentro dessa alternância na ocupação, há um fato curioso: as Ilhas Malvinas (Falkland para os ingleses), ligam não apenas Argentina e Inglaterra, mas também França e Espanha, que fazem o outro jogo das semifinais da Copa deste ano. Após a descoberta da Coroa Espanhola, Louis Antoine de Bougainville, navegador francês, desembarcou nas Malvinas em 1764. Ali, se iniciava a primeira ocupação verdadeira do território. O que os franceses não sabiam era que um grupo de navegadores ingleses desembarcaria na ilha em 1766. Os dois grupos de colonizadores ocuparam o território, juntos, por apenas um ano. Em 1767, o rei Luis XV aceitou um pedido da Coroa Espanhola, que havia descoberto o território, para deixar o local. Naquele momento, os espanhóis recuperavam as Malvinas e, mesmo sem acordo com os ingleses, as teriam só pra si sete anos depois, em 1774. Em 1811, os espanhóis abondaram a ilha pela "falta de utilidade". Malvinas, 2012; bandeira do Reino Unido com o território gélido ao fundo — Foto: Wikimedia Commons As Malvinas voltariam a ser um assunto dez anos depois, em 1821. Naquele momento, o governo da província de Buenos Aires começou a planejar a primeira ocupação argentina na ilha. A estadia dura pouco. Em 1833, a Inglaterra retorna — dessa vez para ficar — e toma à força o território. A guerra Em 1982, a Argentina retomou o controle das Ilhas Malvinas ao iniciar a Operação Rosário, em 2 de abril, ocupando o arquipélago por 74 dias. A ditadura de Leopoldo Galtieri assumiu a administração das ilhas, rebatizou sucessivamente a capital Stanley — até fixar o nome de Puerto Argentino — e levou ao território práticas repressivas já comuns no continente, incluindo torturas contra os próprios soldados argentinos. Durante o conflito, Galtieri chegou a planejar expandir a guerra para a Europa por meio da Operação Algeciras, que previa sabotar navios britânicos em Gibraltar. A missão fracassou antes de ser executada, quando os agentes argentinos foram presos pela polícia espanhola, suspeitos de envolvimento com o narcotráfico. No mar, o episódio mais marcante foi o afundamento do cruzador General Belgrano pelo submarino britânico HMS Conqueror, em 2 de maio, causando a morte de 323 marinheiros. A decisão, autorizada pelo governo de Margaret Thatcher, encerrou as tentativas de negociação para um cessar-fogo e permanece alvo de controvérsia na Argentina, que considera o ataque um crime de guerra. Margaret Tacther, ex-primeira ministra do Reino Unido (foto de 1990) — Foto: Wikimedia Commons No espaço terrestre das Malvinas, diversos soldados argentinos sofreram maus-tratos impostos por seus próprios superiores. Entre as punições estava o chamado "estacamento", em que militares eram amarrados sobre o solo congelado por até 24 horas. Outros morreram de fome após terem o fornecimento de alimentos suspenso pelos oficiais. Muitos ex-combatentes afirmaram, depois da guerra, que "o principal inimigo não eram os ingleses, mas os próprios oficiais argentinos". A guerra terminou em 14 de junho de 1982 com a rendição argentina. O conflito deixou 649 argentinos e 258 britânicos mortos, além de milhares de feridos e prisioneiros. Desde então, as Malvinas permanecem sob administração britânica. Enquanto os governos argentinos defendem negociações diretas com Londres sobre a soberania do arquipélago, o Reino Unido sustenta que qualquer mudança depende da vontade dos moradores das ilhas, que majoritariamente desejam continuar sob a Coroa britânica — porque são, em sua totalidade, britânicos. Do fronte de batalha para os gramados Com a perda de fôlego dos assuntos relacionados ao conflito, o futebol foi o responsável por conceder atemporalidade para a frustração argentina por uma guerra perdida. Em entrevista ao GLOBO, o professor Tanguy Baghdadi, mestre em Relações Internacionais e professor de política internacional, o país entendeu, desde a primeira oportunidade, em 86, que aquela era uma oportunidade de vingar-se pelas Malvinas. Trocedores argentinos exaltam Maradona e Messi em qualquer oportunidade — até nos instrumentos musicais — Foto: Austin Johnson/AFP — Aquele foi o primeiro duelo entre os países desde o final da guerra em 1982. A lógica na época era: ‘a gente precisa ter uma revanche, e essa é uma revanche simbólica’. O discurso de todo mundo naquele momento era esse. Os argentinos foram para frente da televisão, foram para o estádio lá no México, pensando nisso. E a maneira como aconteceu foi um negócio muito impressionante. Você tem o gol mais bonito da história das copas acontecendo nessa partida, por exemplo — afirmou o professor Baghdadi. O professor também comentou sobre o sentimento que ultrapassa o ambiente da arquibancada e chega, até mesmo, nos jogadores dentro de campo. Ele cita os vídeos que mostram os atletas nos vestiários entoando o canto argentino que fala explicitamente dos jogos. Reunião de torcedores argentinos nos Estados Unidos, durante a Copa do Mundo de 2026 — Foto: Austin Johnson/AFP — Os caras estão lá, estão gritando, eles falam do Messi, eles falam do Maradona, eles falam sobre as Malvinas. Eles falarem sobre o Messi, é um negócio que impressiona. Não é muito comum a gente ver música que os jogadores cantem com o cara que está no vestiário. Eles falam sobre as Malvinas. Então, me parece que o fato de ser uma questão mística torna a coisa ainda mais importante — disse ele. Por fim, o professor destacou também que, apesar dos calor e empolgação argentina pela memória quente de tudo que aconteceu há anos atrás, o tema nunca esteve tão frio geopolíticamente. Segundo o próprio, não há, de fato, grandes movimentos para que um cenário territorial mude. — Esse tema está mais gelado que as próprias Malvinas. Ninguém fala sobre o assunto, não é nenhum tema tratado. Os britânicos nem discutem o tema, não é um assunto de fato debatido. E eu não diria que para a Argentina isso não é bom. É um tema de unidade nacional. Toda vez que algum presidente falar sobre isso, ele ganha popularidade, por exemplo — completou. ¿El que no salta es un ingles? Nesta quarta-feira, às 16h (horário de Brasília), argentinos e ingleses reeditam um duelo atravessado por uma guerra, ufanismo e um "Deus", que "certamente", acompanhará tudo lá de cima. Bar em Buenos Aires com uma imagem de Maradona como santo — Foto: Luis ROBAYO/AFP A vitória leva a Argentina para a segunda final seguida, mantém vivo o sonho do tetra e do bicampeonato consecutivo inédito. Do lado inglês, é a chance de voltar a uma final 60 anos depois do primeiro e único título em casa. Por mais que os argentinos cantem a plenos pulmões "Ya lo ve, Ya lo ve, El que no salta es un ingles" parece que a festa britânica embalada por "Wonderwall" não vai deixar os ingleses quietos — e nenhum dos dois lados vai seguir o conselho de Scaloni, que afirmou que o confronto entre as equipes "é apenas um jogo de futebol".