Corredor que dá acesso ao estádio tem tráfico a céu aberto; um ano antes da Copa, prefeito falou em "garantir que sem-teto não venham" 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O Mercedes-Benz stadium, palco de Inglaterra x Argentina e vizinho de bairros pobres e históricos de Atlanta — Foto: Divulgação / Mercedes-Benz Stadium RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/07/2026 - 23:30 Atlanta enfrenta críticas por tratamento aos sem-teto antes da Copa 2026 Trinta anos após a Olimpíada de Atlanta ter manchado sua imagem por ocultar problemas sociais, a cidade enfrenta críticas antes da Copa do Mundo. O Westside Beltline Connector, uma rota para o estádio, passa por áreas marginalizadas como Vine City, onde o tráfico de drogas ocorre abertamente. A prefeitura já foi acusada de remover pertences de moradores de rua sem aviso. A preocupação atual é evitar que os sem-teto se concentrem no centro durante o evento, ecoando políticas controversas do passado. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Do outro lado da Northside Drive, avenida de grande circulação que margeia o estádio de Atlanta, uma placa de “Bem-vindo a Vine City” anuncia o bairro vizinho a um dos 16 palcos da Copa do Mundo. Mas ao ser perguntada sobre a região, uma segurança do centro de convenções vizinho à arena que receberá Inglaterra x Argentina, hoje, arregalou os olhos: — Não entre lá de jeito nenhum — disse ela, mais espantada ainda ao saber que a reportagem do GLOBO havia acabado de vir de lá. — Não faça de novo. Você deu sorte desta vez. Embora apenas uma rodovia passe entre os dois, a distância entre o estádio e Vine City é muito maior do que parece. O bairro é atravessado por uma das beltlines de Atlanta, ferrovias desativadas transformadas em corredores através dos quais pode-se percorrer a cidade a pé ou de bicicleta. Hoje, quando os torcedores se dirigirem ao jogo, dificilmente será por este caminho. O trecho que leva até o estádio é chamado de Westside Beltline Connector. É o primo pobre do projeto como um todo. Enquanto as outras trilhas contam com restaurantes, instalações de arte ou parques, estes 2,7 km são de simples passagem. Justamente os que cruzam bairros pobres da cidade: Vine City e seu vizinho English Avenue. Ao percorrer o trecho em direção ao Mercedes-Benz Stadium, O GLOBO passou por traficantes de drogas e usuários — alguns em estado de transe. O comércio e o uso ocorrem livremente, não atrás de árvores. Um dos vendedores, inclusive, estava parado no meio da pista, com um isopor no chão. Um desavisado poderia achar que se tratava de um ambulante oferecendo água. Não havia nenhum policiamento na região. Mas, antes, uma placa alerta aos que passam: "Caminhe somente em dois". Placa no corredor em Atlanta que leva ao estádio da Copa alerta para que pedestres não caminhem sozinhos — Foto: Rafael Oliveira Num determinado trecho, é possível avistar de longe dois grandes edifícios com anúncios gigantescos. Um é estrelado por Vini Jr; o outro, por Lamine Yamal. É o sinal de que o estádio está próximo. Há muitos moradores de rua. Nesta reta final do corredor, chama a atenção a quantidade de roupas estendidas no chão, aparentemente deixadas ali para secarem ao sol. Este trecho é o único do Westside Beltline Connector com uma intervenção recente: muitas árvores plantadas há pouco tempo. A “parede verde” despertou a desconfiança da população. Houve críticas de que se tratava de uma tentativa de cobrir o bairro em torno do corredor. Roupas estendidas no chão para secar em corredor que leva até o estádio da Copa, em Atlanta — Foto: Rafael Oliveira Algumas árvores atrapalham a vista de um grande grafite feito numa das construções que margeiam a trilha. Mas a verdade é que, de uma maneira geral, a quantidade de árvores e a distância entre elas não são suficientes para esconder o bairro de quem passa por ali. Ainda assim, a desconfiança faz todo o sentido, levando-se em consideração o histórico de Atlanta em lidar com seus problemas sociais. Em meio aos preparativos para a Copa na cidade, moradores fizeram um protesto após representantes da prefeitura removerem e descartarem pertences de moradores de rua que acampavam num parque público. Foram retiradas barracas, medicamentos, documentos de identificação, entre outras coisas, sem aviso prévio. Isso ocorreu a menos de um quilômetro e meio do estádio e apenas um ano após outro funcionário do município ter atropelado e matado um homem com uma escavadeira. Ao jornal inglês Guardian, que noticiou o episódio, um funcionário da prefeitura negou que aquela tenha sido uma operação de desocupação. Mas, ao mesmo tempo, frisou que o parque no qual cerca de 15 pessoas dormiam à noite “não era um acampamento”. A dificuldade em lidar com a população de rua é um problema histórico de Atlanta. Em 1996, quando recebeu os Jogos Olímpicos, a cidade ficou com a imagem prejudicada publicamente quando veio à tona a política implementada para tirá-los das calçadas durante o evento: passagens de ônibus para outros lugares foram oferecidas (com a condição de que não retornassem), e prisões foram efetuadas. O constrangimento público na ocasião parece ter sido esquecido. Um ano antes da Copa, a preocupação com a forma como os moradores de rua seriam tratados já era debatida publicamente. — Queremos garantir que essas pessoas sem-teto não venham para o centro da cidade, nem para qualquer lugar em Atlanta, não apenas durante a Copa do Mundo, mas agora — afirmou, sem qualquer tipo de pudor, o prefeito Andre Dickens, durante coletiva de imprensa. Vizinha do estádio que estará no centro das atenções hoje, Vine City é famosa por ter sido o lar de ícones dos direitos civis, incluindo Martin Luther King Jr. Ao virarem as costas para ela, perdem a Copa e Atlanta.