As cenas racistas de uma minoria da torcida, e a omissão da maioria em campo, me embrulham o estômago 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Enzo Fernández, comemora o primeiro gol de sua equipe durante a partida da semifinal da Copa do Mundo de 2026 entre Inglaterra e Argentina, no Estádio de Atlanta, em Atlanta, em 15 de julho de 2026. — Foto: Thomas COEX / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/07/2026 - 21:28 Racismo nas Arquibancadas Argentinas Afasta Torcedores da Seleção A crescente onda de racismo nas arquibancadas da Argentina e a omissão dos jogadores em campo afastam torcedores, como a autora, de apoiar a seleção. Apesar do amor pelo país e sua cultura, os comportamentos racistas frequentes e a falta de condenação pelos ídolos tornam inviável torcer pela equipe. O silêncio dos jogadores diante do racismo é visto como cúmplice, destacando a diferença entre as legislações contra o racismo do Brasil e da Argentina. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Confesso que não torcerei para a Argentina neste ano. Sempre fui uma entusiasta dos hermanos e adoraria abraçar um time sul-americano na final da Copa do Mundo, mas admito que as cenas racistas de uma minoria da torcida, e a omissão da maioria em campo, me embrulham o estômago. Amo a Argentina e tenho profunda admiração pelo país. Tenho muitos amigos argentinos e outros tantos descendentes deles que encontraram abrigo em São Paulo durante a ditadura militar, inclusive uma delas foi minha psicanalista — aliás, como não amar um país que tem paixão por Freud. Sou fã de Borges, Darín, doce de leite e medialunas. Não conheço muito sobre tango, mas ouvi bastante Gotan Project e achava demais os Fabulosos Cadillacs. Adoraria vestir agora a camisa azul e branca e vibrar com eles pelo tetracampeonato. Mas, para mim, ficou impraticável. Entendo os amantes do futebol que dizem que as coisas não se misturam, e que ver Messi jogar é algo sublime. Não estou nem entrando nesse mérito, inquestionável até para leigos como eu. Mas, sob meu ponto de vista, a torcida pela seleção vizinha se tornaria um endosso a cenas horrorosas vistas no estádio, que contaram com o silêncio assombroso de todos os ídolos em campo. Uma minoria ficou à vontade para proferir cantos racistas e fazer gestos imitando macaco para influenciadores, torcedores ou jogadores de outros times, como os de Cabo Verde. O comportamento deles, frequente nos estádios da Argentina, alcançou milhões pelo mundo e contou com o silêncio de quem justamente tem voz e alcance para combatê-lo. Os jogadores argentinos preferiram fingir que não viram. Vale lembrar a celebração do título da Copa América de 2024, quando o time começou a cantar uma música racista em referência ao francês Mbappé. Quem filmava a cena era Enzo Fernández, o autor de um dos gols de ontem. É óbvio que os jogadores não têm culpa do que a torcida faz nas arquibancadas. Mas eles são responsáveis pela omissão e pelo silêncio diante desses atos. Ninguém está pedindo para que Messi e cia. sejam ativistas. Uma palavra, no entanto, condenando o comportamento da minoria era obrigatória em nome de valores mais básicos da nossa sociedade. O silêncio é o mesmo que vimos há pouco em relação aos xingamentos do também argentino Gianluca Prestianni a Vini Jr. Não dá para fechar os olhos diante do ódio que vem das arquibancadas. Ser amado por milhões implica também ter uma responsabilidade com esses mesmos milhões. Não há espaço para omissão. Não se trata de colocar o Brasil como exemplo de país que combate o racismo. Longe disso. Temos uma série de problemas estruturais que, sob alguns aspectos, são mais graves que os do vizinho. Mas uma coisa é certa: a nossa legislação de combate ao racismo e, no geral, a aplicação dela são bem mais avançadas que as da Argentina. Comportamentos comuns e tradicionais nos estádios deles, replicados agora na Copa, aqui levam à prisão. Deixo para os colegas da editoria de esportes as análises técnicas sobre a força do time argentino e o que ele representa hoje para o futebol mundial. Mas, como mera torcedora, afirmo que meu coração não vai bater neste ano pela albiceleste. Não consigo separar o que vi nas arquibancadas do que vejo em campo. Uma pena.