Quem mora no Rio vai se lembrar da invasão argentina, da caravana de carros que vieram do nosso vizinho e inundaram Copacabana 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Turistas na Copa do Catar, em 2022 — Foto: Jung Yeon-je / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/06/2026 - 22:51 Elitização dos eventos esportivos afasta torcedores comuns no Brasil e no Catar Eventos esportivos de grande porte estão perdendo popularidade devido à elitização. O repórter destaca a diferença entre a Copa do Mundo no Brasil e no Catar, onde a experiência se tornou glamourosa e cara, afastando torcedores comuns. A Copa no Catar marcou essa mudança, com ingressos caros e áreas VIPs, tendência que se intensificou em eventos subsequentes, como a estreia do Brasil em Nova York. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O que é clima de Copa do Mundo? Essa é uma pergunta que tenho feito há uns anos, já, desde que a gente viveu uma experiência totalmente diferente do que estávamos acostumados no Catar em 2022. Essa é a quarta Copa do Mundo que eu cubro como repórter. A primeira foi aí no Brasil, onde você provavelmente viveu parte daquela experiência. Quem mora no Rio vai se lembrar da invasão argentina, da caravana de carros que vieram do nosso vizinho e inundaram Copacabana. Eram tantos que obrigaram o uso emergencial do Sambódromo como um estacionamento provisório para abrigá-los, uma solução com jeitinho brasileiro, mas que representava um pouquinho do que deveria ser o espírito de uma Copa. A certeza de que o torcedor é tão importante quanto a bola, quanto o ídolo no campo. Sem a torcida, não tem espetáculo. E, às vezes, quem dá o espetáculo não é nem o craque em campo. Está tatuada na minha memória a festa argentina no Maracanã lotado contra a Bósnia. Foi uma coisa de outro mundo. Como dizia com sabedoria Afonsinho, “o maior valor do futebol é a socialização.” NÃO ENGRENOU: América do Sul começa Copa sem vitórias e contrasta com brilho inicial de times da Conmebol no Mundial de Clubes de 2025POLÍTICA NA COPA: Torcedores do Irã desafiam proibição da Fifa e entram no estádio com bandeira contrária ao atual regime A Rússia era longe, mas foi uma Copa acessível. O preço dos ingressos não era exorbitante, e quem tinha ingresso tinha direito a viajar de graça ao redor do país, o que criou histórias incríveis para quem rodou a Rússia de trem em 2018. Lembro muito da torcida peruana naquela Copa, que se mobilizou em massa para ir pro outro lado do mundo apoiar sua seleção após 36 anos de ausência em Copas do Mundo, um exemplo que deu para eles o prêmio de melhor torcida do mundo aquele ano no FIFA The Best. Mas o Catar foi um choque e levou para a Copa um movimento de elitização no futebol que naquela época já começávamos a ver nos grandes estádios da Europa. Os gigantes europeus perceberam a oportunidade de negócio que existia em transformar a experiência de ir ao estádio em algo glamouroso, passaram a aumentar as áreas VIPs e estimularam a imagem de status potencializada por influenciadores nas redes sociais. Passou a estar em alta ir ao estadio, estar nesses lugares com seus celulares em mãos. Se no Catar a invasão de influenciadores na engrenagem da Copa já foi enorme, aqui em Nova York, para a estreia do Brasil, foi algo ainda mais avassalador. E, com eles, uma legião de torcedores elitizada, até porque quem pode pagar R$ 6 mil por um ingresso? Isso que é só o tíquete da estreia em Nova York, que, não bastasse ser uma das cidades mais caras do mundo, ainda teve o impacto da decisão da governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill, de inflacionar a passagem de trem para o estádio em 553%. O bilhete passou de cerca de R$ 76 para aproximadamente R$ 495... Só para chegar ao estádio. Evidentemente, o público mudou. E com essa mudança, mudou também o clima de Copa do Mundo. E temo que aquela esperança romântica de que voltaríamos ao que era antes com a competição sendo disputada na Espanha, Portugal e Marrocos, daqui a quatro anos pode ser uma ingenuidade, porque o preço dos ingressos não irá cair, pelo contrário. Estar presente em grandes eventos esportivos será um privilégio para poucos.