Sistemas de armazenamento também são apontados como essenciais; falta de mão de obra qualificada pode ser gargalo para desenvolvimento de novas tecnologias Transição energética na indústria demanda 'cardápio' variado de fontes de energia, dizem executivos — Foto: Gabriel Reis/Valor A transição energética sustentável sem perda de competitividade depende de garantir fontes de energia variadas e de sistemas de armazenamento eficientes, que vão desde o investimento em baterias de armazenamento de energia até a construção de hidrelétricas reversíveis. É isso o que defenderam representantes de diferentes setores durante o debate “Energia e Indústria: como descarbonizar sem perder competitividade”, realizado nesta terça-feira (14) em São Paulo. O evento faz parte do projeto Transição Energética, iniciativa do Valor e do Globo, com patrocínio da Vale. O Brasil já sai na frente em termos de redução da pegada de carbono por ter uma matriz energética limpa — as hidrelétricas — e por investir em biocombustíveis, como o biodiesel e o etanol, mas o caminho de garantir o desenvolvimento da indústria de forma eficiente passa pela diversificação, apontou Ricardo Cardoso, diretor-executivo industrial, engenharia e projetos da Klabin. A empresa tem apostado na “limpeza da matriz” nos últimos anos, substituindo o óleo combustível pela gaseificação da biomassa. "Um dos exemplos que nós temos foi esse processo pioneiro de trazer para o Brasil a iniciativa de gaseificação da biomassa, para reduzir e substituir o óleo combustível em base fóssil. A gente consegue reduzir em mais de 20 mil toneladas, em uma planta específica, o consumo de óleo combustível" disse Cardoso, durante o painel “Tecnologia, energia limpa e novos caminhos para a indústria”, destacando que a diversificação vem desde a matéria-prima, com o processamento de pinos além dos eucaliptos. Carlos José Bastos Grillo, vice-presidente de tecnologia da WEG, destacou os esforços da empresa no setor de armazenamento de energia em baterias (Bess, na sigla em inglês), que possibilita garantir maior resiliência frente a eventuais eventos climáticos extremos ou interrupções nas plantas de energia elétrica e solar ou hidrelétricas. "A WEG está construindo a maior fábrica de sistema de armazenamento de baterias do país. Hoje, o Brasil, de 100% da energia que o Brasil produz, 40% vem de fontes hidráulicas e os outros são energia solar, eólica ou térmica, como biomassa e gás. O grande problema é que na energia eólica e solar, quem dá as cartas é a natureza. E a gente sofre com isso porque tem uma intermitência muito grande, a solução é armazenar. E a melhor forma de se armazenar energia são as baterias", afirmou. A empresa já atua neste mercado desde 2019, mas nos últimos anos, afirma o executivo, países da Europa têm manifestado mais interesse em comprar esse tipo de tecnologia. No Brasil, o setor foi aquecido com a expectativa do primeiro leilão de baterias do país, previsto para dezembro, um certame que será realizado pelo Ministério de Minas e Energia. Ainda como alternativa para garantir uma transição energética, Marisete Pereira, presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage), aponta o investimento em hidrelétricas reversíveis como alternativa. "A rápida expansão das fontes renováveis aliada a digitalização e descarbonização da economia transformaram o ambiente de negócios do setor, e a energia deixou de ser apenas um insumo, mas um fator estratégico para competitividade e atração de investimentos. O parque hidrelétrico continua sendo a espinha dorsal da nossa matriz elétrica", disse "Hoje, o mundo vem investindo de maneira muito intensiva em hidrelétricas reversíveis porque é a resposta dessa variabilidade de produção de fontes renováveis. O Brasil não pode abrir mão utilizar esses recursos naturais por meio das usinas reversíveis", afirmou Pereira. Em abril, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou resoluções que preveem a retomada de estudos para implementar esse tipo de equipamento no país. As hidrelétricas reversíveis são capazes de armazenar energia excedente bombeando água de um reservatório inferior para um superior. A junção de várias fontes de matérias-primas sustentáveis e de sistemas de energia renovável é tida pelos três como a maneira mais eficaz de garantir uma transição energética que funciona a longo prazo, aliado à tecnologia. Nessa toada, a mão de obra especializada, principalmente nas áreas de engenharia e tecnologia, é vista como essencial pelos executivos — mas tem sido escassa. "A gente tem que continuar apostando na tecnologia, os problemas são complexos e Às vezes a tecnologia habilita um caminho novo", disse Cardoso. "São processos que demandam tecnologias mais avançadas, que puxam essa demanda por qualificação. E são profissionais que, na medida em que qualificamos, são extremamente demandados pelo mercado. Pessoas de automação, por exemplo, passam a ser fundamentais, e toda a indústria tem uma demanda parecida por essa capacitação". Ele contou que, em parceria com instituições como o Sistema S e órgãos governamentais, a empresa tem feito cursos, especialmente a escola técnica florestal, que ficam próximas às plantas da Klabin, para formar a mão de obra industrial já pensando nessa transição energética. Para o representante da WEG, “não há problema mais democrático” para a indústria do que a escassez de mão de obra qualificada. "Geograficamente, ocorre em todos os lugares e atinge todos os setores. A retenção é algo que a gente se esforça para fazer. E na captação, a gente investe em cursos de formação de jovens, escolas de formação, desde a década de 1960, mas hoje nossos cursos são voltados para inteligência artificial, eletrônica, conectividade. O Brasil precisa estimular mais os estudos na área tecnologia, esse seria um trabalho que começa em casa, desde convencer os filhos a fazer faculdade de engenharia. A WEG tem hoje em torno de 50 mil colaboradores no mundo, e 10% são engenheiros" apontou. Para Pereira, trata-se de uma via de mão dupla: ampliar a capacidade de produção de energia elétrica no Brasil depende de mais mão de obra e, ao mesmo tempo, investimentos nesse setor poderiam atrair mais pessoas para trabalhar nesse setor. "A engenharia passou a ser algo que não atraía muito os jovens, mas hoje isso até está mudando. O Brasil tem necessidade de ampliar os seus recursos energéticos, o consumo per capita é muito inferior (a outros países), a gente tem uma grande potencialidade para fazer investimentos, mas a gente precisa de mão de obra. Olhando o setor elétrico, a gente tem o dever de prover o sistema de oportunidades de novos investimentos para reter esse conhecimento, que só é desenvolvido com aplicação prática nos projetos", disse.
Transição energética na indústria demanda 'cardápio' variado de fontes de energia, dizem executivos
Sistemas de armazenamento também são apontados como essenciais; falta de mão de obra qualificada pode ser gargalo para desenvolvimento de novas tecnologias







