Maior artilheiro das Copas, Lionel Messi está realizando um torneio de destaque sendo o pilar da Argentina nos momentos de necessidade dos jogos. Mas fora de campo, o ídolo da albiceleste passou a ser cobrado nas redes sociais pela falta da mesma proatividade na hora de se posicionar contrário às manifestações racistas de parte da torcida de seu país no Mundial. Na partida de oitavas de final, quando terminou o jogo com um dos gols na vitória de virada por 3 a 2 sobre o Egito e nas quartas de final, quando também fez um dos gols na vitória sobre o Cabo Verde, o jogador saiu de campo novamente como o astro do dia. Nas arquibancadas, no entanto, uma parte da torcida aproveitou o momento para insultar e fazer gestos de macaco ao influenciador negro e norte-americano Darren Jason Watkins Jr., conhecido como IShowSpeed, que realizava lives dos jogos torcendo contra a Argentina. O caso ganhou repercussão nas redes, mas não no vestiário argentino, que não comentou o assunto. Vídeos e fotos postados por torcedores no estádio também mostraram os argentinos arremessando cerveja à egípcios e um homem balaçando uma bandeira de Israel em direção à comissão técnica egípcia, enquanto deixavam o campo após a partida. O técnico da seleção egípcia, Hossam Hassan, tem se manifestado veementemente sobre a situação do povo palestino, especialmente daqueles que vivem em Gaza, onde Israel trava uma guerra desde outubro de 2023. “Eles estão jogando cerveja na gente”, disse o torcedor que filmou o incidente no Estádio de Atlanta. “Quando marcamos o gol, não fizemos nada para eles. Depois que eles marcaram, começaram a nos atacar”, acrescentou, antes de mostrar a câmera mostrando os argentinos provocando os torcedores egípcios. A Fifa abriu uma investigação sobre o episódio do influenciador após vídeos mostrarem torcedores hostilizando o criador de conteúdo dentro do estádio. Critica nas redes Embora nenhum dos casos tenha relação direta com o craque argentino, nas redes ele passou a ser criticado justamente por não condenar ativamente as ações. Tanto que foi resgatado o polêmico vídeo da seleção argentina cantando uma música racista direcionada à França, em meios às comemorações da Copa América de 2024. Internauta critica Lionel Messi por falta de posicionamento — Foto: Reprodução / X Comediante angolano critica falta de posicionamento de Lionel Messi sobre pautas raciais — Foto: Reprodução / X A música traz a letra: “Jogam pela França, mas vêm de Angola (...), seu pai é cambojano, mas seu passaporte é francês”, cantada pelos jogadores em um vídeo ao vivo na conta do Instagram de Enzo Fernández, filmado no ônibus da equipe argentina após vencer a final da Copa América (1-0) em Miami. Esses cânticos já foram entoados por torcedores argentinos após a final da Copa do Mundo Catar-2022, vencida pela Argentina contra a França (3-3, 4-2 nos pênaltis). Jogadores da seleção argentina cantando música racista direcionada aos franceses — Foto: Reprodução / X Ações de Messi O jogador teve falas na luta contra o racismo quando participou de campanhas que tinham como objetivo a questão racial ou algum tópico social que o abrangia. Em maio de 2021, Messi teve a sua fala mais ativa repercutida a respeito de falas preconceituosas, mas num âmbito geral. Na época, aproveitando o debate levantado por atletas e clubes do futebol inglês sobre abusos online, o então jogador do Barcelona criticou o comportamento abusivo que muitos internautas apresentam ao interagir com os ídolos ou entre si, muitas vezes protagonizando atos criminosos. "Convivemos presenciando e sofrendo abusos, cada vez piores em cada uma das redes, sem que ninguém faça nada para impedi-los. Devemos condenar veementemente essas atitudes hostis e exigir que as empresas que administram as redes tomem medidas urgentes contra esses comportamentos.", comunicou na época. E prosseguiu: ""E que os insultos, o racismo, os abusos e a discriminação permaneçam para sempre fora delas. Para vocês que fazem parte dessas redes e que estão sempre comigo, espero que me acompanhem e me apoiem nesta cruzada." Em 2020, depois do assassinato de George Floyd que culminou em um grande movimento contra a violência policial nos Estados Unidos e que eclodiu em outros países também, Messi publicou um quadrado preto com a hashtag #BLM, aderindo ao movimento conhecido como #BlackoutTuesday, mas sem texto ou reflexão pessoal. O movimento foi seguido por outras celebridades. A iniciativa depois de algum tempo recebeu críticas de ativistas, que argumentavam que as imagens poderiam ser ações mais úteis com informações sobre protestos e organizações, inclusive. Em 2017, 2013 e 2011 também falou em campanhas contra a desigualdade. Sejam elas feitas pelo seu clube da época, Barcelona, ou pela Uefa. Críticas a omissões A repercussão negativa do caso no ônibus, embora não se tenha comprava a participação do jogador, rendeu cobranças por posicionamento do capitão argentino por ex-jogadores como do ex-Chelsea Carlton Cole. — A Argentina tem alguém que é conhecido como provavelmente o melhor jogador de futebol de todos os tempos. Precisamos olhar para Messi e dizer: sabe de uma coisa, Messi, apareça. Precisamos ouvir você. Eu preciso que você fale. Você precisa se pronunciar sobre isso. Porque isso é mais do que o Enzo. Messi é o principal jogador lá. Ele é o capitão — disse. E continuou: — Ele precisa se pronunciar e dizer algo sobre esse comportamento. Caso contrário, parece que ele não se importa. Ele não se importa com o que eu sinto, ele não se importa com o que alguns de seus companheiros de equipe negros do passado sentem. Isso só me mostra que ele é egoísta. Já na Argentina, panos quentes foram usados. E até quem tentou fazer o mesmo pedido foi atacado. Então subsecretário de Esportes da Argentina, Julio Garro, disse que Messi e o presidente da federação, Claudio Tapia, deveriam pedir desculpas em nome da seleção pelo acontecido. Mas logo o servidor foi demitido pelo governo argentino. Para além disso, repercussões diretas com seu nome também aconteceram, e pouco são menciodas pelo mesmo. Em novembro de 2023, Rodrygo recebeu uma onda de mensagens racistas depois de discutir com Messi antes de Brasil x Argentina, no Maracanã. Os ataques foram feitos por usuários nas redes sociais; não existe evidência de que tenham sido incentivados pelo argentino. Ainda assim, como o abuso surgiu após um confronto diretamente ligado ao argentino, sentiu-se falta de uma manifestação de Messi, para aumentar o peso do posicionamento contrário ao problema. O mesmo ocorreu com o canadense Moïse Bombito após atingir Messi na Copa América 2024 (Canadá foi convidado para o torneio). Denúncia de ofensa racial Há ainda um caso diferente dos silêncios. O ex-defensor Royston Drenthe acusou Messi de tê-lo ofendido racialmente em uma partida entre Hércules e Barcelona. O holandês tornou a acusação pública em 2012 e voltou a relatá-la em 2025, no programa "The Wild Project". Segundo Drenthe, Messi teria usado a expressão espanhola equivalente a “negro de merd*” e, depois, explicado que jogadores argentinos a falavam no tratamento entre eles. Drenthe afirmou que a explicação cultural não tornava a frase aceitável quando dita por um adversário. — Em um jogo quando eu estava no Hércules, contra o Barça, Messi me chamou de 'negro filho da puta'. Depois, ele me disse que os jogadores argentinos se chamavam de 'negros filhos da puta', para eles era normal, por exemplo, eles diziam isso para o Garay e ele não ligava, mas você tem que entender que um cara como eu não gostava disso. Não conversamos sobre isso desde então, acabou. Tenho muito respeito por ele porque ele foi um dos melhores jogadores do mundo — disse Royston Drenthe, embaixador da 'Bwin', no programa 'The Wild Project'. O Barcelona rejeitou a acusação na época, afirmando que o comportamento de Messi sempre foi "exemplar e respeitoso com os rivais".