Ex-presidente pede união em torno da pré-candidatura do filho; Michelle não se pronuncia Bolsonaro com a esposa e filhos em ato realizado em abril de 2025, em São Paulo, diz em carta: “O momento é de deixarmos de lado as possíveis diferenças” — Foto: Bruno Santos/Folhapress - 6/4/2025 A “carta aos brasileiros”, na qual o ex-presidente Jair Bolsonaro oficializou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como seu porta-voz, e pediu união em torno da pré-candidatura do filho à Presidência da República, ainda não surtiu os efeitos desejados. Para agravar o cenário, o PT requereu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a revogação do regime domiciliar da prisão do ex-presidente em razão da divulgação do manuscrito. Nesses dois dias, desde a divulgação da carta, em transmissão ao vivo de Flávio nas redes sociais no sábado (11), não houve gesto público de pacificação da parte da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro em relação ao enteado. A divulgação de um vídeo no dia 24 de junho, em que Michelle faz um desabafo, acusando Flávio de maltratá-la e de humilhá-la, deflagrou uma crise na pré-campanha do PL, que ainda não foi contornada. No documento, Bolsonaro não faz menção direta à esposa, mas em alusão velada, exorta os apoiadores a deixarem diferenças de lado, e se unirem em torno do nome de Flávio. “O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”, diz um trecho da carta. Bolsonaro acrescenta que Flávio é seu “porta-voz”. Ao nomeá-lo como tal, o ex-presidente deslegitima, formalmente, Michelle a falar em seu nome. “Meu pré-candidato, creio o seu também, meu porta-voz, no qual confio para resgatar o Brasil e nos conduzir para a paz e a prosperidade. Um afetuoso abraço a todos, na certeza de que juntos, tudo faremos pela nossa pátria”, concluiu. No sábado, após ler o documento, o senador fluminense reforçou o pedido de unidade ao seu campo político. Ele explicou que o documento lhe foi entregue durante uma visita ao pai, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Durante a visita, a ex-primeira-dama não se encontrava em casa. “Ele aqui, mais uma vez, pedindo unidade, pedindo que a gente deixe possíveis diferenças menores de lado, para que a gente possa ter essa unidade e combater o verdadeiro inimigo do Brasil, que é quem está no governo hoje”, discursou Flávio. Sem citar a ex-primeira-dama, Flávio prosseguiu, afirmando que há “muitas pessoas que parecem que estão boicotando até a candidatura”. Ele conclamou que todos se engajem em sua campanha. “Chegou a hora agora de todo mundo cair dentro. Todo mundo veste a camisa”, apelou. Segundo ele, Bolsonaro disse estar bem de saúde e, “na medida do possível”, consciente do que acontece no país. Ele revelou que costuma levar ao pai pesquisas internas sobre a disputa presidencial, e disse que, apesar dos “ataques” e da “falta de unidade”, sua pré-candidatura permanece “mais forte do que nunca”, e à frente do PT nesses levantamentos. Nesses dois dias, entretanto, não houve sinal de pacificação no PL. Aliados de Michelle continuam impulsionando o perfil nas plataformas digitais “imparáveis.mb”, em que a ex-primeira-dama emerge como principal líder de um novo movimento político de direita. Ao mesmo tempo, aliados de Flávio postam comentários nesse perfil, acusando-a de traição e de ter se tornado uma “feminista de direita”. De outro lado, a carta acabou se transformando em munição para os adversários, ao receber críticas dos pré-candidatos do PSD, Ronaldo Caiado, e do Missão, Renan Santos. O ex-governador de Goiás foi a público afirmar que o manuscrito do ex-presidente evidencia a “extrema fragilidade” na campanha do senador do PL. Renan Santos, por sua vez, ironizou o episódio, que classificou de “ridículo”. O presidenciável do Missão comparou Flávio a uma “criança” que recorre ao pai depois de levar uma bronca da mãe, no caso, da madrasta Michelle. Em outra frente, o PT aproveitou o episódio para requerer ao STF a revogação da prisão domiciliar do ex-presidente. No requerimento, o vice-líder do governo na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (PT-RJ), alegou que Bolsonaro “descumpriu deliberadamente as condições impostas pelo ministro Alexandre de Moraes ao redigir uma carta de conteúdo político-eleitoral”. Segundo o petista, houve uma “violação deliberada” da ordem do STF porque o ex-presidente transformou a prisão domiciliar em “instrumento de comunicação eleitoral e Flávio assumiu publicamente o papel de intermediário dessa burla”. Por sua vez, uma fonte do PL lembrou que, em 2018, quando estava preso em Curitiba, o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi autorizado a dar entrevistas. Ele divulgou uma carta, na qual indicou Fernando Haddad (PT) como seu substituto na campanha presidencial.