O Ministério Público da Bahia tentou impedir que o responsável por uma chacina no Morumbi Shopping, em 1999, deixasse Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Salvador por considerar que ele ainda representava risco não apenas para a sociedade, mas também para a família dele. Documentos localizados pelo O GLOBO no processo de execução penal do ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira, de 51 anos, mostram que, a princípio, nem os pais do assassino queriam acolhê-lo em casa após sua soltura, ocorrida em 2024. Em São Paulo, Mateus recebeu uma sentença inicial de 120 anos de prisão por planejar e executar uma chacina num cinema do Morumbi Shopping, em 1999. Sua ação resultou na morte de três pessoas e deixou outras nove feridas. Em 2004, ele foi transferido da Penitenciária de Tremembé para cumprir pena na Bahia, onde moram seus pais. No ano seguinte, na Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, ele tentou matar um companheiro de cela com golpes de tesoura na cabeça. Submetido a um novo julgamento no Tribunal de Justiça da Bahia, Mateus foi considerado inimputável em razão de transtorno mental e absolvido impropriamente. Isso quer dizer que o réu não teria a capacidade de discernir o que é certo e errado. Em 2010, ele passou a cumprir medida de segurança no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Em 2024, foi desinternado também com anuência da Justiça da Bahia e voltou para casa. Mateus vem sendo fotografo por frequentadores de shopping em Salvador — Foto: Reprodução Entre os principais argumentos apresentados pelo Ministério Público da Bahia para impedir que Mateus voltasse a conviver em liberdade estavam a inexistência de exame pericial capaz de comprovar a cessação de sua periculosidade, a ausência de um estudo social que demonstrasse a capacidade dos pais idosos de supervisioná-lo e a falta de um plano de prevenção de riscos para proteger o próprio paciente, seus familiares e a sociedade. Para os promotores, também eram necessárias novas avaliações sobre a condição psíquica de Mateus e sua capacidade de lidar com as frustrações da vida cotidiana antes de qualquer desinternação. “Inexiste um estudo social sobre a necessidade de suporte familiar adequado, que aborde a possibilidade de um efetivo controle sobre a conduta do paciente por parte dos seus genitores, pessoas com idade já avançada. Tal preocupação decorre dos laudos periciais que descrevem Mateus da Costa Meira como alguém bastante complexo, com diagnóstico difícil de ser estabelecido”, assinalam a procuradora-geral de Justiça adjunta para Assuntos Jurídicos, Wanda Valbiraci Caldas Figueiredo, e o promotor de Justiça Thomás Luz Raimundo Brito, assessor especial da Procuradoria-Geral de Justiça da Bahia. Em liberdade, Mateus passou a frequentar o Shopping Barra, um dos maiores centros comerciais da capital soteropolitana. Volta e meia, é visto inclusive em salas de cinema, provocando apreensão entre frequentadores e lojistas. Nas redes sociais, começaram a circular fotografias e mensagens de indignação, já que Mateus utilizou um espaço público semelhante para cometer a chacina de 1999. Sala de cinema onde estudante matou três pessoas, no Morumbi Shopping, em 1999 — Foto: Helcio Toth Um dos acordos firmados entre a família de Mateus e a Justiça previa que, após a desinternação, ele viveria sob os cuidados dos pais, o médico oftalmologista Deolindo Vanderlei Meira, de 87 anos, e a enfermeira Alina da Costa Meira, de 84. Ocorre que os próprios genitores já haviam informado à Justiça, em manifestações anteriores no processo de execução penal, que não tinham condições de recebê-lo em casa em razão de seu histórico de violência. Segundo os autos, Mateus já havia agredido fisicamente a mãe em diferentes ocasiões, perseguido a irmã com uma faca dentro de casa e desferido um soco no pai que lhe provocou a fratura de três costelas. Posteriormente, com o anúncio da desativação do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico da Bahia e sem outra unidade para onde o filho pudesse ser encaminhado, o casal mudou de posição e concordou em acolhê-lo. Deolindo e Alina afirmaram que preferiam passar os últimos anos de vida ao lado do filho. No entanto, por medida de precaução, Mateus mora sozinho numa quitinete a uma quadra do Shopping Barra. Entre os compromissos assumidos quando Mateus deixou o Hospital de Custódia estava o de que ele permaneceria sob acompanhamento da Justiça e seguiria rigorosamente o tratamento psiquiátrico, incluindo o uso dos medicamentos responsáveis por mantê-lo estabilizado. No entanto, a análise dos autos da execução penal não identificou registros de visitas, entrevistas ou avaliações realizadas por peritos judiciais após a desinternação para verificar se o ex-estudante de Medicina continua tomando a medicação prescrita e cumprindo as condições impostas pela Justiça. Outro ponto que preocupava as autoridades era o conteúdo apreendido durante as investigações. Quando ainda estava preso em São Paulo, Mateus mantinha uma lista manuscrita de pessoas que pretendia matar. Entre os alvos estavam os sete jurados que participaram de seu julgamento no Fórum da Barra Funda, advogados que atuaram em sua defesa que, na avaliação dele, fracassaram; além de jornalistas, médicos e psiquiatras que haviam assinado laudos ou pareceres desfavoráveis aos seus interesses. A existência dessa relação de nomes passou a integrar os autos do processo e reforçou as preocupações das autoridades quanto à sua periculosidade. A submetralhadora usada na chacina em sala de cinema do Morumbi Shopping — Foto: José Luiz da Conceição/Agência O GLOBO Antes de ganhar a liberdade, Mateus foi submetido a uma ampla avaliação psiquiátrica e psicológica por uma junta formada pelas psiquiatras Denise Rocha Stefan e Grace Adriana Lopes Conceição, além da equipe técnica do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico da Bahia. Após entrevistas com o próprio paciente, seus pais, médicos, psicólogos e assistentes sociais, além da análise de prontuários e testes de personalidade, os especialistas concluíram que Mateus apresentava transtorno de personalidade esquizóide com evolução para esquizofrenia paranoide, associado a traços significativos de transtorno de personalidade antissocial e psicopatia, além de histórico de abuso de cocaína e álcool. Os laudos descrevem delírios persecutórios persistentes, alucinações auditivas, isolamento social, embotamento afetivo, impulsividade, baixa tolerância à frustração, dificuldade de convívio social, rebaixamento do juízo crítico e elevado risco de comportamento violento. Para os peritos, Mateus ainda representava risco à própria integridade e à de terceiros, motivo pelo qual deveria permanecer afastado do convívio social e submetido a tratamento psiquiátrico contínuo. Ainda assim, anos depois, a Justiça autorizou sua desinternação. O GLOBO também apurou que Mateus foi visto recentemente no Shopping Barra acompanhado da mãe, Alina da Costa Meira, de 84 anos, justamente uma das pessoas que o Ministério Público apontava como potencialmente exposta a riscos caso a desinternação fosse autorizada. Na imagem, os dois estavam almoçando na praça de alimentação. Após a repercussão das visitas de Mateus ao Shopping Barra, a direção do estabelecimento divulgou uma nota de posicionamento. Sem mencionar nominalmente o ex-estudante de Medicina, o empreendimento afirmou manter protocolos rigorosos de segurança, monitoramento por câmeras, equipe especializada e atuação integrada com os órgãos públicos. Segundo o shopping, sua prioridade permanente é preservar um ambiente seguro para clientes, lojistas, colaboradores e visitantes. O Ministério Público da Bahia, o Tribunal de Justiça da Bahia e os pais de Mateus foram procurados pela coluna. Nenhum deles se manifestou até a publicação desta reportagem.
MP da Bahia e família foram contra liberar de hospital de custódia autor de chacina em cinema de SP
Ex-estudante de Medicina, de 51 anos, matou três pessoas e deixou nove feridas em 1999; pais voltaram atrás e o aceitaram quando filho foi solto, em 2024








