Até os anos 1960, muito da prática médica exercida por profissionais licenciados ainda tinha forte base ideológica e religiosa. Esse passado é resgatado pelas pesquisadoras Deirdre English e Barbara Ehrenreich no livro "Bruxas, Parteiras e Enfermeiras: uma História de Mulheres que Curam".

Lançada neste ano no Brasil pela Editora Elefante, a obra aborda a perseguição a mulheres de classes baixas tidas como "bruxas" na Europa medieval e o surgimento da medicina moderna, quando homens passaram a monopolizar a prática médica institucionalizada.

A obra, que saiu originalmente em 1973 e ganhou uma segunda edição em inglês em 2010, é fruto do curso das pesquisadoras sobre estudos femininos na Universidade Estadual de Nova York em Old Westbury, nos Estados Unidos.

"Tínhamos muitas alunas negras do sul dos EUA e do Caribe com memórias sobre suas ancestrais serem parteiras ou fazerem tratamentos usando ervas medicinais. Essas mulheres tinham muito conhecimento potencial, mas foram apagadas", disse English, em entrevista à Folha em abril deste ano —Ehrenreich morreu em 2022.

De acordo com English, antes da consolidação da medicina científica, mulheres pobres e curandeiras leigas acumulavam o conhecimento sobre parto, ervas medicinais e cuidado comunitário. Enquanto isso, muitos médicos homens ligados à elite acadêmica defendiam práticas hoje consideradas sem base científica, como as sangrias —retirada de sangue por cortes ou sanguessugas— e a teoria dos quatro humores, segundo a qual as doenças eram causadas por desequilíbrios entre fluidos corporais, e não por microrganismos.