Em cartaz no Museu Nacional da China, exposição 'O Brasil de Portinari' reúne 56 obras do pintor modernista; já o Museu Histórico Nacional, no Centro do Rio, apresenta 121 itens de diferentes dinastias, na mostra 'Sabores da tradição' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 'Mestiço' (1934), presente na mostra 'Brasil de Portinari', e jarro em cerâmica pintada do Neolítico, em 'Sabores da tradição' — Foto: Divulgação e Ana Branco RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A exposição "O Brasil de Portinari" exibe 56 obras do pintor modernista no Museu Nacional da China, em Pequim, até outubro de 2026. Como contrapartida, o Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, recebe uma mostra com 121 itens históricos sobre a alimentação na China antiga. O intercâmbio cultural celebra o Ano Cultural Brasil-China, trazendo ao público brasileiro utensílios milenares e interatividade digital sobre a culinária oriental. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O sonho de levar uma exposição de Candido Portinari (1903-1962) à China é gestado há mais de sete décadas, embora o pintor nunca tenha conseguido visitar o país. O modernista chegou a ser convidado para uma viagem nos anos 1950, junto dos escritores Jorge Amado e Graciliano Ramos, pelo poeta Ai Qing (pai do artista visual Ai Weiwei, que pouco mais tarde viria a ser perseguido pelo regime de Mao Tsé-Tung), mas não foi. Desde o mês passado, o projeto se tornou realidade, com a inauguração da mostra “O Brasil de Portinari”, que expõe, até 10 de outubro, 56 obras do pintor no Museu Nacional da China (MNC), em Pequim. Realizada no contexto do Ano Cultural Brasil-China 2026, a mostra teve como contrapartida a vinda da exposição “Sabores da tradição: história da alimentação na China antiga”, organizada pelo MNC e em cartaz até 11 de outubro no Museu Histórico Nacional (MHN), no Centro do Rio. Com 121 itens que cobrem um período de mais de dez mil anos, da pré-história agrícola a 1911 (que marca o fim da dinastia Qing), a mostra já foi montada no Museu de Etnografia de Budapeste, na Hungria, em 2024, e nos Museus do Kremlin, em Moscou, em 2025. Filho do pintor e idealizador do projeto que leva o seu nome, João Candido Portinari conta que já planejava uma grande mostra na China desde 2004, mas pôde viabilizar no MNC como parte da programação do Ano Cultural. — Entre as seis mil cartas que temos entre os documentos do Projeto Portinari, tem uma de 1952 do (advogado e político) Abel Chermont (1887-1962), muito amigo do meu pai, dizendo que a primeira coisa o impressionou a chegar em Pequim “foi a gentileza, a educação e o o a paixão pela cultura e pela arte”. E que ele deveria fazer uma exposição lá — conta o matemático e professor João Candido. — Em 1957, o (poeta espanhol) Rafael Alberti volta a retomar com o meu pai a ideia de levar suas obras para lá. Mas já com o seu acervo aos cuidados do Projeto, começamos a pensar nisso a partir de 2004, quando lançamos o catálogo raisonné. Portanto, tem tem uns 22 anos dessa possibilidade, mas que aconteceu no momento certo. Público vê obras de Portinari no Museu Nacional da China, o segundo mais visitado do mundo: estimativa de quatro milhões de visitantes — Foto: Divulgação/ Julia Brenda Silva/10-6-26 Há cerca de três anos, o fundador e diretor-geral do Projeto voltou a esboçar uma mostra para o Museu Nacional da China, imaginando inicialmente levar os painéis “Guerra e paz”, pintados entre 1952 e 1956 para a sede da ONU, em Nova York, o que não foi viável. No entanto, entre as obras originais selecionadas para a exposição estão maquetes, emprestadas pelo Itamaraty, que serviram de base para os murais 14m × 10m. A exposição foi dividida em quatro núcleos temáticos: a família e a infância do pintor em Brodowski (SP); trabalho, que inclui obras-primas “O lavrador de café” e a série Retirantes; fé e folclore; e esboços e estudos preparatórios das pinturas. Também foi levada a Pequim a mostra imersiva “Portinari para todos”, elaborada pelo curador Marcello Dantas para o MIS Experience (SP), em 2022, com um vídeo em looping com todas as obras catalogadas do modernista, num total de nove horas de exibição. — Criamos um recorte dos anos 1930 a 1960, que não só retrata o Brasil desde as memórias de infância do Portinari, mas que também é uma síntese da identidade nacional. O público chinês se identifica bastante com esse Brasil do interior, com o lado lúdico das brincadeiras de criança, até pelas origens rurais do país. Assim como a família e o trabalho, temas que eles valorizam muito. Estamos mostrando um Portinari total, um Brasil em sua grandeza, mas sem retoques — avalia João Candido. Público vê obras de Portinari no Museu Nacional da China — Foto: Divulgação/Julia Brenda Silva/10-6-26 Diretor do Museu Nacional da China, Lou Wenli definiu Portinari como um “titã icônico na história da arte moderna brasileira”, em seu discurso na abertura da mostra: — Ao capturar a rica textura da terra vermelha, as costas largas e robustas dos trabalhadores, os rostos de pessoas de culturas mistas e os céus estrelados e poéticos sobre a tela, ele forjou uma identidade visual única e duradoura para o Brasil. 'Café'(1935), presente na mostra 'Brasil de Portinari' — Foto: Divulgação/Julia Brenda Silva/10-6-26 egundo museu em visitação do mundo, só perdendo para o Louvre, em Paris, o MNC recebe cerca de 30 mil pessoas por dia, o que daria uma estimativa de público de 4 milhões de visitantes para a mostra, até seu encerramento, em outubro. — Será o maior público de uma exposição do Portinari, disparado. E com a vantagem de estarmos diante de um olhar absolutamente novo, da Ásia. De fugir um pouco desse eurocentrismo que tantas vezes nos alija, um pensamento que nos faz crer que a grande arte só acontece por lá, ou nos Estados Unidos — comenta o filho do modernista. Processo civilizatório A cerca de 18 mil quilômetros de Pequim, a exposição “Sabores da tradição” traz ao Museu Histórico Nacional a arte milenar do preparo e consumo das refeições, e também demonstra, por meio de utensílios de bronze, ouro, prata, cerâmica, porcelana, jade e madeira, a forma como a sociedade chinesa se organizou e se desenvolveu a partir de hábitos e tradições alimentares. — A mostra aborda um tema fundamental para entender o processo civilizatório. Podemos ver como, há dez mil anos, a segurança alimentar já era uma questão política, com uma importância vital sobre o material, o espiritual, as estruturas sociais — ressalta Cícero de Almeida, diretor do Museu Histórico Nacional. — Os artefatos que estão aqui, muitos deles achados arqueológicos, já apontam a prática milenar do cozimento de alimentos, a domesticação de animais. E os objetos mostram que não é só uma questão da sobrevivência, mas que há uma forma de servir, de segurar os utensílios, uma delicadeza no modo de preparar e como se vai receber esses alimentos. Com seus núcleos, a exposição cria um percurso para entender a sociedade por meio desses objetos. Veja itens da mostra 'Sabores da tradição' 1 de 6 Jarro esmaltado em forma de abóbora, da Dinastia Ming (1368-1644) — Foto: Ana Branco 2 de 6 Forma para bobo (pãozinho cozido no vapor) em madeira, da Dinastia Qing (1644-1911) — Foto: Ana Branco X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Bule de chá em cerâmica zisha, da Dinastia Qing (1644-1911) — Foto: Ana Branco 4 de 6 Yan (vaso para cozinhar no vapor) de bronze, da Dinastia Zhou (1046 a.C. a 771 a.C) — Foto: Ana Branco X de 6 Publicidade 5 de 6 Tigela de jade, da Dinastia Ming (1368-1644) — Foto: Ana Branco 6 de 6 Instalação interativa — Foto: Ana Branco X de 6 Publicidade Exposição apresenta no Rio acervo do Museu Nacional da China Os núcleos são divididos por temas como a variedade na base da nutrição, mostrando a China como um dos berços do cultivo de grãos e da domesticação de animais como o porco e a galinha; o domínio do fogo e o desenvolvimento de diferentes técnicas como a fervura, a fritura e o assado; os ritos à mesa como marcadores sociais e de poder; e a forma como a funcionalidade não era separada da beleza, com objetos cotidianas que são verdadeiras obras de arte. Historiador da arte, curador e pesquisador com experiência na cultura chinesa, Giancarlo Hannud fez consultoria de conteúdo junto à equipe do Museu Nacional da China para transpor para o público brasileiro conceitos e tradições do país. — Tentamos chegar numa aproximação, e admitir que muita coisa vai se perder, inevitavelmente. Porque é outra forma de estar no mundo, e aí buscamos essas pontes e conexões. Aqui nós temos uma palavra para taça de vinho, lá eles têm uma série de utensílios distintos para propósitos, lugares e ocasiões diferentes. É uma forma de entender uma cultura muito diferente da nossa, a partir de um denominador comum, a alimentação — contextualiza Hannud. — Outro ponto interessante é que temos utensílios sofisticadíssimos já no neolítico. Para se ter algo mais ou menos parecido com isso na Europa, levou mais seis mil anos, no mínimo. Ficamos presos nesse olhar ocidental, e esquecemos esse outro mundo que é muito mais antigo, com uma tradição muito maior. Vista geral de 'Sabores da tradição', em cartaz no Museu Histórico Nacional — Foto: Ana Branco A mostra no Museu Nacional traz ainda recursos interativos, como um leitor digital que conta a história de alimentos distribuídos em cards e um visor de realidade virtual, no qual é possível pegar com hashis (ou kuàizi, em chinês) reproduções de alimentos preparados numa mesa real. — A ideia de toda a mostra é tentar chegar no meio do caminho, abordando toda a complexidade presente nos objetos e nos conceitos por trás, mas sem virar algo acadêmico, que vai afastar o público. Dá para fazer coisas inteligentes e interessantes sem cair num excesso de didatismo — conclui Hannud.
No Ano Cultural Brasil-China, obras de Portinari vão a Pequim, enquanto mostra no Rio conta dez mil anos de tradição alimentar no país do Oriente
Em cartaz no Museu Nacional da China, exposição 'O Brasil de Portinari' reúne 56 obras do pintor modernista; já o Museu Histórico Nacional, no Centro do Rio, apresenta 121 itens de diferentes dinastias, na mostra 'Sabores da tradição'






