Presidente ucraniano manejou crises com a Casa Branca e reordenou o pensamento militar em Kiev, impondo custos elevados a Moscou, mas a um elevado sacrifício pessoal 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, durante entrevista coletiva ao lado do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan — Foto: Ozan KOSE / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/07/2026 - 19:45 Zelensky Reforça Estratégia Militar e Recupera Apoio Popular na Ucrânia O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky demonstrou resiliência ao transformar o afastamento de Donald Trump em uma oportunidade para reordenar a estratégia militar de Kiev, impondo custos à Rússia. Apesar dos desafios, incluindo protestos e escândalos internos, Zelensky conseguiu recuperar apoio popular e lidera as intenções de voto. Sua abordagem mais agressiva na guerra e a ênfase no uso de drones evidenciam uma estratégia de "defesa ativa", enquanto ele mantém canais diplomáticos abertos e busca condições para uma paz decente, seja pela força ou diplomacia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “Esperamos que, nos próximos meses, as condições para uma paz decente sejam alcançadas, seja pela força ou pela diplomacia”, disse no domingo passado o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em meio a uma das maiores ondas de ataques com drones contra o território russo em quatro anos e meio de guerra. As explosões desde Moscou até uma refinaria em Omsk, a 2,7 mil km da fronteira, demonstraram como Kiev conseguiu alterar os rumos do conflito e recuperar a iniciativa no campo de batalha, dando fôlego a um país ainda sob violentos bombardeios diários. A guinada confirma ainda a resiliência de Zelensky, que voltou a ganhar apoio da população e lidera as intenções de voto para uma eventual eleição, e está intimamente ligada a um dos momentos mais difíceis de sua Presidência, após um período marcado pelo rompimento com Donald Trump. Em fevereiro do ano passado, Zelensky foi a Washington para a primeira reunião com o recém-reempossado Trump, um líder que havia prometido encerrar a guerra na Ucrânia em 24 horas — e que não escondia a admiração pelo presidente russo, Vladimir Putin, e o desdém pelo ucraniano. Em vez de deixar Washington com um acordo sobre a exploração de recursos minerais em troca da continuidade do apoio americano, foi enxotado da Casa Branca após uma altercação no Salão Oval. Os meses seguintes foram difíceis, sem as armas que Kiev tanto pedia ao Ocidente e com gestos explícitos de Trump a Putin, como a reunião no Alasca, em agosto. Mas também abriram novas oportunidades a Zelensky, inexploradas sob o governo de Joe Biden. — Biden, apesar do apoio declarado à Ucrânia, condicionava a ajuda a certas exigências, com limites sobre o que podia ser usado e de que forma. Quando Trump assumiu, ele, que não era muito simpático à Ucrânia, se mostrou alheio aos assuntos europeus, e decidiu, na prática, dar carta branca à Europa e à Ucrânia — explicou ao GLOBO Ivan Gomza, professor de Ciências Políticas da Escola de Economia de Kiev. — O distanciamento foi uma bênção disfarçada, pois proporcionou a oportunidade da adoção de uma estratégia de defesa mais agressiva, que chamamos de “defesa ativa". Ataques na Ucrânia deixam catedral de Kiev em chamas; 11 pessoas morreram — Zelensky sempre pensava que o prazo do apoio dos EUA e da Europa se esgotaria em algum momento. Devido a isso, sempre incentivou a indústria militar nacional a desenvolver meios de atacar sem depender da assistência externa — disse ao GLOBO Simon Shuster, jornalista e autor de “O Showman”, sobre a história do presidente. — Não daria a Zelensky todo o crédito, talvez nem a maior parte dele, mas ele se mostrou mais receptivo a propostas ou estratégias incomuns. Incluindo a ênfase nos drones. — A estratégia que ouvi de Zelensky e sua equipe consistia em nunca dar a Trump a impressão de que a Ucrânia seria o problema no processo de paz. Tratava-se de sempre deixar claro e demonstrar a ele que é a Rússia quem não quer a paz, enquanto a Ucrânia está pronta para conversar, pronta para negociações — acrescenta Shuster. — Eles diziam que estavam prontos para participar de um processo de paz a qualquer hora, em qualquer lugar, mas apontavam suas condições, suas linhas vermelhas. Presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky (E), e dos EUA, Donald Trump, em reunião durante a cúpula da Otan em Ancara — Foto: SAUL LOEB / AFP — Ele fez um sacrifício muito importante, o de Andriy Yermak, o chefe do Gabinete Presidencial, uma figura de enorme influência nos bastidores, implicada no escândalo. Yermak era como uma aranha no centro de uma enorme teia, qualquer decisão política passava por seu crivo, e havia receio se a máquina funcionaria sem ele — destaca Gomza, se referindo ao ex-homem forte do governo demitido em novembro. — Por fim, a decisão foi pela demissão, e isso deu início a uma renovação política, e até a oposição reagiu à saída com enorme alívio. Agora, há um movimento de coesão. De acordo com uma pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, de junho, 61% dos ucranianos confiam em Zelensky, números melhores do que os do auge da crise, no segundo semestre do ano passado. Gomza explica que esse salto de popularidade permite ao governo discutir um passo importante, mas que depende também da guerra: a realização de eleições, barradas durante o período da Lei Marcial. Segundo uma sondagem do Rating Group, divulgada no início do mês, Zelensky é o favorito para mais um mandato, e seu principal adversário nas urnas, o ex-comandante das Forças Armadas Valeri Zalujnyi, perdeu dez pontos percentuais em relação à última pesquisa. — O fato de a equipe presidencial ter começado a pensar nas eleições deve-se precisamente a que as pesquisas mostravam que o nível de apoio ao presidente havia começado a subir — afirma Gomza. — Mas ninguém sabe se a guerra vai mudar. Kiev está sendo bombardeada todas as noites, e há algumas horas houve mais um ataque com foguetes aqui na capital. E não pode haver um cessar-fogo sem o aval da Rússia. Dentro da meteórica ascensão política do ex-comediante e ator de comédias românticas, Zelensky se vestiu como outsider para se aproximar dos ucranianos, mas não escapava das suspeitas de que a inexperiência seria um problema, como de fato foi durante a pandemia da Covid-19. Mas após a invasão russa de fevereiro de 2022, deixou claro aos cidadãos que não fugiria das bombas — uma de suas primeiras gravações diárias naquele mês foi com um celular, na região central de Kiev, para provar que não havia fugido do país. — Isso ressoou tanto comigo, pessoalmente, quanto com o sentimento coletivo da nação ucraniana, pois é algo com que todos conseguem se identificar: as perdas, as provações da guerra, o medo constante e tudo o mais — explicou Gomza. — É preciso saber se conectar com a população que se representa. Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e a primeira-dama, Olena Zelenska, na chegada à reunião da Otan em Ancara — Foto: Metin Akta / POOL / AFP Na reunião do G7 na França, Zelensky deixou transparecer a face familiar. Em entrevista à Reuters, se emocionou ao mencionar a mulher, Olena, e seus filhos — “sinto falta de ser um bom pai”, afirmou —, em uma rara admissão do custo pessoal de liderar uma nação em guerra. A primeira-dama o acompanhou na viagem a Ancara na semana passada. — Ele realmente sacrificou sua vida familiar pelo cargo atual de presidente e líder militar — afirma Shuster. — Conversei com a esposa dele sobre isso, e é muito frustrante. Ela disse que os filhos estão perdendo o pai, porque ele passa todo o tempo trabalhando. Eles não moram juntos. A reação na entrevista refletia mais uma tristeza por ter perdido esse tempo em família, um tempo que jamais vai recuperar.