A Revolução Cubana talvez tenha chegado a um de seus momentos mais paradoxais. Depois de mais de seis décadas prometendo acabar com privilégios, oligarquias e dinastias familiares, o regime resolveu apresentar ao mundo um novo Castro. Não é Fidel, obviamente (1926-2016). Nem Raúl (hoje aposentado).

É Raúl Guillermo Rodríguez Castro, também conhecido como "Raulito" ou "O Caranguejo", neto favorito do ex-líder, que começa a sair das sombras justamente quando o país enfrenta sua mais grave crise econômica e humanitária desde o chamado Período Especial, em que o colapso da aliada União Soviética, nos anos de 1990, levou à escassez de recursos na ilha.Enquanto as negociações conduzidas pelos canais diplomáticos tradicionais não avançam, com várias derrotas do chanceler Bruno Rodríguez, Havana parece apostar em um interlocutor diferente.

Sem cargo público, mas com acesso direto ao círculo mais íntimo do poder, Raulito passou a oferecer-se para negociar com Washington e defender uma nova etapa nas relações entre Cuba e Estados Unidos.

Uma ampla entrevista concedida ao USA Today, produzida em parceria com organizações independentes, acabou revelando muito mais do que Raulito provavelmente pretendia. O neto favorito quis apresentar-se como um interlocutor moderno para Washington.Há, porém, uma ausência que chama a atenção. Na longa entrevista, Raulito fala sobre investimentos, reformas econômicas, turismo, prosperidade e normalização das relações com os EUA. Mas nada diz sobre os presos políticos, a repressão aos dissidentes, a falta de eleições livres ou as liberdades civis. Como se a crise cubana fosse apenas econômica.