Quase quatro anos depois, em Atlanta, contra o Egito, nas oitavas de final, a cena voltou de outro jeito. A Argentina perdia por 2 a 0, Messi havia chorado, a eliminação rondava o jogo, e a virada por 3 a 2 produziu no banco uma reação quase infantil de espanto. Scaloni levou as mãos à boca, como quem vê a própria casa escapar de um incêndio no último segundo. A marca do smartwatch que ele usava brincou nas redes que seu coração chegara a 180 batimentos, segundo o relógio. Era marketing, não exame médico, mas parecia verdadeiro. Com Scaloni, a glória raramente chega como posse. Chega como susto. Para o olhar brasileiro, acostumado a transformar o argentino numa caricatura de peito estufado, Scaloni oferece uma estranheza: é o argentino que ganhou o mundo e continuou sem parecer dono do planeta. Nem da Argentina, nem de Messi, nem das próprias vitórias. Enquanto alguns técnicos correm para tomar conta da glória, ele parece precisar de segundos para acreditar que ela também lhe pertence. Sua grandeza tem um certo “delay emocional”. Scaloni abraça Lionel Messi após a vitória da Argentina sobre a Holanda, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, no Catar — Foto: JUAN MABROMATA / AFP O interino definitivo Isso começa na origem do cargo. Scaloni assumiu a seleção em 2018 como interino, vindo da comissão de Jorge Sampaoli e sem carreira de técnico principal. Parecia uma solução de passagem para uma Argentina despedaçada na Copa da Rússia. Maradona, guardião inflamado de tudo o que a camisa significava até então, disse que ele não poderia dirigir nem o trânsito de Buenos Aires. A frase era cruel, engraçada e perfeita para medir o vazio de autoridade daquele começo. A Argentina esperava outro personagem imenso, mas recebeu um homem provisório. Antes dele, os técnicos argentinos chegavam ao cargo carregando uma ideia de país junto com a escalação. Menotti foi ideólogo; Bilardo, estrategista paranoico; Maradona, mito inflamado; Sampaoli tentou ser intensidade e doutrina. Scaloni ocupou o maior banco do futebol argentino sem transformá-lo numa extensão da própria personalidade. Não tentou parecer maior que o lugar em que está sentado. Até a biografia do menino humilde de Pujato funciona melhor se não for lida como folclore da simplicidade. A pequena cidade agrícola de Santa Fe onde nasceu e foi criado não explica um campeão do mundo, mas ajuda a entender sua relação com o poder. Scaloni jogou na Argentina, atravessou a Europa, disputou Copa, virou auxiliar, foi tratado como tapa-buraco, ganhou tudo e ainda conserva a desconfiança de quem sabe que a glória visita, mas não necessariamente mora. É menos humildade como virtude anunciada e mais uma incapacidade curiosa de demonstrar afetação. Scaloni durante a partida da Argentina contra o Egito na Copa do Mundo 2026 — Foto: Reprodução / Cazé TV Ao redor de Messi Essa ausência de ego ajudou a resolver a questão mais pesada do futebol de seleções neste século: como treinar Messi sem ser engolido por Messi. Scaloni entendeu que gerir o camisa 10 não era comandá-lo nem servi-lo, mas construir um país ao redor dele sem transformar esse país numa escolta. A Argentina não virou “Messi e mais dez”. Tem Dibu, Cuti, De Paul, Enzo, Mac Allister, Álvarez e Lautaro, além de ter tido Di María até 2024. Mas todos passaram a jogar com a mesma missão emocional: fazer com que o último jogo de Messi nunca chegue, como disse Paredes nesta Copa. Dizer que Scaloni fez Messi conquistar o mundo diminuiria Messi. Dizer que Messi fez Scaloni campeão diminuiria Scaloni. O encontro foi melhor. Scaloni não diminuiu a Argentina para caber em Messi; fez o país aceitar que, por alguns anos, caber em Messi era uma forma de voltar a ser a Argentina. Por isso os dois, que dividem o mesmo nome —Lionel, combinam tanto. O que joga é dono do futebol sem se comportar como proprietário dele. O que treina comanda Messi sem disputar com ele o significado da conquista. Também por isso sua inteligência às vezes parece menor do que é. Scaloni cometeu, para a liturgia dos técnicos da elite, o pecado de vencer sem parecer profundo. Não transformou entrevista em aula, sistema em religião, treino em manifesto. Num tempo em que treinadores fazem das ideias uma marca pessoal, ganhou quase tudo sem pedir que o time parecesse uma tese sobre ele. Sua Argentina tem princípios, mas não os trata como algemas. Viver o drama Essa flexibilidade é menos charmosa do que uma doutrina. Depois da derrota para a Arábia Saudita na estreia de 2022, Scaloni apareceu no documentário da campanha ainda tentando entender o apagão que virara o jogo em cinco minutos. Contou que perguntou aos jogadores o que acontecera entre os minutos 48 e 53. Ninguém sabia explicar. Para ele, a resposta não estava só na tática: a Argentina vinha de 36 jogos sem perder, mas precisava reaprender que a derrota continuava existindo. Se conseguisse se recompor daquele golpe, disse Scaloni, a seleção voltaria a competir — não do ponto de vista futebolístico, mas de algo mais fundo. A frase combina com um time que saiu do tropeço para o título, carregou Messi em lágrimas e agora sobreviveu a um 2 a 0 contra o Egito. Ao invés de tentar curar a Argentina do drama, Scaloni ensinou a seleção a enfrentá-lo sem fazer dele uma sentença. Sua Argentina continua sofrendo. Só deixou de confundir sofrimento com destino. Por isso Scaloni pode parecer menos autor do que foi. Em seis anos, ganhou Copa América, Finalíssima, Copa do Mundo e outra Copa América. Tirou Messi da coleção de frustrações argentinas, renovou pedaços do elenco, enfrentou o fim de Di María e conduziu uma seleção que passou a carregar a própria lenda sem desabar sob ela. Seu maior gesto de autoridade foi não disputar autoridade com o maior jogador desta época. Hoje, contra a Suíça, a Argentina joga as quartas como quem tenta adiar mais uma despedida. Messi tem 39 anos, faz uma Copa de artilheiro histórico e transforma cada mata-mata numa pergunta sobre o fim. A Suíça, que eliminou a Colômbia nos pênaltis e voltou a esse estágio pela primeira vez desde 1954, é adversária real e incômoda. Mas o jogo também mede se o técnico que nunca quis tomar posse do milagre ainda consegue prolongá-lo. Scaloni não é frio. A mão na boca contra o Egito e o corpo imóvel depois do pênalti de Montiel dizem o contrário. Também não é apenas humilde, palavra tão repetida que às vezes esvazia o que tenta elogiar. Parece algo mais raro — e o adjetivo cabe em português e espanhol (peculiar, estranho): é um vencedor que não aprendeu a se comportar como dono da vitória. O argentino que não se acha dono do mundo ajudou Messi a conquistá-lo. E agora, ambos se atrevem a tentar outra vez. Quando este mesmo mundo olha de volta, Scaloni ainda reage como se pedisse alguns segundos para poder acreditar.
Scaloni, o campeão que não tomou posse da glória na Argentina
Técnico enfrenta a Suíça como o homem que venceu quase tudo sem transformar Messi, o time ou a Copa numa tese sobre si mesmo













