A postura do governador Jorginho Mello (PL-SC) durante o protesto de indígenas na Barragem Norte, em José Boiteux, não é um fato isolado nem um simples deslize de linguagem. Ela se insere em uma longa e vergonhosa história de violência estrutural do estado de Santa Catarina contra o povo xokleng.
Ao xingar uma cacique que exercia seu legítimo direito de reivindicar em seu próprio território, o governador não apenas demonstrou seu desprezo pessoal como escancarou a continuidade de um projeto de silenciamento que remonta à própria construção da barragem.
Erguida na Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ durante a ditadura militar e inaugurada em 1992, a Barragem Norte foi feita sem nenhum estudo de impacto ambiental ou diálogo com os xoklengs, alagando parte significativa de seu território ancestral, destruindo aldeias, roças e o modo de vida da comunidade. Promessas judiciais de indenização e compensação, firmadas nos anos 1990 e 2000, foram sistematicamente ignoradas pelos sucessivos governos estaduais. Mais do que uma obra de engenharia, a barragem tornou-se o símbolo de um abandono que dura gerações.
Em outubro de 2023, essa tensão histórica explodiu em confronto aberto: durante fortes chuvas, o governo fechou as comportas para conter cheias em cidades como Blumenau, mas o fez de forma truculenta, sem estudos adequados; e a Polícia Militar empreendeu uma violenta operação, com bombas de gás e tiros, contra os indígenas, que ficaram desabrigados e sem acesso a água e alimentos, mesmo após decisão judicial que determinava assistência.







