Maior apetite a risco apoia bom desempenho da moeda brasileira Notas de dólar — Foto: Dimas Ardian/Bloomberg O dólar encerrou o pregão desta sexta-feira em queda e fechou a semana na casa de R$ 5,10, com um recuo de pouco mais de 1%. Após um período de pressão sobre o câmbio doméstico diante do aumento das tensões no Oriente Médio, investidores retomaram algum apetite por risco e as moedas de países emergentes se recuperaram nos últimos dois pregões desta semana, o que beneficiou o real. Além disso, o rali de ativos domésticos nesta sessão por causa do resultado bem abaixo do esperado do IPCA de junho também apoiou o bom desempenho da moeda brasileira. Encerrados os negócios no mercado à vista, o dólar comercial anotou queda de 0,28%, a R$ 5,1084, após tocar a mínima intradiária de R$ 5,0989 e a máxima de R$ 5,1276. Na semana, a moeda americana recuou 1,15% ante o real. Já o índice DXY, que mede a força do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, oscilava +0,06%, a 100,963 pontos, perto do horário de fechamento dos mercados no Brasil. Entre divisas pares do real, o dólar recuava 0,36% contra o peso mexicano; tinha forte queda de 1,28% ante o peso colombiano; e cedia 0,11% em relação ao rand sul-africano. Se, ao longo da tarde, o dólar ganhou alguma tração contra divisas de economias desenvolvidas, em especial o euro e a libra, o mesmo não ocorreu no confronto com as moedas emergentes. Neste sentido, o movimento desta sexta-feira espelhou em grande parte o da véspera, quando os investidores corrigiram excessos das sessões anteriores por conta da escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, retomando um posicionamento um pouco menos defensivo, o que beneficiou o real e outras divisas emergentes. Mais cedo, sinais de que Estados Unidos e Irã poderiam voltar à mesa de negociações após a rodada mais recente de ataques no Oriente Médio acalmaram os temores de que os países retornassem a um cenário efetivo de guerra. “O dólar não tem benefício algum com essa situação. A redução do risco geopolítico significa um foco contínuo nos diferenciais de juros, que, em alguns casos, têm se movido em desfavor do dólar, ao reavivar as expectativas de política monetária restritiva em diversas regiões. Aliás, a volta do apetite por risco provocou uma recuperação significativa nas moedas de mercados emergentes de alto rendimento, após o desmantelamento das operações de ‘carry trade’ no início desta semana”, relatam os estrategistas Chris Turner, Francesco Pesole e Frantisek Taborsky, do banco ING. Nesse contexto, Michalis Rousakis e Claudio Piron, do Bank of America (BofA), enxergam o real como um destaque positivo entre as moedas latino-americanas. “Na América Latina, o real brasileiro, apesar de seu forte desempenho, continua subvalorizado em relação à significativa melhora em seus termos de troca, e o mesmo se aplica às moedas da região EMEA (acrônimo para Europa, Oriente Médio e África). Entre as moedas da Europa Central e Oriental, o florim húngaro superou amplamente seus termos de troca graças às eleições, mas ainda tem espaço para valorização”, escrevem os profissionais do BofA. Para além do cenário internacional, o contexto local hoje foi de bastante apetite por risco dos investidores, o que beneficiou o câmbio, ainda que de maneira tímida em comparação com os mercados de renda fixa e ações. O rali que fez o Ibovespa saltar quase 3% e os juros futuros despencarem até mais de 20 pontos-base (ou 0,2 ponto percentual) veio com os resultados do IPCA de junho, cuja alta de 0,16% veio abaixo até do piso das projeções colhidas pelo VALOR DATA. Além disso, o indicador mostrou uma composição mais benigna, com desaceleração em itens importantes para a política monetária do Banco Central. Com isso, o mercado passou a precificar uma alta chance de que o Copom cortará novamente a Selic em 0,25 ponto percentual na sua reunião de agosto, e uma probabilidade de quase 50% de o encontro de setembro do colegiado também conte com um corte. Em tese, juros mais baixos no Brasil tendem a reduzir o valor relativo do real em relação a outras moedas via carrego de juros. No entanto, conforme explica Gilberto Hernandez-Gomez, estrategista para mercados emergentes do banco espanhol BBVA, o diferencial de juros entre Estados Unidos e Brasil seguiria alto o suficiente mesmo com novos cortes da Selic, e uma distensão da política monetária do Copom não seria suficiente para levar a uma desvalorização relevante do real em relação ao dólar. Ainda assim, o BBVA espera um avanço do dólar até o fim de 2026, para a casa de R$ 5,40. “Embora o ritmo lento da flexibilização tenha mantido os juros altos no Brasil, esperamos que as próximas eleições sejam um fator de volatilidade e incerteza. Nossas previsões cambiais levam isso em conta, indicando um enfraquecimento do real brasileiro à medida que nos aproximamos de outubro. Em geral, preferimos posições aplicadas (aposta na queda das taxas) na parte intermediária da curva da curva de juros, em vez de posições táticas compradas em dólar contra o real”, relata Hernandez-Gomez em relatório.