Thiago Miranda atuou com o banqueiro contra pessoas encaradas como 'obstáculos' do dono do Master, entre elas o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, e a jornalista Malu Gaspar, colunista do GLOBO 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o empresário Thiago Miranda, dono da Agência Mithi — Foto: Ana Paula Paiva/Valor e Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 09/07/2026 - 22:46 Investigados por Intimidação, Publicitário e Banco Envolvem Executivos e Jornalista A Polícia Federal investiga o publicitário Thiago Miranda e Daniel Vorcaro, do Banco Master, por intimidação de adversários, incluindo o CEO do Itaú, Milton Maluhy, e a jornalista Malu Gaspar. Documentos revelam o uso de dados não autorizados para criar dossiês contra essas pessoas, visando coagi-las e manipular a opinião pública. A operação foi autorizada pelo STF, que vê "contornos de máfia" na organização. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Polícia Federal deflagrou na quinta-feira uma operação para investigar a atuação do publicitário Thiago Miranda, que agiu ao lado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para intimidar pessoas encaradas como “obstáculos” do banqueiro, entre elas o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, e a jornalista Malu Gaspar, colunista do GLOBO. A apuração aponta que Vorcaro pediu ao publicitário, segundo diálogos apreendidos, a elaboração de um dossiê contra o presidente do Itaú e que os investigados usaram uma plataforma de venda de dados não autorizados, inclusive financeiros, para levantar informações e encontrar “elementos potencialmente desabonadores”. A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação, não especifica em quais datas as conversas ocorreram, mas o blog de Malu Gaspar informou que os diálogos são de fevereiro de 2025, um mês antes do anúncio da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Na época, o Itaú pressionava nos bastidores o Banco Central (BC) para apertar o cerco contra a instituição de Vorcaro. Procurado, o Itaú informou que não irá se manifestar sobre o assunto. ‘Me causando problema’ Miranda é dono da agência Mithi, que contratou influenciadores para uma operação de “marketing de guerrilha” nas redes sociais em favor do Master e contra a liquidação movida pelo BC. Mensagens obtidas pela PF mostram que Vorcaro pediu a Miranda um dossiê com “informações confidenciais” sobre o CEO e de sua mulher, Camila Moretti Maluhy. “Estou precisando fazer um levantamento do Milton Maluhy. Está me causando muito problema”, escreveu Vorcaro ao publicitário. “Deixa comigo”, respondeu Miranda. Em outra conversa, Miranda informou a Vorcaro que o material estava pronto, mas que queria veicular as informações “por outro veículo”. “Passando o carnaval falamos. Estou com tudo pronto do Milton. Mas quero fazer da mesma forma. Soltar por outro veículo”, disse. O Banco Central já havia detectado a deterioração dos indicadores do banco de Vorcaro no primeiro semestre de 2024 e exigido a adoção de uma série de medidas, como a “adequação da gestão de liquidez”. Após a liquidação do Master pelo BC, em novembro de 2025, o CEO do Itaú criticou o impacto das fraudes no Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e defendeu mudanças na regulação do setor. Mandados de busca e apreensão contra Miranda foram cumpridos por determinação de Mendonça, que destacou o “grau de periculosidade da organização, conferindo-lhe contornos de máfia”. Os investigadores encontraram um dossiê intitulado “Família Maluhy Relatório sobre Execução Fiscal — Caso Milton Maluhy Filho e Camila Moretti Maluhy”. O arquivo, elaborado com a identidade visual da empresa de Miranda, a Agência Mithi, trazia o alerta de que se tratavam de “informações confidenciais” sobre a família. A mesma forma de atuação usada contra o executivo Milton Maluhy, do Itaú, foi usada contra a jornalista Malu Gaspar. Segundo a decisão de Mendonça, Miranda era “o principal responsável por realizar pesquisas e levantamentos acerca da vida privada” da jornalista e “costumava informar o andamento das buscas, relatar sobre a análise de processos judiciais antigos e coordenar a mobilização de equipe dedicada a localizar informações que pudessem ser consideradas sensíveis ou comprometedoras”. O ministro afirmou que Miranda e Vorcaro tinham em mãos informações sobre a família da jornalista e seu patrimônio. A defesa do publicitário disse “refutar, de forma categórica, a prática de qualquer ilegalidade”. Ao solicitar a operação de quinta-feira, a PF disse que Miranda e Vorcaro agiram para “proteger o núcleo dirigente da organização criminosa; manipular a opinião pública; coagir, intimidar e violar dados sigilosos de jornalistas, concorrentes e pessoas ligadas ao presidente do Banco Central”. “Observando-se latente abuso ao buscar informações de cunho familiar para atingir os objetivos de intimidação e coação, em cenário apto a configurar a potencial prática do crime previsto no art. 154-A do Código Penal”, disse, citando crime de invasão de dispositivo informático. Contra jornalistas O inquérito revela que Miranda usou recursos oriundos das “fraudes financeiras” do Master para promover “campanha de desinformação na mídia”. O mandado autoriza a apreensão de celulares, equipamentos eletrônicos e documentos. Também determina a extração de conversas contidas nos aparelhos e na nuvem. Diálogos obtidos pela PF mostram que a insatisfação da dupla com a colunista do GLOBO surgiu a partir de reportagens que abordaram investigações sobre a instituição financeira devido a operações fraudulentas e manipulação de preços. Vorcaro afirma que precisa “frear a Malu Gaspar”, que “iria dar trabalho nos próximos dias”, após ter tido uma entrevista “bem ruim” com ela. As mensagens foram divulgadas pelo site Fatos on-line e confirmadas pelo GLOBO. As mensagens extraídas do celular de Vorcaro, em posse da Polícia Federal, são de março e abril de 2025. À época, o Master já enfrentava crise financeira. No mesmo período, Miranda também fez a Malu e ao colunista do GLOBO Lauro Jardim uma proposta de contratação, como forma de travar a produção de conteúdo investigativo que revelou os escândalos do Master. Na decisão que mandou prender Vorcaro pela segunda vez, em março deste ano, Mendonça afirmou haver indícios de que o ex-banqueiro determinou que se forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para “prejudicar violentamente” Lauro Jardim. Sobre esses fatos, O GLOBO publicou a seguinte nota: “O GLOBO repudia a devassa ordenada pelo investigado na vida da colunista Malu Gaspar, uma das mais respeitadas jornalistas do país. A ação, como deixa claro a troca de mensagens, visava calar a voz da imprensa e revela um modus operandi do grupo criminoso, que já havia ameaçado de ato violento outro colunista do jornal. Os envolvidos nessa trama de perseguição devem ser investigados com rigor. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público”.