Sobrevivi. Nada de parada cardíaca ou intestino perfurado. De resto, não tenho a mais pálida ideia do que aconteceu. O anestésico realmente é milagroso 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Médico segura modelo anatômico da pelve: prevenção — Foto: Freepik Depois de muito marca e desmarca, eis que finalmente cá estou: na antessala da minha primeira colonoscopia. Sim, sei que estou atrasado, já deveria ter feito o procedimento há pelo menos dois anos. Não tenho medo do exame, mas também não é algo que me entusiasme. Na consulta, a médica disfarçou o riso quando perguntei sobre as chances de uma parada cardíaca. Quando questionei sobre a possibilidade de a cânula furar rins, estômago, pulmões e todos os outros órgãos que encontrasse pelo caminho, ela foi mais definitiva: não vai acontecer. Mesmo duvidando, aceitei. Aproveitei o embalo de autoconfiança e marquei logo dois em um: endoscopia e colonoscopia. Na verdade, acho que o que mais me afastou da colonoscopia nos últimos meses foi a rotina de preparo para o exame. Os relatos são de desconfortos terríveis. Não tinha mais saída, era preciso encarar. O tal preparo começou na véspera, com um cardápio esquálido, sem queijo, sem café, sem fruta, sem chocolate, sem vinho, sem graça. No café da manhã apenas um pãozinho triste com ovo. E água de coco. Quem toma água de coco nas refeições? Refeições é modo de dizer. Uma sopinha de batata apenas aceitável. Ao fim do dia, botei pra dentro dois laxantes, um pouco ansioso na expectativa do que ia acontecer. A fatura chegou no meio da madrugada e não foi legal. “Dá graças a Deus que você tem plano de saúde e dinheiro para fazer o exame!”, me disseram. Não se pode nem reclamar em paz. Um detalhe nas orientações para o preparo chamou minha atenção: “É indispensável que o paciente venha acompanhado de pessoa capaz de conduzi-lo de volta para casa.” Nesse mundo doido onde se prega tanta independência e autonomia, ter um momento de fragilidade, em que o outro é absolutamente imprescindível, guarda alguma beleza. ****** Manhã do exame. Jejum. Para quem vinha só com uma sopinha no estômago, foi sofrido. Paciência. Após a entrada no hospital, uma dose cavalar de Manitol caubói, sem gelo e sem vodca, para o intestino trabalhar o desapego e liberar tudo que ele ainda possa estar escondendo. Não posso contar o que aconteceu nas horas seguintes para não estragar o café da manhã do leitor. Daqui a pouco vem a anestesia e é nela que reside o consenso: todos dizem que é um sono sem igual. Pra mim, que não ando dormindo lá essas coisas, cairia bem. Segundo a médica, vai ser um sono tão pesado que vou querer remarcar o exame todo ano. Duvido. Bom, o leitor está avisado, se no lugar da coluna o jornal publicar meu obituário, já sabem o que aconteceu: a médica estava errada a respeito do potencial destruidor da cânula. ****** Sobrevivi. Nada de parada cardíaca ou intestino perfurado. De resto, não tenho a mais pálida ideia do que aconteceu. O anestésico realmente é milagroso. É como se o Mike Tyson tivesse me dado nocautes em sequência. E depois sentado na minha cabeça. Explicando assim, parece ruim, mas foi ótimo. Recomendo. Michael Jackson, agora eu entendo a sua paixão pelo propofol. Amanhã vou entrar em contato com a secretária da médica e já deixar marcado o novo nocaute, digo, exame. Se ela tiver agenda, ainda este ano.