Mineração 4.0: a revolução industrial do setorDrones, satélites, 5G, gestão de dados e veículos autônomos já estão na operação da Vale, Rio Tinto e BHP; para especialistas é a revolução industrial do setor. Crédito: EstadãoGerando resumoOs fabricantes brasileiros de ferro-gusa, insumo utilizado na fabricação de aço, autopeças e peças fundidas, defenderam na terça-feira, 7, em Washington, capital dos Estados Unidos, que as novas tarifas sobre importações desse tipo de produto do Brasil entrem na lista de isenção. Um dos argumentos é o de que o mercado americano é altamente dependente de fornecimento externo e o Brasil é o principal exportador aos EUA. PUBLICIDADENa terça-feira, o representante comercial dos EUA, conhecido pela sigla USTR, iniciou as audiências públicas, ouvindo tanto representantes de países e setores exportadores como de consumidores (importadores e empresas) e entidades industriais americanas. A soma da tarifa de 25%, fruto da aplicação da lei da Seção 301 (políticas comerciais) e 12,5% (suposta falha contra o trabalho forçado) gera impacto de 37,5% sobre o ferro-gusa brasileiro e milhares de outros produtos brasileiros. Quase 70% do volume do insumo que os EUA importam para suprir suas necessidades tem como origem o Brasil, disse ao Estadão o empresário Frederico Henriques Lima e Silva, acionista e presidente da SDS Siderúrgica, que tem usinas em Sete Lagoas (grande polo produtor) e Divinópolis (MG). PublicidadeUsina de produção de ferro-gusa da SDS Siderúrgica em Sete Lagoas (MG) Foto: SDS/DivulgaçãoA produção brasileira está concentrada em Minas Gerais (maior fatia dos embarques aos EUA), Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Maranhão. Ferro-gusa é uma liga de ferro e carbono obtida com minério de ferro e carvão vegetal ou coque, produzida em altos-fornos e utilizada como matéria-prima na fabricação de aço em usinas não integradas, em autopeças e em diversos componentes automotivos.Silva participou das audiências públicas como representante do Sindifer, entidade que reúne os produtores de ferro-gusa no País — são 53 fabricantes, das quais 48 em Minas Gerais. “Mostramos a importância do produto brasileiro para a indústria americana, e fiquei surpreso e otimista com o apoio que recebemos de empresas e entidades dos EUA”, afirmou Silva. A audiência, pela manhã, abordou a tarifa de 12,5% e, na parte da tarde, a aplicação da seção 301, que prevê aplicação de 25%. O novo tarifaço de Donald Trump está previsto para entrar em vigor a partir de quarta-feira, 15. Atualmente, o setor sofre uma tarifa de 10%, que vai expirar no dia 24. “A preocupação é com o impacto de 37,5% que teremos se as importações de ferro-gusa não entrarem na lista de isenção do governo americano, na categoria de matéria-prima estratégica para a economia do país”, afirmou o empresário. PublicidadeLeia tambémOpinião Decisão sobre tarifas comerciais contra o Brasil será apenas de Trump. E esse é o grande risco335 empresas e entidades se manifestam sobre tarifas de Trump a produtos brasileiros; veja listaNovas tarifas dos EUA podem impactar mais de um terço das exportações do Brasil em até 37,5%No ano passado, a produção brasileira, em volume, atingiu 5,3 milhões de toneladas, das quais 3,7 milhões em Minas Gerais. Para os EUA foram embarcadas 3,37 milhões de toneladas, conforme dados do Sindifer.As divisas brasileiras com exportação de ferro-gusa em 2025 atingiram US$ 1,67 bilhão, o equivalente a R$ 8,6 bilhões pelo atual câmbio, com embarques de 4,06 milhões de toneladas. Desse valor, as compras por empresas americanas representaram cerca de US$ 1,5 bilhão. Do total, as exportações de Minas representaram US$ 1,18 bilhão, ou 70,6%. O total importado pelo mercado americano em 2025 para suprir grandes usinas de aço, como Nucor, foi de 5,3 milhões de toneladas. A produção local de ferro-gusa foi de apenas 300 mil toneladas — menos de 6%.PublicidadeLinha de produção de ferro-gusa da siderúrgica CBF, do grupo Ferroeste, em João Neiva (ES) Foto: CBF/DivulgaçãoSegundo informações do Sindifer, o Brasil, como maior fornecedor do mercado americano, tem siderúrgicas de gusa que dependem 90% das vendas para os EUA. Depois do Brasil, com volume bem menor, vêm Ucrânia e Índia. A Rússia, que era o segundo maior fornecedor, ainda é atingida por sanções americanas desde 2022 em razão da guerra com a Ucrânia.Os fabricantes brasileiros vêm mantendo constante diálogo com clientes nos EUA, que dependem do produto brasileiro, contando com apoio na tentativa de isentar a tarifa aos embarques de ferro-gusa ao mercado americano. O risco para a cadeia de suprimento do insumoNa audiência, informa Silva, representantes de clientes locais mostraram os efeitos (encarecimento dos custos) na indústria de aço e de peças fundidas e a disrupção que pode causar na cadeia de suprimento desses setores dependentes do insumo. PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEDa produção da SDS em Sete Lagoas — maior polo fabricante de ferro-gusa do País — cerca de 40% vai para usinas de aço e fabricantes de autopeças dos EUA. Uma parcela um pouco maior, 45%, é destinada a produtoras de autopeças da Europa, que demanda produto com especificação para aplicação de mais sofisticada. A usina de Divinópolis, adquirida em 2024, em barca entre 60% e 70% da produção para o mercado americano (a fabricantes de aço). Silva destacou ao Estadão que o gusa brasileiro tem competitividade pelo fato de ser produzido com uso de carvão vegetal, o que contribui para descarbonizar a indústria do aço. Mas, no momento, diante das novas tarifas, muitas negociações estão suspensas, aguardando a definição pelo governo americano. Outras siderúrgicas de ferro-gusa, em Minas e nos outros Estados, como o Espírito Santo, são também afetadas pela aplicação das novas tarifas. É o caso da CBF Indústria de Gusa, localizada em João Neiva e controlada pelo grupo mineiro Ferroeste. Conta com capacidade anual para produzir 260 mil toneladas em dois altos-fornos. Do que exporta, 55% a 60% vai para os EUA. PublicidadeA insegurança de fornecimento está também nos EUA, nas companhias que necessitam dessa matéria-prima, caso de Nucor, Big River, Steel Dynamics, North Star e outras, afirma Silvia Nascimento, presidente da CBF e uma das acionistas do grupo Ferroeste.