Iniciativa em drones une conhecimento em campo de batalha da Ucrânia à capacidade industrial japonesa — Foto: Divulgação A Câmara de Comércio Ucraniana no Japão apresentou na segunda-feira (6) uma iniciativa para colaborar com empresas japonesas no desenvolvimento de drones civis e tecnologias relacionadas, além de buscar parcerias com países da região que compartilham objetivos semelhantes, como Taiwan, Coreia do Sul e alguns países do Sudeste Asiático. Um dos principais objetivos do programa é criar uma cadeia de suprimentos que não dependa da China, hoje dominante na indústria global de drones. A plataforma, chamada Japan-Ukraine Drone Cluster (JUDC), foi criada pela Câmara de Comércio para conectar empresas e promover o compartilhamento de tecnologias de drones e outros sistemas não tripulados, combinando a experiência adquirida pela Ucrânia no campo de batalha durante a guerra contra a Rússia com a capacidade industrial japonesa. A presidente da Câmara de Comércio Ucraniana no Japão, Kateryna Yavorska, afirmou a jornalistas que a plataforma está aberta à participação de outros parceiros, especialmente de Taiwan e de países com crescente demanda por drones. Embora a Ucrânia continue necessitando urgentemente de equipamentos militares para enfrentar a invasão russa iniciada há mais de quatro anos, Yavorska ressaltou que a iniciativa foi concebida para o período pós-guerra. O objetivo é desenvolver ideias e parcerias capazes de transformar tecnologias militares em aplicações civis voltadas à reconstrução do país e ao seu desenvolvimento econômico. Segundo ela, a guerra acelerou o desenvolvimento da indústria ucraniana de drones e de setores correlatos. Agora, porém, as empresas precisam identificar como essas tecnologias poderão ser aproveitadas em tempos de paz. "Muitas delas já estão pensando no próximo passo para essas tecnologias", disse Yavorska, acrescentando que a plataforma oferecerá oportunidades para encontrar parceiros em outras partes do mundo. Segundo ela, praticamente qualquer tecnologia pode ter uso dual — civil e militar. Yoshihiko Okabe, professor de economia e diretor do Centro de Estudos sobre a Ucrânia da Universidade Kobe Gakuin, que ajudou a organizar a iniciativa, enfatizou que a colaboração será "100% restrita aos setores pacífico e humanitário". Okabe, que também é cônsul honorário da Ucrânia em Kobe e visitou recentemente o país europeu pela 44ª vez desde o início da guerra, destacou oportunidades de cooperação com empresas japonesas em áreas como resposta a terremotos e desastres naturais e até monitoramento de ursos. O professor ressaltou ainda a rapidez e a capacidade de adaptação da indústria ucraniana de drones, aliadas aos esforços para construir uma cadeia de suprimentos livre da China. Segundo ele, essa passou a ser uma prioridade ainda maior para Tóquio diante do aumento das tensões com Pequim. Desde que a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi mencionou no Parlamento, em novembro passado, a possibilidade de uma crise envolvendo Taiwan, a China respondeu com restrições unilaterais às exportações de materiais estratégicos e sanções contra empresas japonesas. Apesar disso, reduzir a dependência chinesa em setores como drones e robótica — nos quais o país lidera em capacidade produtiva, velocidade e preços — continua sendo um grande desafio. Vice-presidente e diretor-presidente da fabricante taiwanesa Jiin Ming Industry, Alson Chien Hao-ting afirmou durante o mesmo evento que espera combinar as vantagens competitivas de Ucrânia, Japão e Taiwan. Segundo Chien, que já iniciou conversas com potenciais parceiros ucranianos, o que mais o impressionou foi a rapidez e o caráter prático das soluções desenvolvidas por eles, resultado da experiência obtida em condições reais de combate. Ele reconheceu que drones totalmente produzidos e montados em Taiwan custam entre 30% e 40% mais do que modelos equivalentes fabricados por empresas chinesas, mas argumentou que a cooperação internacional pode reduzir essa diferença competitiva. Nenhum projeto específico foi anunciado durante a apresentação da plataforma, embora Chien tenha indicado que negociações já estão em andamento. Yavorska afirmou que ao menos quatro ou cinco empresas japonesas demonstraram interesse em participar da iniciativa. Embora o preço continue sendo um obstáculo para competir com os produtos chineses, Yavorska resumiu o desafio: "Quanto estamos dispostos a pagar pelo custo da segurança?".