Transição energética exige plano para desativar geração elétrica dessa fonte poluente e superada 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Usina termelétrica movida a carvão mineral no Rio Grande do Sul — Foto: Divulgação/Âmbar Energia/24/06/2026 É um paradoxo que o Brasil, país onde 88% da eletricidade é gerada por fontes renováveis — um dos percentuais mais altos do planeta —, ainda mantenha em sua matriz energética usinas térmicas a carvão mineral, que estão entre os maiores emissores de gases de efeito estufa. Embora respondam por algo como 1,4% da geração no país, elas custaram no ano passado R$ 1,22 bilhão em subsídios. Para piorar, um Projeto de Lei (PL) que tramita no Congresso, dos deputados Afonso Hamm (PP-RS) e Lucas Redecker (PSDB-RS), pretende estender tais subsídios até 2050, sob a alegação de que as usinas são um instrumento de segurança energética e econômica nas regiões carboníferas do Sul do país. O debate do PL dá ao Brasil a oportunidade de fazer exatamente o contrário: tornar ainda mais limpa sua matriz energética e reduzir parte dos pesados subsídios pagos pela população na conta de luz. Se deseja ser referência na transição energética, o país tem de abandonar o uso de carvão. A capacidade de planejamento que caracteriza o setor elétrico deve ser usada para redução paulatina dele na geração elétrica, como têm feito regiões bem mais dependentes do mineral, em especial China ou União Europeia. O último relatório do Global Energy Monitor informa que, apesar de a capacidade instalada global das térmicas a carvão ter subido 3,5% em 2025, a geração a partir dessa fonte caiu 0,6%. No Brasil, em contrapartida, cresceu 16,8% em 2024, ante crescimento de 11,4% das térmicas como um todo. Na China e na Índia, onde se concentra o crescimento na demanda por eletricidade no planeta, ela tem sido suprida por energia solar e eólica. Sem contar os Estados Unidos de Donald Trump, em todos os demais países houve queda na geração por carvão mineral. Apesar do desenvolvimento de tecnologias para capturar o carbono emitido por usinas térmicas, nada justifica perpetuar o uso desse mineral na geração de energia. Na melhor das hipóteses, ela custará mais caro do que já custa, exigindo subsídios maiores na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), já estimada em R$ 52,7 bilhões neste ano. “Quem paga a CDE é o consumidor, não importa se é uma dona de casa, um pequeno comerciante, um hospital, um agricultor ou uma indústria”, diz Juliano Bueno, presidente do Instituto Arayara, ONG dedicada à transição energética com atuação em países latino-americanos. Mesmo que o país ainda engatinhe na construção de parques de baterias para armazenar a energia necessária nos momentos em que cai a geração intermitente (eólica ou solar), é perfeitamente possível suprir a falta por meio de hidrelétricas ou térmicas a gás, já responsáveis por 75% da eletricidade vinda de combustíveis fósseis. Ainda que esteja longe de ser fonte limpa, o gás natural é bem menos poluente que o carvão mineral. E o carvão nem sequer é eficiente — as usinas dificilmente chegam a 40% de eficiência, ante 55% das térmicas a gás mais modernas. É certo que desativar as térmicas a carvão exige planejamento em virtude do impacto social. Em Santa Catarina, a cadeia de mineração gera 21 mil empregos e representa 70% do PIB de alguns municípios. Mas um plano bem estruturado pode incentivar outras atividades na região e promover a transição necessária, tanto do ponto de vista ambiental quanto do econômico. O subsídio ao carvão é um equívoco com custo muito maior para o Brasil.