Marcada por um cenário de acirramento, a corrida eleitoral no Rio Grande do Sul conta com uma disputa ao governo que reflete a polarização política nacional entre esquerda e direita, além de ter um empate técnico entre diversos postulantes ao Senado. Para o Palácio Piratini, quem corre por fora, até o momento, é o nome escolhido para a sucessão do governador Eduardo Leite (PSD), que trabalha para superar o histórico de alternância de poder no estado. Para dar continuidade à atual gestão, o mandatário gaúcho aposta na pré-candidatura do vice-governador, Gabriel Souza (MDB). A expectativa inicial era que ele assumisse o cargo em abril, quando Leite esperava ser o nome escolhido pelo PSD para concorrer à Presidência da República, vaga que acabou ficando com o ex-governador Ronaldo Caiado. Após a frustração, Leite decidiu permanecer no cargo até o fim do mandato, o que fez Souza perder a oportunidade de contar com a máquina pública até as eleições para ampliar sua presença no estado e fortalecer articulações em busca de uma candidatura mais competitiva. O vice-governador, no entanto, rebate que a escolha do aliado tenha causado prejuízos à sua campanha, embora reconheça que a cadeira possibilita maior exposição. O vice-governador tem a forte concorrência do deputado federal Luciano Zucco (PL), nome apoiado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), e da ex-deputada estadual Juliana Brizola (PDT), escolhida para ser o palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no estado. Ambos aparecem bem à frente do emedebista nas pesquisas de intenção de voto. Além dessa dificuldade, o Rio Grande do Sul conta com um retrospecto negativo para candidatos à reeleição ou ligados à base governista. Até a segunda vitória de Eduardo Leite, em 2022, nenhum chefe do Executivo havia conseguido permanecer no cargo desde a redemocratização. O voto nos estados: Rio Grande do Sul Em 2006, o ex-governador Germano Rigotto (PMDB) ficou fora do segundo turno, superado por Yeda Crusius (PSDB) e Olívio Dutra (PT). Quatro anos depois, foi a vez de Yeda fracassar, terminando atrás de Tarso Genro (PT) e José Fogaça (PMDB). Em 2014, Genro foi derrotado por José Ivo Sartori (PMDB), que, quatro anos depois, perdeu para Eduardo Leite. Apesar de quebrar o ciclo e conquistar a reeleição, Leite também enfrentou dificuldades em seu pleito. Ele chegou a perder para Onyx Lorenzoni (PL) e por pouco não ficou fora do segundo turno: marcou 26,81% dos votos contra 26,77% do petista Edegar Pretto. O percentual representou uma diferença de pouco mais de dois mil votos. A aposta de Souza, contudo, é em outro fator que também faz parte da vida eleitoral dos gaúchos. Segundo ele, há margem para quem sai atrás virar o jogo a partir da rejeição dos adversários e da conquista do eleitorado mais indeciso. Na última pesquisa Genial/Quaest, divulgada em abril, 68% afirmaram que ainda poderiam mudar de voto. Àquela altura, o vice-governador aparecia com 6%, enquanto Zucco tinha 21%, e Brizola, 24%. No levantamento, contudo, somente 39% da população defendeu que Leite merecia eleger um sucessor. — Além de nossa maior experiência de gestão e conhecimento da máquina, nas eleições gaúchas, quando o terceiro colocado se aproxima dos líderes, ele tem um charme irresistível. As pessoas notam, querem saber quem é e acabam migrando — avalia Souza. Aliança na esquerda Neta do ex-governador Leonel Brizola, Juliana foi escolhida por Lula para ser o nome da esquerda ao governo. A definição ocorreu após meses de negociações e divergências internas no PT, que já havia lançado Edegar Pretto, em novembro do ano passado, para concorrer novamente ao Piratini. Apesar da resistência de petistas históricos, que chegaram a rejeitar publicamente abrir mão de ter um candidato próprio pela primeira vez, a direção nacional optou por intervir. Com isso, Pretto foi designado para a vice, em uma aliança composta também por PSOL, PCdoB, PV, Rede, Avante e PSB. A chapa conta, ainda, com a ex-deputada Manuela D’Ávila (PSOL) e o ex-ministro Paulo Pimenta (PT) para o Senado. — Nós temos diferenças, e isso é natural, se não seríamos um partido só. O mais importante é que conseguimos construir uma convergência em torno daquilo que realmente importa, que é trabalhar para melhorar a vida do povo gaúcho — afirma Juliana. A ex-deputada sofreu críticas de nomes como o petista Olívio Dutra, antes da conclusão da aliança, devido ao fato de o PDT ter ocupado cargos no governo Leite. Sobre esse aspecto, Juliana pondera que a participação na atual gestão foi pautada por “independência política e coerência programática”, o que não impede o reconhecimento de políticas públicas que produziram resultados positivos. — Quando o PDT fez parte do governo Leite, eu já não era mais deputada. Mas o nosso partido contribuiu com excelentes quadros durante um período. Eu nunca tive dificuldade de reconhecer o que deu certo, nem de enfrentar aquilo que precisava mudar — explica. Zucco lançou sua pré-candidatura em abril, em um evento com a presença de Flávio Bolsonaro. Ele terá a deputada estadual Silvana Covatti (PP) concorrendo como vice-governadora, além dos deputados federais bolsonaristas Marcel Van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL) na corrida pelo Senado. Para além da nacionalização da campanha, Zucco aposta em ser mais duro nas críticas ao governo local. Ele já definiu a chapa encabeçada por Souza como um “centrão oportunista”, e afirmou que Leite se alinha a Lula ou a aliados ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de acordo com seu “projeto de conveniência”. Ambos chegaram a discutir em um debate realizado pelos veículos locais Correio do Povo e Rádio Guaíba no mês passado: — Isso aqui não é uma ilha. Tem que falar com Brasília, com o Congresso, com o governo federal — afirmou Zucco. — Este governo não tem capacidade política, só fica no Rio Grande do Sul. Este governo fala demais e faz pouco. Souza encaminhou como vice o deputado estadual Ernani Polo (PSD). O ex-governador Germano Rigotto (MDB) e o líder do governo na Assembleia Legislativa, Frederico Antunes (PSD), completam a chapa como pré-candidatos ao Senado. A outra chapa do estado, encabeçada pelo PSDB, tem para o governo o ex-prefeito de Guaíba Marcelo Maranata. Quem completa a composição é o ex-deputado Cláudio Dias (PSDB) como vice, além do jornalista Milton Cardoso (PSDB) e o cantor Renato Jaguarão (Cidadania) para o Senado.