Jovens de baixa renda de estados como Bahia, Amazonas e Maranhão, receberam bolsas para estudar em universidades dos Estados Unidos e voltar ao Brasil com soluções para suas comunidades. O financiamento foi feito pelos apoiadores da Brasa, associação de estudantes brasileiros no exterior, que já mobilizou R$ 3 milhões em bolsas de estudo. Desde criança, a baiana Maria Fernanda Alves tem interesse pelas plantas de Salvador. Explorava a flora ao lado da família, que, junto dos professores, estimulou tanto o estudo da natureza quanto sua determinação na escola. Aos 12 anos, ingressou no Colégio Militar, onde foi reconhecida pelo seu desempenho e acumulou mais de 50 premiações em olimpíadas científicas. Por muito tempo, Alves imaginou que a medicina fosse o único caminho para ajudar sua comunidade. A virada foi gradual. No ensino médio, ao desenvolver o primeiro projeto científico, percebeu que o que via em sala de aula tinha aplicação prática, e deixou de ser apenas estudante para se tornar alguém que aplica o conhecimento. Depois de receber a notícia do diagnóstico de Alzheimer de sua avó, mergulhou nas pesquisas em neurociência e biologia. Com o apoio do professor orientador André Luiz da Costa Ramos, o tenente Costa, construiu parcerias entre o SENAI e o Hospital Geral de Salvador para levar o conhecimento popular sobre plantas ao teste científico. “Muita gente fala que as plantas têm uma aplicação, mas ninguém valida aquele conhecimento porque ele é majoritariamente popular”, diz. Os artigos que redigiu já foram reconhecidos pelo International Journal of Biological Sciences e QualyAcademics, e a jovem também recebeu medalhas da Feira Internacional de Iniciação Científica. Fora dos laboratórios, foi coautora de uma lei estadual que garante a distribuição gratuita de absorventes na Bahia. Maria Fernanda Alves. Selecionados pela Brasa, os premiados vêm de famílias que vivem com até três salários mínimos — Foto: Divulgação Suas duas frentes de pesquisa nasceram de problemas concretos. Para tratar feridas de pacientes com diabetes, criou, ao lado de dois colegas, uma bateria biológica feita a partir do fermento usado em pães e bolos, capaz de gerar uma corrente elétrica fraca o suficiente para não causar dor. A ideia surgiu de uma competição de robótica sobre energia sustentável e da memória afetiva da cozinha da avó. Na segunda frente, investiga plantas com potencial contra tumores. Agora, com 19 anos, a jovem se prepara para uma nova fase da vida, em Nova York. Aceita na Universidade Columbia, onde vai cursar biologia e neurociência, pretende aprofundar as pesquisas. A graduação é bancada por uma bolsa da própria universidade, pela Brasa, e pelo apoio da Fundação Estudar, em parceria com a Fundação Telles, que a selecionou entre dez pesquisadores. “Meu sonho é desenvolver soluções para doenças a partir de recursos acessíveis”, diz Alves. A jovem cientista detalhou suas ambições em um pitch de apenas um minuto que a tornou, mais uma vez, vencedora, ao convencer nomes como Diego Barreto, CEO do iFood, Renato Santos, vice-presidente do BTG Pactual, e Sofia Esteves, fundadora da Cia de Talentos. Essa conquista, segundo ela, é também de sua família. Na época em que prestou o concurso para o Colégio Militar, seus pais deixaram o conforto de lado para bancar seus estudos. “Meus pais abriram mão de ter um carro e de outras coisas para que a gente conseguisse realizar o sonho de ter uma educação de qualidade”, relata. De volta ao Brasil, Alves quer devolver o que recebeu. Desde já, passa a coordenar a expansão da Olimpíada Brasileira de Neurociências e deve criar um comitê local em Salvador, com planos de levá-lo a outros estados do Nordeste. Também pretende ampliar sua divisão de saúde, colocando estudantes em contato direto com a realidade dos pacientes. Assim como Alves, Ada de Oliveira foi contemplada pela Brasa. A jovem nasceu e cresceu entre Manaus e comunidades do interior do Amazonas, como Barroso e Manacapuru. Cercada pelas histórias e pelos saberes das mulheres da família, em um contexto no qual muitas meninas não eram incentivadas a estudar, encontrou na pesquisa uma forma de enfrentar a falta de acesso à saúde no Norte do país. Aluna do Colégio Militar de Manaus e formada em um programa do Hospital Israelita Albert Einstein, Oliveira passou o ensino médio dedicada à pesquisa para tratamento de Alzheimer e câncer de mama. Contra o Alzheimer, testou algo pouco explorado: a eficácia de estímulos sonoros. Contra o câncer de mama, criou uma ferramenta de inteligência artificial capaz de auxiliar no diagnóstico, treinada a partir de dezenas de milhares de imagens médicas. O trabalho ganhou repercussão fora do Brasil e chegou a ser usado por pesquisadores ligados à NASA. “Sem sequer ter um computador próprio, enfrentei o desafio científico também investigado por grupos internacionais”, relatou à Brasa. O reconhecimento veio cedo. Aos 18 anos, tornou-se a primeira amazonense a conquistar um Grand Award na ISEF, a maior feira de ciências do mundo, e hoje é a estudante mais premiada em feiras científicas de todo o Sistema Colégio Militar do Brasil. Também representou o país na Comissão sobre o Status da Mulher da ONU, ao lado do Ministério das Mulheres, e assinou a Latin American Girls Declaration, apresentada na COP30. Agora, Oliveira vai cruzar fronteiras para o mesmo destino de Alves. Aceita na Universidade Columbia com bolsa de quatro anos, estudará biologia computacional e pretende unir pesquisa e empreendedorismo para levar tecnologias acessíveis de saúde ao Brasil. Outro destaque é Iderlan Vale Ferreira, que nasceu em uma comunidade rural de cerca de 200 habitantes no interior do Maranhão. Filho de um lavrador e de uma dona de casa, dependeu de cestas básicas na infância e se tornou o primeiro de sua família, em todas as gerações diretas, a concluir o ensino médio, entrar em uma universidade e cruzar continentes. “Nasci em uma comunidade rural no interior do Maranhão, estado com maior índice de pobreza do Brasil”, afirma. A virada veio quando mobilizou a própria escola pública a disputar a primeira olimpíada científica. Depois de noites em claro estudando por conta própria, conquistou a premiação, que abriu caminho para bolsas de estudo em outros estados. Reuniu 41 medalhas em olimpíadas científicas brasileiras e foi aprovado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e na Universidade Duke, onde hoje cursa economia, psicologia e educação com bolsa integral. Enquanto competia, Ferreira transformou a própria experiência em um projeto. Fundou com colegas os Pitagóricos, iniciativa que prepara gratuitamente estudantes de escolas públicas para olimpíadas científicas e já alcançou cerca de 10 mil jovens, com apoio do Inesp, da Assembleia Legislativa do Ceará. Depois de ser diagnosticado com autismo, criou o Nortear, voltado a estudantes neurodivergentes, com mentorias, materiais adaptados e uma rede de apoio em escolas. Também estagiou no Sebrae Nacional, na Prefeitura de Imperatriz e na Secretaria de Educação do Maranhão, onde ajudou a desenhar políticas para elevar o IDEB de municípios do estado. Para Gabriela Onofre, conselheira da Brasa e CEO do Grupo Publicis Brasil, cabe aos executivos ajudar a alargar o acesso à educação de qualidade. “A educação é a base da prosperidade de qualquer nação e isso é responsabilidade de todos”, afirma. Formada pela Unicamp, diz que foi o ensino público que lhe deu pensamento crítico e base técnica para seguir na carreira executiva. Onofre destaca ainda que a maioria dos bolsistas vm de famílias que ganham até dois salários mínimos e que muitos já lideram iniciativas nas próprias comunidades. “Muitas vezes o que eles precisam é apoio financeiro, impulso”, diz, ao acompanhar de perto as apresentações dos jovens. Para Barreto, do iFood, apoiar esses jovens é um dever. “A sensação é de pura obrigação”, relata. Ele defende que quem detém capital tem a responsabilidade de transformar essa realidade e argumenta que o esforço financeiro para viabilizar a ida de um estudante a uma universidade de ponta é baixo diante do retorno. Na opinião do executivo, o país costuma transferir ao Estado uma responsabilidade que também é privada. Quem detém os recursos privados também tem o dever de investir no futuro do país”, diz. O executivo conta que, depois de definidos os selecionados, procurou a Brasa para conhecer os jovens que ficaram de fora por restrições de orçamento, com o objetivo pessoal de ajudar a bancar a ida deles. O que mais o marcou, afirma, foi a quantidade de talentos no país. “O talento não é um recurso escasso no nosso país; ele está disponível, só precisa de ser descoberto e apoiado”, observa. “Essa foi uma das experiências mais emocionantes que vivi nos últimos tempos”, revela Esteves, da Cia de Talentos. Ela ressalta que o programa se mantém com doações de pessoas físicas, ONGs e empresas parceiras, sem as quais não existiria, e cobra dos empresários que se envolvam. “Se não unirmos esforços, vamos continuar perdendo mentes brilhantes”, afirma. Esteves destaca que muitos dos participantes são estudantes de escolas públicas de regiões remotas que aprendem até mesmo a língua inglesa sozinhos. A obstinação dos jovens a impressionou “Isso me dá ainda mais esperança de que a nossa juventude vai conseguir melhorar o nosso país”, declara. Fundada como Brazilian Student Association em 2014, a Brasa é uma associação de estudantes brasileiros no exterior, que possui 15 mil membros e está presente em 125 locais. Seu programa de bolsas, criado em 2018, reúne as iniciativas Bolsas Brasa e Brasa Blacks, esta voltada exclusivamente a estudantes negros, e é mantido por doações de pessoas físicas, ONGs e empresas. Segundo a entidade, o programa já formou uma rede de 60 bolsistas em 11 estados, de todas as regiões do país, com R$ 3 milhões destinados a bolsas de estudo e mais de 500 doadores mobilizados.