Às vésperas do encontro com Haaland, a seleção começa a aprender com um treinador que quase nunca se explica e fez da calma uma maneira de sobreviver 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira — Foto: Ronaldo Schemidt / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 18:51 Seleção Brasileira Enfrenta Noruega com Serenidade de Ancelotti Às vésperas do confronto com Haaland, a seleção brasileira começa a absorver a calma do técnico Ancelotti, que, mesmo discreto, foi eficaz na vitória contra o Japão. Conhecido por sua serenidade e capacidade de lidar com o caos sem tentar controlá-lo, Ancelotti transformou a equipe, que agora enfrenta a Noruega com mais confiança nas próprias imperfeições. O desafio será manter essa serenidade frente a um adversário imprevisível como Haaland. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na segunda-feira, depois da virada sobre o Japão, circulou um post que dizia mais ou menos assim: eu teria tirado Casemiro, não teria colocado Martinelli; os dois fizeram os gols, Ancelotti tem cinco Champions League e amanhã eu acordo às seis da manhã para trabalhar. A graça estava menos na autodepreciação do torcedor do que naquela capitulação tão própria do futebol. Durante quase duas horas, todos nós brasileiros tivemos ideias melhores. No fim, o italiano calado no banco estava classificado. A frase sobreviveu ao jogo porque explica algo maior do que duas escolhas acertadas. Ainda tentamos compreender Ancelotti pelos sinais que ele não dá. É uma figura ao mesmo tempo simpática e obtusa: faz piadas nas entrevistas sem permitir que o rosto participe muito delas, trata os jogadores com uma delicadeza visível, mas raramente nos oferece acesso ao que está sentindo. Enquanto outros treinadores ocupam a área técnica como quem disputa também o protagonismo do espetáculo, ele observa. Sua unidade mais eloquente de comunicação corporal continua sendo uma sobrancelha levantada, à qual cabe a tarefa de expressar surpresa, desconfiança, ironia, contrariedade e, em tardes mais movimentadas, todas as anteriores. Há uma distância parecida entre o que seus times fazem e aquilo que gostaríamos que explicassem. Nem sempre são brilhantes, dominantes ou especialmente interessados em oferecer uma demonstração pública de superioridade. Podem passar longos períodos dando razão aos críticos, cedendo espaços, dependendo do talento individual e parecendo menos organizados do que o adversário. Muitas dessas críticas, aliás, são corretas. A questão é que Ancelotti nunca pareceu particularmente preocupado em vencê-las. Ele prefere continuar no jogo até encontrar uma maneira de vencer não as críticas, mas o próprio jogo. Foi assim muitas vezes no Real Madrid. Havia noites em que o adversário pressionava melhor, controlava a bola, criava as melhores chances e parecia ter produzido uma explicação mais sofisticada para o futebol. Então o relógio avançava, o estádio mudava de temperatura, algum grande jogador encontrava um espaço e, quando a partida acabava, Ancelotti estava outra vez na final. Seus times não costumam anunciar a própria evolução. Às vezes, só percebemos que evoluíram quando eles já estão comemorando com a taça na mão. É possível chamar isso de ancelottismo? Não se trata exatamente de uma formação, de um sistema defensivo ou de uma maneira específica de levar a bola de uma área à outra. É uma forma de permanecer. Ancelotti não elimina o caos — seus times, na verdade, frequentemente convivem com ele —, mas tenta impedir que o caos tome as decisões. Há treinadores obcecados por controlar tudo o que acontece em campo. Ele parece mais interessado em controlar aquilo que o jogo provoca dentro das pessoas. A partida contra o Japão foi a expressão mais nítida desse método até agora. Dias depois, já sem a urgência daquele gol aos 50 minutos, o que permanece não é apenas a lembrança da virada, mas a diferença entre as duas reações. De um lado, um país inteiro se esgoelando, o banco invadindo o campo, jogadores correndo sem saber exatamente para onde. Do outro, Ancelotti ajeitando os óculos e pedindo calma. Ainda havia jogo. Alguém precisava se lembrar disso. Não era indiferença. No intervalo, contaram os atletas, ele havia mexido na forma de atacar, pedido mais presença na área e, principalmente, tentado convencer os jogadores de que a derrota parcial não exigia desespero. Casemiro, que muitos teriam retirado, empatou. Martinelli, que talvez não fosse a primeira escolha de quase ninguém, entrou e fez o gol da classificação. Ancelotti não havia previsto cada movimento, naturalmente. Não é gênio, como falou à Folha. Apenas preservou o time tempo suficiente para que uma saída aparecesse. Também não é tonto, disse, humilde, na mesma entrevista. É cedo para saber o tamanho real dessa transformação, mas alguma coisa aconteceu com a seleção ao longo da Copa. O Brasil continua irregular, ainda atravessa períodos ruins e está longe de se tornar a equipe irresistível que sua história nos ensinou a exigir. A diferença é que parece um pouco menos apavorado com as próprias imperfeições. Ancelotti vai ganhando pequenas disputas sem fazer propaganda: estabeleceu uma hierarquia, recuperou jogadores, diminuiu o ruído em torno do grupo e devolveu a ele certa confiança de que uma partida ruim não precisa terminar mal. No domingo, essa convicção estará diante de um teste mais ameaçador, com quase dois metros de altura, força descomunal e o hábito de transformar uma oportunidade em gol. Haaland passou boa parte da partida contra a Costa do Marfim discreto. Aos 41 minutos do segundo tempo, apareceu para decidir a classificação norueguesa. Há algo de ancelottiano nisso também: sobreviver ao período em que o jogo parece pertencer ao adversário e esperar que o talento faça, no instante certo, aquilo para o qual foi colocado ali. A Noruega não permitirá ao Brasil a ilusão de que a vitória sobre o Japão resolveu todos os seus problemas. Haaland não costuma precisar de uma sequência de erros; basta um. O próximo passo do ancelotismo pode ser este: descobrir se a serenidade capaz de sustentar uma reação também serve para evitar que um jogo contra um atacante assim escape num único lance. Pode não dar em nada, porque uma Copa do Mundo não respeita trajetórias, processos ou textos escritos antes das partidas. Mas pode dar em muita coisa. Em mata-matas, chega longe quem encontra uma saída depois que o plano deixou de funcionar, quem não confunde dificuldade com condenação e quem ainda consegue pensar quando todo mundo ao redor já está apenas sentindo. O Brasil não se tornou campeão na segunda-feira. Mas pode ter começado a aprender uma qualidade comum aos times de Ancelotti: eles raramente parecem tão próximos da vitória quanto no instante em que nós começamos a achar que ela não virá. A sobrancelha sobe. A Copa segue.