A organização não governamental é, de acordo com seu estatuto, uma entidade de direito privado, sem participação oficial do governo do Rio 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sem fronteiras. A sede da ONG RioSolidário, em Laranjeiras, na Zona Sul: entidade está com cargos vagos desde que diretores foram exonerados do estado — Foto: Alexandre Cassiano RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 22:52 Investigação Revela Irregularidades e Improbidade na ONG RioSolidário A ONG RioSolidário, criada em 1995, é historicamente influenciada por primeiras-damas do Rio e visa promover justiça social através da educação e cidadania. Investigação revela que diretores da ONG ocupavam cargos no governo estadual, recebendo altos salários sem exercer funções, configurando possíveis irregularidades administrativas. Especialistas apontam para possíveis atos de improbidade devido à mistura de interesses públicos e privados. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Criada em 1995, a ONG RioSolidário é um reduto histórico de influência das primeiras-damas do governo fluminense. É praxe que, a cada novo mandato, elas assumam a presidência de honra da instituição e passem a conduzir projetos sociais. Na apresentação do seu site oficial, é definida como "uma instituição que atua na promoção da inclusão social, da cidadania e do desenvolvimento humano no Estado do Rio de Janeiro" A organização não governamental é, de acordo com seu estatuto, uma entidade de direito privado, sem participação oficial do governo do Rio. O raio-x das exonerações de comissionados promovidas pelo Palácio Guanabara, no entanto, mostra que integrantes da direção do RioSolidário ocupavam cargos na Secretaria da Casa Civil, com salários mensais de quase R$ 10 mil. Como O GLOBO mostrou ontem, a Controladoria-Geral do Estado identificou que todos os 77 órgãos da administração fluminense tinham comissionados que não trabalhavam. Foi o que se verificou nos casos da ex-diretora executiva Ana Carolina Chateaubriand e do ex-diretor financeiro Gilbrando Freitas. Ambos foram nomeados na Casa Civil ao assumirem suas funções na ONG, e, agora, exonerados ao serem incluídos na lista de “alta criticidade” — nome técnico para qualificar comissionados que, aparentemente, são fantasmas. No mesmo dia Eleito diretor financeiro em 18 de agosto de 2023, o contador Gilbrando Freitas ganhou, no mesmo dia, um cargo de assessor na Superintendência de Projetos Sociais da Casa Civil, onde ficou lotado até abril, quando foi exonerado na varredura que o governo Ricardo Couto está promovendo. Pelo cargo, ele recebia R$ 13 mil brutos e deveria cumprir uma carga horária de 40 horas semanais. No entanto, seu local de trabalho era na ONG, onde, segundo afirmou em uma rede social, fazia a gestão “financeira de aproximadamente R$ 15 milhões anuais distribuídos entre oito e dez projetos sociais simultâneos”. Somente em convênios com o estado, a entidade recebeu quase R$ 6 milhões em 2025. Houve recursos ainda da prefeitura, de empresas e de emendas parlamentares. No sistema eletrônico de processos, Gilbrando aparece pouco, mas sempre assinando documentos relacionados ao RioSolidário nos projetos da ONG financiados pelo estado. Sua baixa atividade gerou um alerta para a equipe de Tecnologia da Informação do governo. Em março, os técnicos questionaram a Secretaria da Casa Civil se ele ainda estava trabalhando e se era para manter o login dele ativo, já que o comissionado não acessava o sistema havia seis meses. Um aviso semelhante foi gerado pela falta de acessos de Ana Carolina Chateaubriand, que, apesar de ter ficado nomeada de agosto de 2023 a abril deste ano, nunca registrou entrada no sistema eletrônico. A diretora-executiva também tinha um cargo comissionado na mesma subsecretaria de Gilbrando, e recebia o mesmo salário do colega. Na última semana, O GLOBO tentou contato com os dois. No RioSolidário, funcionários afirmaram que eles não dão mais expediente na ONG. No endereço indicado por Gilbrando ao governo em sua nomeação, um funcionário afirmou que ele tinha um apartamento no local, mas não morava lá. Já Ana Carolina Chateaubriand foi localizada em seu apartamento em Niterói. Ela se negou a dar entrevista, dizendo apenas que o “pessoal do gov” havia se pronunciado em seu nome. Em nota, o governo estadual confirmou que os dois diretores eram nomeados na Casa Civil e desempenhavam funções de direção no RioSolidário. Disse ainda que ambos “exerciam suas atividades regularmente, conforme os registros de ofícios e e-mails”. O Palácio Guanabara frisa ainda que, atualmente, não “há qualquer funcionário do RioSolidário vinculado a secretarias ou órgãos estaduais”. Há duas semanas, a então presidente do RioSolidário, Paola Figueiredo, também nomeada no governo, renunciou ao cargo na ONG e foi transferida da Casa Civil para a Secretaria da Mulher e Políticas Inclusivas. Ela afirma que seu trabalho “sempre teve natureza institucional” e que a saída “não decorreu do reconhecimento de qualquer irregularidade ou incompatibilidade no exercício das funções”. Hoje a ONG está com os cargos da diretoria vagos. O estatuto social da entidade define que os cargos na ONG não são remunerados e que podem até ser ocupados por quem integra os quadros do serviço público. No entanto, o artigo 31 alerta: isso só pode ser feito “sem prejuízo das obrigações inerentes aos cargos que ocupam”. Especialistas ouvidos pelo GLOBO explicam que o poder público não pode financiar uma instituição privada, mesmo sendo uma ONG sem fins lucrativos. O jurista Lenio Luiz Streck, especialista em Direito Administrativo, critica a aparente mistura do privado com o público. — Nós nos especializamos em dar o drible da vaca no sistema. Não é possível que haja obscuridades ou desvio de finalidades em ONGs como a mistura de diretores com secretarias. Isso é absolutamente vedado e pode ser improbidade — diz. O advogado Hermano Carbenite concorda e diz que essa relação pode caracterizar ilícito administrativo, ato de improbidade e até crime: — Se o cargo comissionado existe apenas para remunerar pessoas que, na prática, trabalham na ONG, o estado estaria financiando indiretamente uma entidade privada mediante recursos humanos pagos pelo erário. A jurisprudência dos tribunais tem reconhecido que o recebimento de remuneração por servidor que não exerce as funções do cargo configura grave ofensa aos princípios da administração pública, especialmente os da moralidade, legalidade e eficiência. Na sede do RioSolidário, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, a intimidade dos funcionários com os ex-diretores é notada nas referências aos nomes dos dois: Ana Carolina é “Carol” e Gilbrando, “Gil”. Durante uma das três visitas da reportagem do GLOBO ao local, na semana passada, um caminhão descarregava doações, que seriam destinadas às três creches geridas pela instituição. A sede da ONG também já ofereceu cursos livres, suspensos recentemente, segundo funcionários, após “a mexida no RioSolidário”, numa referência às baixas na diretoria. Analine nega nomeações Durante uma visita, o fotógrafo do GLOBO foi abordado por dois homens. Em tom ameaçador, um deles falou: — Aí, chefia. Você é do estado? Sabe que o prédio é do estado, né? Nos bastidores da política, as nomeações do RioSolidário na Casa Civil são creditadas à ex-primeira-dama Analine Castro, que foi presidente de honra da instituição até a renúncia de Castro. Em suas redes sociais, ela posta frequentemente em ações da ONG e com seus funcionários. Em nota, ela diz que “nunca teve participação em nomeações, contratações, composição da diretoria ou qualquer decisão administrativa do RioSolidário” e que o cargo de presidente de honra “é simbólico, exercido tradicionalmente pelas primeiras-damas há mais de 30 anos, sem remuneração e sem função executiva”.