Ex-número 2 de Marina Silva fala das ‘contradições’ internas herdadas da antecessora, lamenta que autoridade climática tenha ficado na promessa, cita ‘garantias’ para asfaltar a BR-319 e detalha contenção ao ‘Super El Niño’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco — Foto: Gabriel Reis/Valor/20-3-2026 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 22:38 Tensões entre ministérios atrasam plano de Lula contra fósseis, diz Capobianco João Paulo Capobianco, ministro do Meio Ambiente, revela que tensões entre ministérios atrasam o plano para eliminar combustíveis fósseis, prometido por Lula. Ele destaca a necessidade de atender à pobreza energética e as dificuldades para pavimentar a BR-319 sem comprometer o meio ambiente. Capobianco lamenta a não criação da autoridade climática e discute ações para conter o "Super El Niño". CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Prometido para fevereiro, o mapa do caminho nacional para o fim dos combustíveis fósseis atrasou em meio a “tensões” internas no governo federal, admite o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco. Sucessor de Marina Silva, que deixou a pasta para disputar as eleições, ele prevê para as próximas semanas a entrega do plano anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a frustração com a COP30, cujo documento final ignorou a transição energética. Assim como a antecessora, de quem foi braço direito, Capobianco enfrenta os desafios de uma gestão que se divide entre a defesa pública da pauta ambiental e alas desenvolvimentistas, que pregam o foco na agenda econômica e de entrega de obras, por exemplo. Um dos eixos de atrito é a BR-319, via que liga Manaus (AM) e Porto Velho (RO) cruzando o coração da Amazônia. Em entrevista ao GLOBO, o ministro nega que os editais em curso para obras na rodovia sejam para asfaltamento. Segundo Capobianco, a pavimentação só ocorrerá caso condicionantes de proteção ambiental sejam cumpridas. Ele também lamenta que a autoridade climática, promessa de campanha de Lula, não tenha saído do papel neste mandato e explica as ações da pasta para conter o “Super El Niño”. Leia a entrevista completa: Em dezembro, Lula deu 60 dias para a elaboração de um mapa do caminho nacional para o fim dos combustíveis fósseis pelos ministérios de Meio Ambiente, Fazenda, Minas e Energia e Casa Civil. Por que o documento ainda não está pronto? O mapa do caminho envolve toda a sociedade. Estamos falando em transitar, em um prazo a ser definido, para um cenário de afastamento dos combustíveis fósseis. Os quatro ministérios ficaram com a responsabilidade de propor uma primeira etapa, que é definir as diretrizes, as metas a serem alcançadas e o cronograma. Chegamos a 95% de entendimento para fechar essa fase. Ainda existe uma contradição, uma complexidade, que faz com que a discussão ainda esteja em curso. Estamos trabalhando para que o plano seja lançado nas próximas semanas. Quais são essas contradições? Ao mesmo tempo em que o Brasil deseja fazer a transição, temos um problema de pobreza energética. Há regiões e populações que estão abaixo da linha mínima de oferta necessária para uma boa qualidade de vida. Nelas, o combustível fóssil é a fonte para oferecer energia para comunidades isoladas. O governo tem feito um esforço enorme para ampliar a geração de energia — inclusive a renovável — e as linhas de transmissão para atender o país, mas (o resultado desejado ainda) não é a realidade hoje. Então, surge uma questão. Como vamos fazer essa transição considerando que temos que combater essa pobreza energética? É uma tensão entre os ministérios. Como vou abrir mão de uma fonte de energia ou acelerar a redução do uso se ainda tenho que resolver demandas que estão colocadas hoje? Surgem discussões. Qual a posição do Ministério do Meio Ambiente? Defendemos ser necessário definir trajetória e metas no mapa do caminho, mas há dúvidas em parte do governo. Há temor em assumir objetivos e não conseguir cumpri-los, de modo a causar a perda da credibilidade do plano. Isso gera conversas e ajustes mais demorados do que gostaríamos. Estamos trabalhando para achar um caminho que seja considerável viável para todos. O senhor vê o Meio Ambiente mais distante da Presidência do que áreas que pressionam por licenciamentos, por exemplo? Existe uma relação muito equânime. O presidente Lula tem prestigiado a questão ambiental de forma absolutamente visível. A orientação do governo é a composição. No momento em que o Congresso propôs uma fragilização da legislação ambiental, o governo como um todo trabalhou contra. Não há posição de nenhum ministro a favor de mudar a legislação para acelerar licenciamentos sem critério. O que há (dentro do governo) é uma demanda para que se possa ter mais agilidade, com qualidade, nos processos de licenciamento. Para isso, o governo tem respondido com concurso público na área ambiental. Como o senhor enxerga o avanço das obras da BR-319? Os editais lançados pelo governo são para asfaltamento? Não é um asfaltamento. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte, o Dnit, possui uma licença de manutenção, que não permite, por exemplo, mudança de eixo, elevação de talude ou correção de curva. O Dnit agora apresentou uma tecnologia na qual usa asfalto com um material ligante para permitir que a manutenção tenha maior longevidade. Há críticas dizendo que isso seria um asfaltamento, mas não é. O que falta, então, para que seja permitido o asfaltamento nesta via, que corta uma das áreas mais preservadas da Amazônia? A estrada já tem uma licença prévia, e o Dnit está apresentando todos os estudos necessários para entrar no processo de licenciamento de instalação. Essa licença vai ser concedida apenas caso todas as questões colocadas para governança, como a garantia de não abertura de ramais e a criação das unidades de conservação no entorno da via, sejam implementadas. É um trabalho desenvolvido pelos ministérios do Meio Ambiente e o dos Transportes, junto a outras pastas como a Casa Civil. Todos estão envolvidos nesse trabalho para fazer desta obra um caso de sucesso, inclusive melhorando as condições ambientais e de vida da população que lá vive. O senhor é favorável à exploração de petróleo na Foz do Amazonas? A concessão de uma licença para perfuração pelo Ibama ocorreu na véspera do fim do contrato do navio sonda da Petrobras e gerou reações de ambientalistas. Como ministro do Meio Ambiente, não posso ser a favor ou contra. O papel da pasta é assegurar que essa atividade, caso vá a ocorrer, seja realizada dentro das normas legais. O Ibama foi extremamente rigoroso e só liberou uma licença, que é para pesquisa, quando todas as exigências foram atendidas. Em nenhum momento o Planalto ou qualquer agente público tentou convencer o Ibama a reduzir as suas exigências. O que ocorreu foi que o Ibama apresentou as condicionantes e a Petrobras foi obrigada a seguir, tendo atuado para atendê-las. A criação de uma autoridade climática foi uma promessa de campanha de Lula que não saiu do papel. Por quê? A autoridade climática teria um papel que o ministério considera muito importante na gestão de risco e na mobilização do governo para garantir a implementação dos planos de adaptação e mitigação climática. Mas ainda não vingou. É um processo complexo porque envolve a criação de uma nova instituição, o que exige composições com várias áreas, inclusive com o Congresso Nacional. Ainda não chegamos lá. A expectativa é que isso seja discutido no caso de um novo mandato. Quais outras promessas de Lula não cumpridas neste mandato o senhor espera que estejam no programa de um próximo governo do presidente? Não tenho como enumerar o que foi prometido e não foi cumprido. O que acontece é que, em um governo com múltiplas demandas, muitas vezes, ao olharmos setorialmente para a nossa área, gostaríamos que as coisas fossem mais rápidas. Para um próximo governo, diria ser fundamental, de fato, garantir que as medidas de transformação ecológica tenham continuidade. O desmatamento caiu durante o mandato de Lula, mas as queimadas permanecem em patamares altos. Há o temor de que a chegada do “Super El Niño” traga mais fogo ao país? O “El Niño” é um evento já conhecido. O problema é quando ele chega em um cenário de agravamento da crise climática. Ocorre uma sinergia entre o fenômeno natural e a situação climática atual, o que aumenta o potencial de impacto. O Brasil tem florestas naturalmente úmidas, mas as mudanças nas temperaturas vêm tornando a vegetação mais suscetível a incêndio. É um fato novo, que tem nos surpreendido. Que ações vêm sendo tomadas para enfrentar esse cenário? Tivemos uma série de ações desde 2024. Fomos ao Congresso para trabalhar pela aprovação de lei do manejo integrado do fogo, que é importantíssima por redistribuir a responsabilidade pelos incêndios. Ampliamos a capacidade de contratação de brigadistas e usamos dinheiro do Fundo Amazônia para financiar os Corpos de Bombeiros na Amazônia e nas bordas de Cerrado e Pantanal. Estamos fazendo um trabalho de capacitação, além de uma forte campanha de opinião pública explicando o risco. Se não agirmos em cooperação no país e com maior eficiência, teremos problemas sérios. Sem uma adesão forte da sociedade neste momento, não vamos conseguir enfrentar a situação.
Entrevista: Capobianco diz que 'tensão entre ministérios' atrasa mapa do caminho e cita garantias para asfaltar BR-319
Ex-número 2 de Marina Silva fala das ‘contradições’ internas herdadas da antecessora, lamenta que autoridade climática tenha ficado na promessa, cita ‘garantias’ para asfaltar a BR-319 e detalha contenção ao ‘Super El Niño’






