Inclusive, um dos grandes lançamentos do período foi “As Copas de Nelson Rodrigues”, box que recupera, em três volumes, 150 colunas do camisa 10 da crônica brasileira (142 delas inéditas em livro e publicadas originalmente no GLOBO). Recomenda-se vivamente a leitura dessas crônicas a torcedores que não estejam muito confiantes no desempenho da seleção contra a Noruega no jogo de amanhã. “Quando começa a guerra, e o Brasil começa a dar suas rútilas botinadas, é (preciso) que o brasileiro seja apenas torcedor”, escreveu o “anjo pornográfico” na Copa de 1970, desancando aqueles que encaravam o escrete canarinho com “imparcialidade”. “O que o Brasil espera de todos nós é amor”, decretou o cronista, inimigo feroz do “velho e sinistro derrotismo brasileiro”. A verdade é que o ludopédio se esgueirou pelos mais diversos gêneros literários. É o fio condutor do romance “As regras”, de Lilian Sais, no qual a narradora enlutada revisita a relação com pai por meio de memórias relacionadas ao esporte, da orgulhosa campanha do tetra, em 1994, à Copa do Catar, em 2022. E é o tema de “Futebol lado B”, bem-humorado almanaque do jornalista Ariel Palacios que enfileira curiosidades sobre o esporte mais popular do planeta (sabia que Shakespeare já falava do esporte “bretão” em “Rei Lear”, 250 anos antes da oficialização do jogo?). O futebol, é claro, não foi o único tema de peso tratado pelos principais lançamentos dos últimos seis meses. A partir de uma extensa pesquisa de campo, “Parcelado”, do geógrafo Kauê Lopes dos Santos, mostrou que os novos padrões de consumo possibilitados pela expansão do crédito nos anos 2000 de fato permitiram que populações de baixa renda conquistassem acesso a bens duráveis e tivessem maior qualidade de vida, mas também às condenou ao endividamento crônico. O livro saiu em abril, quando um dos assuntos mais urgentes do noticiário era o impacto que a situação de muitas famílias teria na avaliação do governo Lula e na disputa eleitoral de outubro. Golaço. Pouco antes, haviam chegado às livrarias títulos sobre outro pesadelo contemporâneo: o avanço do autoritarismo. Em “A ameaça interna”, o filósofo Vladimir Safatle argumenta que o fascismo não é um corpo estranho que toma de assalto as democracias, mas uma potencialidade das sociedades liberais que se desenvolve quando as crises se tornam a normalidade. Já o cientista alemão Marcelo Dirsus entrevistou golpistas, dissidentes e militares para explicar, em “Como os tiranos caem”, de que maneira o poder escapa das mãos dos ditadores e as nações sobrevivem ao autoritarismo. Mais do que uma análise do funcionamento das ditaduras, é um livro que ensina a derrubá-las. Poemas e romances O primeiro semestre de 2026 não conheceu nenhum fenômeno de vendas como foram os livros de colorir no ano passado. Segundo o Panorama de Consumo de Livros, pesquisa encomendada pela Câmara Brasileira de Livros (CBL) e realizada pela Nielsen BookData, em 2025, cerca de 11 milhões de brasileiros (7,1% da população adulta e 40 do público consumidor de livros) comprou ao menos um livro de colorir. Ainda assim, o mercado editorial brasileiro vive um bom momento. De acordo com o mais recente Painel do Varejo de Livros no Brasil, pesquisa da Nielsen e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, no acumulado do ano (até 17 de maio), o setor cresceu 11,8% em vendas e 12,3% em faturamento em relação ao mesmo período de 2025. A pujança do mercado tem se refletido em mais investimento na ficção, seja nacional ou estrangeira. Embora 2026 ainda esteja na metade, há pistas seguras de que um dos principais livros nacionais do ano (senão o principal) será “Os imortais”, da brasiliense Paulliny Tort, que estará na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 22 e 26 deste mês. Ambientado na Pré-História, num mundo anterior ao pleno desenvolvimento da linguagem, o romance narra a jornada de um clã de neandertais e seus embates com uma menina sapiens que é incorporada ao bando. O livro vem colecionando elogios entusiasmados da crítica, é um sucesso do boca a boca e já teve os direitos de tradução vendidos para seis idiomas (inglês, espanhol, catalão, francês, italiano e polonês). Na seara nacional, também merece atenção a antologia “Música de mortos suaves”, que reúne contos inéditos de Ricardo Guilherme Dicke, figura de proa da literatura produzida no Centro-Oeste, localizados no arquivo do escritor pelo pesquisador Rodrigo Simon de Moraes. Hilda Hilst jurava que Dicke escrevia mais bonito do que Guimarães Rosa. Aliás, quem se interessa pela história da ficção nacional ganhou dois presentes este semestre. Saíram “Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade”, a dissertação de mestrado de Conceição Evaristo, na qual ela forjou o conceito de “escrevivência”, e “Uma história da literatura brasileira contemporânea”, de Regina Dalcastagnè, um painel da produção nacional de 1970 a 2025. Na estante de literatura estrangeira, destacam-se duas obras de poesia que têm em comum uma certa qualidade espiritual. “Vidro, ironia e deus”, da canadense Anne Carson, conhecida por seu diálogo profícuo com os clássicos, ecoa o Antigo Testamento ao descrever o quão terrível pode ser o encontro com o divino. “Sua vida quebrando-se”, primeira antologia brasileira do chileno Raúl Zurita, também é pródiga em referências bíblicas: num poema, o território de seu país se confunde com o corpo do Cristo crucificado: “Uma só face com os braços abertos: uma ampla face/ coroada de espinhos.” Cotado para o Nobel de Literatura, Zurita foi perseguido pela ditadura de Augusto Pinochet. Também aportaram por aqui novos livros de autores que já têm público cativo entre nós, como a argentina Mariana Enriquez, que transforma o corpo em cenário de horror nos contos de “Um lugar ensolarado para gente sombrio”, e o italiano Sandro Veronesi, autor do best-seller “O colibri”, que veio à Feira do Livro, em São Paulo, divulgar “Caos calmo”, romance sobre um homem que não percebe o quanto está transtornado pelo luto. O mestre inglês Ian McEwan lançou uma das obras mais celebradas de sua carreira: “O que podemos saber”. Ambientado em 2119, num mundo arrasado pelo apocalipse climático e por conflitos internacionais, o romance é protagonizado por um professor que busca obsessivamente um poema desaparecido há mais de um século. É uma boa ficção para ler depois da Copa, quando não pudermos mais driblar a realidade.
Os livros do ano (até agora): confira 50 destaques literários do primeiro semestre de 2026
De obras dedicadas ao futebol a grandes histórias da ficção nacional e estrangeira, confira que lançamentos dos últimos seis meses merecem atenção
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