Escassez de combustível causada por ataques da Ucrânia rompe um dos pilares da sensação de estabilidade cultivada pelo Kremlin desde o início do conflito 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Motoristas fazem fila para abastecer em posto da Rosneft, em Moscou, após restrições à venda de combustível em meio à crise de abastecimento — Foto: Alexander Nemenov / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 14:36 Crise de Combustível na Rússia: Faltas e Filas Atingem País Inteiro A Rússia enfrenta uma escassez inédita de combustível, resultado dos ataques ucranianos a refinarias russas, rompendo a sensação de estabilidade promovida pelo Kremlin. Longas filas em postos de gasolina se espalham por todo o país, desde a Crimeia até a Sibéria, refletindo o impacto da guerra no cotidiano russo. Autoridades admitem negociar importações de petróleo e consideram flexibilizar normas de qualidade para a gasolina. A crise desafia a gestão de Vladimir Putin, que tenta minimizar o problema, enquanto cresce a insatisfação popular. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Alyona Sadovnikova enfrentou pela primeira vez a falta de gasolina em meados de junho, quando parou em um posto e foi informada de que o local só atendia clientes com cupons de racionamento. “Fiquei horrorizada: estamos na União Soviética agora, onde era preciso ter cupons para comprar linguiça?”, disse ela em entrevista por telefone. Poucos dias depois, Sadovnikova passou 18 horas na fila para abastecer na cidade de Irkutsk, no leste da Sibéria, a quase 4,8 mil quilômetros da fronteira com a Ucrânia. À medida que a Ucrânia intensifica seus ataques à infraestrutura petrolífera russa — incluindo instalações localizadas em áreas profundas do território — refinarias em todo o país foram obrigadas a interromper as operações para longos reparos. Isso provocou um tipo de escassez de combustível que muitos russos jamais haviam visto ao longo da vida. O problema começou na Crimeia ocupada em maio, e desde então se espalhou pela Rússia continental e até pela Sibéria. A situação se tornou tão grave que autoridades russas disseram nesta semana estar em negociações para avaliar a importação de petróleo de outros países — admissão surpreendente para o terceiro maior produtor de petróleo do mundo. Na sexta-feira, autoridades de Novorossiysk, sede do maior terminal de exportação de petróleo da Rússia, anunciaram a suspensão da venda de gasolina para pessoas físicas. As longas filas nos postos são um dos exemplos mais visíveis e concretos de como a guerra contra a Ucrânia está afetando o cotidiano na Rússia, além de representar um desafio para o presidente Vladimir Putin, que tem se esforçado para conter qualquer oposição ao conflito. A frustração chegou a tal ponto que motoristas exasperados, após horas de espera, chegaram a trocar socos nas filas. “A escassez de gasolina já não é apenas uma questão econômica — é um teste para a capacidade do governo de administrar uma crise aguda que atinge o coração da normalidade do dia a dia”, escreveu o analista político moscovita Ilya Grashchenkov em uma nota de pesquisa. ‘Um choque completo’ Apenas duas regiões russas — a pouco povoada Chukotka, no Extremo Oriente, e Kalmykia, no sul do país — não registraram falta de combustível nem restrições às vendas, segundo jornais independentes. As filas nos postos se tornaram uma cena comum, e sites colaborativos surgiram para acompanhar a disponibilidade de combustível em cada posto. Até 20% dos motoristas de táxi do país estão optando por ficar em casa por causa das longas filas, informou o jornal russo Kommersant. As regiões densamente povoadas ao redor da capital russa parecem ser as mais vulneráveis ao desabastecimento. A Refinaria de Moscou e uma importante refinaria no Tartaristão, cerca de 960 quilômetros a leste da capital, que juntas respondem por 10% da capacidade de produção de gasolina da Rússia, teriam interrompido as operações após ataques. Na tarde de quarta-feira, dezenas de motoristas congestionavam a movimentada rodovia entre Moscou e São Petersburgo, formando fila em um dos poucos postos que ainda tinham combustível. A cena é completamente incomum para russos que cresceram em um país marcado pela abundante produção de petróleo. A geração mais velha, que “viu as prateleiras vazias dos supermercados” durante o colapso da União Soviética, está psicologicamente mais preparada, disse Boris Nadezhdin, político de oposição de 63 anos. — Mas, para quem tem entre 20 e 30 anos, isso é um choque completo. Postos fechados Embora o governo tenha subsidiado as petroleiras para manter o combustível acessível, os preços vêm subindo. O preço médio por litro na última semana de junho foi de US$ 0,93 (R$ 4,82), alta de 1,6% em relação à semana anterior, segundo a agência oficial de estatísticas da Rússia. Nos postos independentes de Grozny, capital da Chechênia, o preço passou de cerca de 70 rublos (R$ 4,67) por litro para até 100 rublos (R$ 6,74), disse um cliente identificado apenas como Said-Hasan, de 42 anos, que pediu para não ter o sobrenome divulgado. Os postos da estatal Rosneft mantiveram os preços baixos, mas atraem filas enormes. Said-Hasan contou que fez uma curta viagem até a vizinha Inguchétia nesta semana para comprar combustível mais barato, embora só pudesse abastecer até 30 litros por causa do racionamento. Postos menores e independentes no sul do país permanecem vazios, isolados por cones de trânsito e placas informando “Sem gasolina”, segundo Alexander, motorista profissional de 33 anos que percorre as regiões de Krasnodar e Rostov. Ele também pediu que seu sobrenome fosse omitido. Pelo menos um terço dos postos de gasolina de Krasnodar, a terceira maior região da Rússia, está fechado, afirmou o vice-governador Evgeny Pergun ao Legislativo local na quarta-feira. Alguns russos recorreram ao humor para enfrentar a situação. Em uma publicação que viralizou, um blogueiro imaginou que usuários de um popular aplicativo de transporte em breve poderiam escolher um cavalo entre as opções de corrida. Longas filas A escassez parece ser especialmente grave no leste da Sibéria e no Extremo Oriente. As filas na região de Irkutsk ficaram tão longas que as autoridades prometeram instalar banheiros químicos ao longo das rodovias para atender os motoristas. O governador local, Igor Kobzev, decretou estado de alerta elevado — um nível abaixo do estado de emergência — no domingo. Ao lado do marido e do filho de 18 meses, Sadovnikova entrou na fila de um posto às 23h da sexta-feira passada. Só conseguiu abastecer às 17h do dia seguinte. A família usou os banheiros e a loja de conveniência do posto durante a espera. Segundo ela, outras pessoas na fila foram solidárias, compartilhando comida e brinquedos com seu filho. — Foi tudo muito desgastante e exaustivo — disse Sadovnikova, de 26 anos, acrescentando que precisou passar o dia seguinte dormindo por causa do estresse. — Estamos tentando economizar gasolina e torcendo para que haja mais abastecimento quando o combustível acabar de novo. Ela afirmou que ficou irritada ao ver autoridades em todo o país acusando os russos de estarem comprando combustível por pânico, enquanto todos os postos independentes de sua cidade haviam fechado. Retórica oficial Em conferência realizada na quarta-feira, o ministro da Energia da Rússia, Alexander Novak, insistiu que o país enfrentava apenas “escassez em postos específicos”, problemas que “são resolvidos rapidamente”. Os dados do mercado, porém, mostram um cenário diferente. Em junho, ataques de drones ucranianos haviam retirado de operação cerca de um terço da capacidade de refino de petróleo da Rússia — 2,2 milhões de barris por dia — segundo Ronald P. Smith, sócio-fundador da consultoria texana Emerging Markets Oil and Gas Consulting Partners. Outros analistas estimam uma redução menor, em torno de 25%. “Tapar esse buraco provavelmente exigirá que várias grandes refinarias voltem a produzir gasolina normalmente”, afirmou Smith por e-mail. “Quanto tempo levará para resolver isso depende, na prática, do que foi atingido inicialmente”. Além de avaliar a importação de petróleo, o governo russo também estuda permitir novamente a produção e venda de gasolina de qualidade inferior, com maior teor de enxofre — proibida no país desde 2013 —, informou o jornal Kommersant na segunda-feira, citando um projeto do governo. As autoridades russas costumam evitar divulgar a dimensão dos danos ou do transtorno imposto aos consumidores. Putin, que normalmente evita comentar notícias negativas, rompeu o silêncio no domingo ao admitir, em entrevista à TV estatal, que a Rússia enfrenta “um certo déficit” de combustível, “mas não um déficit crítico”. Segundo ele, os ataques ucranianos buscavam “criar uma divisão na sociedade russa e obrigar a Rússia a interromper, ainda que por um breve momento, o avanço de nossas tropas na linha de frente”. Muitos russos atribuem de forma geral ao governo a responsabilidade pelos problemas do país, mas parecem isentar o próprio Putin. Nadezhdin, o político de oposição, acredita que isso vai mudar. Segundo ele, vê cada vez mais russos “despertando para a ideia de que foi exatamente Putin quem nos trouxe até aqui com suas políticas”. — Se os russos continuarem vendo Putin na televisão fazendo declarações otimistas sobre o crescimento econômico enquanto eles passam horas nas filas para conseguir gasolina, as desconfianças vão surgir.